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14 Novembro 2019

"A raiz do estigma vem da história: tendo sido negada a via da educação e da ascensão social, em particular no ensino superior, outras portas se fecham", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista e assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo.

As duas celebrações quase coincidem: respectivamente, 17 e 20 de novembro de 2019. Mas essa não é a única coincidência entre as duas datas. Dados e estudos em abundância mostram que, no Brasil, a pobreza penaliza de forma mais pesada a população afrodescendente. Trabalhadoras e trabalhadores negros, em serviços correspondentes aos que realizam os brancos, recebem em geral estipêndio inferior a esses últimos. Além disso, um terceiro fator entra em cena: o aumento progressivo dos índices de desigualdade socioeconômica em todo o mundo, mas com maior acento na sociedade brasileira.

O progresso técnico e científico caminha em duas velocidades que parecem ignorar-se uma à outra. Por um lado, os indicadores referentes ao Produto Interno Bruto (PIB) ou à Bolsa de Valores de várias nações, se bem que de forma desacelerada, continuam dando sinais positivos. Por outro, indicadores respectivos à educação, saúde, transporte, segurança, trabalho e salário justo, habitação, etc. revelam uma precariedade cada vez mais acentuada para boa parte da população. No Brasil, conforme recentes dados do IBGE, a extrema pobreza se agravou pelo quarto ano consecutivo, golpeando 13,5 milhões dos cidadãos em 2018. As duas velocidades paralelas e aparentemente indiferentes desencadeiam, ao mesmo tempo, concentração de renda e riqueza nas mãos e poucos e exclusão social para os estratos de baixa renda.

Convém logo acrescentar, entretanto, que as velocidades diferenciadas do progresso técnico e científico nada têm de indiferentes nem aparentes. “Os ricos cada vez mais ricos” o são “às custas dos pobres cada vez mais pobres”, como lembrava, em janeiro de 1979, o então Papa João Paulo II, em sua visita ao México. Não é diferente com o atual Papa Francisco. Também ele tem levantado a voz para denunciar com veemência profética a economia globalizada, a qual promove um tipo de crescimento contínuo, mas desigual, viciado e perverso. “Economia que exclui, descarta e mata”, diz o pontífice. Trata-se de um crescimento desvinculado de um “desenvolvimento integral, como novo nome da paz” – para sublinhar a expressão cunhada pela carta encíclica Populorum Progressio, publicada em 1967, pelo Papa Paulo VI.

Em sua mensagem para este III Dia Mundial dos Pobres (17 de novembro), o Papa Francisco traça um retrato vivo da pobreza: “Também hoje devemos elencar muitas formas de novas escravidões a que estão submetidos milhões de homens, mulheres, jovens e crianças. Todos os dias encontramos famílias obrigadas a deixar a sua terra à procura de formas de subsistência noutro lugar; órfãos que perderam os pais ou foram violentamente separados deles para uma exploração brutal; jovens em busca duma realização profissional, cujo acesso lhes é impedido por míopes políticas económicas; vítimas de tantas formas de violência, desde a prostituição à droga, e humilhadas no seu íntimo. Além disso, como esquecer os milhões de migrantes vítimas de tantos interesses ocultos, muitas vezes instrumentalizados para uso político, a quem se nega a solidariedade e a igualdade? E tantas pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas estradas das nossas cidades” (Nº 2).

Pobreza e condição dos afrodescendentes se cruzam outra vez. A raiz do estigma vem da história: tendo sido negada a via da educação e da ascensão social, em particular no ensino superior, outras portas se fecham. Dois resultados são inevitáveis: ou uma precarização e vulnerabilidade crescentes, que levam às ditas “condições análogas à escravidão”; ou a um recrutamento fácil para os caminhos tortuosos do crime organizado, que leva a becos obscuros e sem saída. Mas, como diz o título da mensagem pontifícia, “a esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sal 9, 19). Vemos isso, por exemplo, no livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio LeYa 2018 (Ed. Todavia, São Paulo, 2018). O escritor baiano levanta a memória viva de uma comunidade quilombola para questionar a história oficial, e apresentar a verdadeira trajetória dos afrodescendentes, durante e depois da abolição da escravatura.

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