Diálogo genuíno leva a Igreja a um território sem roteiro

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08 Novembro 2019

Como o recente Sínodo dos Bispos para a Amazônia demonstrou amplamente, a discussão rapidamente se torna densa e complexa, assim como desafiadora para o status quo, quando o diálogo genuíno é a ordem da reunião. O que o Papa Francisco introduziu no processo sinodal é literalmente um território sem roteiro para uma Igreja que, nas últimas décadas, apenas fingiu dialogar sobre questões importantes.

Publicamos aqui o editorial do jornal National Catholic Reporter, 07-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O que finalmente resultará de um Sínodo que considerou a situação da Terra e da Igreja em um dos pontos ecologicamente mais importantes e mais ameaçados do planeta está, em última análise, nas mãos do papa. Se a sua abordagem ao processo sinodal no passado servir de indicação, no entanto, a exortação apostólica que ele produzirá, provavelmente ainda daqui a vários meses no futuro, refletirá tanto a discussão quanto as decisões dos participantes.

A colegialidade foi uma ideia que ganhou espaço durante os quatro anos de deliberações do Concílio Vaticano II (1962-1965) e foi institucionalizada na forma de um sínodo pelo Papa Paulo VI. Mas os encontros se tornaram, em grande parte, manifestações sem sentido com o Papa João Paulo II, com limites estreitos em torno da discussão permitida e com a presunção de que o documento final refletiria as visões pré-sinodais do papa, independentemente da discussão.

Por outro lado, Francisco usou o Sínodo dos Bispos como “uma característica marcante desse pontificado e (...) como um meio de fazer avançar seu programa de reforma”, de acordo com o eclesiólogo Richard Gaillardetz.

O modelo está mais próximo do previsto pelos bispos no Vaticano II, que viam um sínodo permanente como uma maneira de os bispos exercerem mais autoridade com mais consistência no governo da Igreja. Os bispos estavam em uma posição melhor do que os burocratas vaticanos para entender as necessidades da população local em uma Igreja global, na qual as culturas como as da Amazônia, escondidas de um amplo escrutínio, podem ser mal compreendidas, na melhor das hipóteses, ou completamente ignoradas.

A resistência aberta a este e a outros Sínodos inspirados por Francisco é amplamente um produto de católicos conservadores nos EUA, como aponta o biógrafo papal Austen Ivereigh. Neste caso, as objeções foram em grande parte à possibilidade de ordenação de homens idosos casados; a possibilidade de que as mulheres sejam diáconas; e, de modo variado, à substância primária do Sínodo, que tinha a ver com a limitação da exploração de recursos e da destruição contínua de porções da floresta tropical para atividades como a mineração e a produção de gado.

Assumir os excessos do capitalismo é uma maneira de atrair o ataque feroz dos EUA, assim como falar em alterar os requisitos para a ordenação. Mas os EUA, não apenas rico em padres em comparação com o restante do mundo, mas também disposto a tomar milhares de padres de países que sofrem de um déficit muito maior em termos de clero, dificilmente são a medida do que é certo para o restante da Igreja global. Eles têm simplesmente a voz mais forte.

Convidar a uma discussão robusta e não impor limites às dimensões das conversas são gestos que exigem confiança naqueles que representam a Amazônia. Ao mesmo tempo, ao estimular a oposição, a conversa sem restrições também aumenta as expectativas. Assim, os críticos da esquerda observam devidamente que apenas os homens presentes podiam votar (havia algumas mulheres presentes). As lideranças da Igreja podem celebrar o “gênio feminino”, seja lá o que isso signifique, mas, se esse gênio for proibido de influenciar as decisões no mais alto nível, toda a Igreja perde.

E o que devemos pensar da intenção enfatizada pelo papa, no fim do Sínodo, de reconstituir a comissão que estuda as diáconas, uma possibilidade para a qual houve um apoio “substancial” de acordo com alguns participantes do Sínodo? Quem nomeará esses membros? O que eles serão convidados a estudar? De fato, após várias tentativas anteriores, o que resta estudar? E esta nova rodada de pesquisa levará a uma decisão?

Entre as razões pelas quais Francisco foi eleito, somos levados a acreditar, está o fato de que os cardeais eleitores sabiam que a mudança era essencial. O escândalo dos abusos sexuais e os escândalos bancários e de corrupção curial exigiam uma abordagem substancialmente nova para a governança da Igreja.

Um componente significativo da reforma de Francisco é a descentralização da Igreja, uma devolução a cada bispo do grau de autoridade e confiança exigido para uma liderança saudável e madura. As fronteiras de Francisco não compreendem uma lista de posições “ortodoxas”, mas refletem a exigência de que os bispos sejam pastores em mais do que um sentido simbólico. Se uma maior autonomia é concedida, ela é equilibrada por uma diminuição de privilégios e do poder principesco. Se é concedido um maior espaço para falar livremente, a expectativa é de que esse discurso transmita as necessidades mais profundas dos mais vulneráveis do rebanho.

Não existe uma resposta fácil para a pergunta: o que é um Sínodo? É uma forma destinada a acomodar uma abordagem mais colegial de governo, que reconheça que a Igreja muda – constantemente, e não raramente, nas mãos de forças sobre as quais não tem controle.

A defesa do Sínodo – e de sua evolução com Francisco – ficou evidente nos comentários do papa durante uma missa que encerrou o encontro de um mês, em que ele condenou aqueles que se consideram “justos”.

“A raiz de todo equívoco espiritual”, disse ele, “é se crer justo.”

A Igreja está mudando. A situação na região amazônica reúne, como observamos antes, os temas mais candentes diante da humanidade e da Igreja hoje. A Terra está indiscutivelmente sob ataque por causa da atividade dos seres humanos, e em nenhum lugar isso fica mais demonstrável do que nesse ecossistema criticamente importante. A humanidade pode chegar a um acordo sobre maneiras de protegê-lo?

A Igreja lá está sendo atacada não apenas pela devastação ambiental, mas também porque precisa desesperadamente de ministros sacramentais se quiser sobreviver. Assim como essa destruição da floresta tropical é um prenúncio de coisas que estão por vir globalmente, se a Igreja puder encontrar a vontade e a sabedoria para nutrir a vida da comunidade católica lá, isso poderá muito bem determinar como a Igreja em geral se sairá no futuro.

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