O teste de um país não é o número de milionários que tem, mas sim a ausência de fome entre as suas massas

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Os Padres da Caminhada se solidarizam com o padre Riva, vítima de racismo em Alfenas – MG

    LER MAIS
  • Acabemos com o sistema clerical

    LER MAIS
  • O que a dor nos ensina. Artigo de Corrado Augias

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


03 Novembro 2019

"A cada ano, os povos do planeta se levantam e anunciam que a intifada mundial começou. Alguns meses depois, suas esperanças são esmagadas, e a fórmula segue igual: mais bilionários, mais gente faminta."

O artigo é de Vijay Prashad, publicado por Resumen Latinoamericano, 01-11-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

A jovem caminha pela estrada. Leva uma bandeira do Iraque. Ela quer viver em um país onde suas aspirações possam ser alcançadas e não sufocadas pelos desejos da trágica história do Iraque. O som dos disparos é familiar; voltou à cidade, com as balas voando em direção aos manifestantes. O poeta Kadhem Khaniar, membro da Milícia da Cultura, captura a essência do que está ocorrendo e leva ao Facebook.

Assim é como simplesmente morremos.


Foto: Tricontinental

À margem da esperança se encontram os disparos dos quais Frantz Fanon chamou “o velho pedestal de granito em que descansa a nação”. No momento do protesto, quando começam os disparos, chega a claridade. Não deveríamos ser ingênuos quanto ao caráter da elite, cujos sorrisos camuflam as instruções dadas relutantemente aos agentes de polícia, seus “homens simples” prontos para matar “pessoas simples”. No melhor dos casos, o “pedestal de granito” se encolhe, reordena seu gabinete, oferece reformas modestas; no pior, os soldados – cujas caras estão cobertas para impedir que se vejam suas lágrimas – disparam em seus familiares.

Longe dali, em Londres, Paris, Frankfurt e Washington D.C., as elites farejam, tiram as caspas de seus ombros. “Não somos como eles”, dizem as elites de Santiago e Bagdad, ainda que todos saibam que são idênticas, pois não há muito tempo mandaram os seus robocops para humilhar os coletes amarelos e o movimento Occupy Wall Street.

Há décadas, o escritor chileno-argentino Ariel Dorfman se sentou no metrô de Paris, lendo Pontos de vista de um palhaço (1963), de Heinrich Böll. “Deve ser uma profissão triste”, disse um homem sentado em frente a Dorfman, referindo-se ao palhaço. Tanto Dorfman como o homem reconheceram que o outro estava triste. O homem disse que era do Brasil. Se apoiaram mutuamente por sua situação comum, seus países estavam sob ditaduras. “Estou triste”, disse o homem, “porque quero que vençamos, porém, no meu coração, penso que não conseguiremos”.


Imagem: Tricontinental

O homem falou da dura crosta da realidade, a sensação de que as elites estão atrincheiradas em seu pedestal de granito, negando-se a deixar que a humanidade o destrua e libere o melhor da ética humana. Isso é o que ambos os homens entenderam, ainda que ambos quisessem ganhar. É o desejo de ganhar que levou mais de um milhão de pessoas às ruas de Santiago (Chile), e foram esses milhões os que cantaram a canção de Victor Jara, El derecho de vivir em paz, que Jara cantou para Ho Chi Minh e os vietnamitas em 1971. Dois anos mais tarde, a ditadura no Chile prendeu e assassinou Jara brutalmente.


"El derecho de vivir en paz", outubro de 2019. Milhares de pessoas cantaram Victor Jara nas ruas de Santiago, neste mês, com sua melodia, ao mesmo tempo triste e desafiante, levantando as reivindicações de Jara.

Em 22 de dezembro de 1916, M. K. Gandhi deu uma conferência no Muir Central College Economic Society em Allahabad (Índia). Ali, Gandhi ofereceu uma forma simples de medir a civilização: “a prova da ordem em um país”, disse, “não é o número de milionários que tem, mas sim a ausência de fome entre suas massas”.


Arte de Johan Söderström, 2019, sobre fotografia de Susana Hidalgo.

Cem anos mais tarde, a frase segue sendo elétrica, com uma única correção: não são milionários, mas sim bilionários. O grande banco Credit Suisse publica um informe anual sobre a riqueza global. O relatório atual, publicado neste mês, calcula que 1% da população mundial possui 45% da riqueza mundial total, enquanto o 10% mais rico possui 82% da riqueza mundial total; a metade inferior dos possuidores de riqueza – 50% da humanidade – representa menos de 1% da riqueza mundial total. Essa pequena porcentagem, o 1%, é o núcleo do pedestal de granito. Mais da metade das pessoas mais ricas vivem na América do Norte e Europa; exatamente a metade dos super-ricos – os indivíduos de Valor Líquido Ultra Alto que têm mais de 50 milhões de dólares cada um – vivem na América do Norte. O censo de bilionários de 2019, da Wealth-X, mostra que os Estados Unidos têm 705 bilionários, muito mais que o número combinado de bilionários dos oitos países subsequentes no ranking.

O Chile tem o mais alto índice de desigualdade entre os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Seus bilionários distribuem dinheiro nos bolsos dos principais partidos políticos, gerando a impressão de que democracia se trata de arrecadar fundos dos grandes blocos capitalistas, em vez de levar as aspirações do povo à política. Os Angelinis, Paulmanns, Cuetos, Solaris e Lucksics podem apoiar diferentes facções políticas, mas ao final do dia – seja quem for que ganhe – esses bilionários e seus conglomerados são aqueles que estabelecem as políticas e aqueles que se beneficiam delas. É por isso que mais de um milhão de pessoas saíram às ruas para cantar Victor Jara. Querem o direito de viver em paz, o direito de controlar suas próprias vidas.

O padrão de Gandhi não se refere somente à quantidade de ultrarricos, mas também àqueles que lutam cada dia contra a fome. Há alguns meses, a Organização Mundial da Saúde publicou um relatório sobre a fome, no qual mostrava que ao menos 821 milhões de pessoas dormem com fome à noite. É uma cifra espantosa. Porém isso não é tudo. Os estudos realizados por organismos da ONU apontam que aproximadamente 2 bilhões de pessoas – uma em cada quatro – sofrem de insegurança alimentar moderada ou severa, o que significa que “não têm acesso regular a alimentos seguros, nutritivos e suficientes”.

Esta é a situação. Segundo a simples fórmula de Gandhi, o mundo não passa no teste.


"Hope [Esperança]", de George Frederic Watts, 1886

O Chile faz fronteira com Argentina e Bolívia. Na Argentina, as eleições presidenciais expulsaram Macri, que ficou ferido pela volta ao FMI. Na Bolívia, Evo Morales manteve seu posto por um quarto período. Suas vitórias são importantes, ainda que tenham um “espaço de políticas” limitado. Evo lutou por ampliar esse espaço, por empurrar o mais forte possível para levar a Bolívia em uma direção progressista. Enquanto a taxa de crescimento do Chile fica em 1,7%, a Bolívia cresceu 4,2%. Porém essas cifras não são suficientes. A pressão do imperialismo reduz a capacidade de um governo de esquerda de incorporar os desejos do povo na lógica da governança.

O recente relatório sobre comércio e desenvolvimento da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) recorda algo que a própria organização tem dito desde sua formação em 1964: os países do Sul Global necessitam de um espaço de políticas importantes “para perseguir suas prioridades nacionais”. A ideia de um “espaço de políticas” foi desenvolvida pela primeira vez na UNCTAD de 2002, e alcançou status oficial no Consenso de São Paulo de 2004, na UNCTAD XI. O termo articula três princípios vinculados:

1. O princípio da igualdade soberana dos Estados (carta das Nações Unidas, artigo 2.1);

2. O princípio do direito ao desenvolvimento (Declaração sobre o direito ao desenvolvimento, Assembleia Geral da ONU, em sua resolução 41/128, 1986);

3. O princípio de trato especial para os países em desenvolvimento, em particular a entrega de um trato especial e diferenciado (Declaração sobre o direito ao desenvolvimento, Assembleia Geral da ONU, em sua resolução 41/128, 1986, artigo 4.2).

É certo que inclusive com um “espaço de políticas” reduzido, muitos instrumentos importantes permanecem em mãos dos governos. No entanto, frequentemente esses instrumentos são embaçados pelas “prioridades” estabelecidas por organizações multinacionais como o FMI e o Banco Mundial, por acordos comerciais, por pressões do G7, e pela profissão econômica dominante, que há tempo perdeu seu rumo. Tais instrumentos são ainda mais embaçados pelas ameaças de sanções se os governos de esquerda seguem seu próprio caminho. Porém, o “espaço de políticas” não é o único problema, o maior problema é a falta de financiamento.

Países como Argentina e Bolívia, com governos de esquerda, simplesmente não têm a capacidade de levantar fundos para as prioridades estabelecidas por seus próprios povos mediante as eleições. O eleitorado pode dizer não à austeridade, porém – como descobriram os gregos – sua voz tem menos poder que a da indústria bancária e os Estados imperialistas; para os gregos, se tratava de troika (o FMI, o Banco Central Europeu e a União Europeia). O último relatório da UNCTAD indica a importância do financiamento através da criação de Bancos de Desenvolvimento Público de propriedade estatal (PDB, na sigla em inglês). A partir do relatório, Jomo Kwame Sundaram e Anis Chowdhury estabelecem o mecanismo para os PDB:

1. Proporcionar mais capital aos bancos públicos para ampliar os empréstimos, inclusive mediante financiamento direto;

2. Apoiar os bancos de desenvolvimento com mandatos governamentais claros, indicadores de desempenho e mecanismo de prestação de contas, valorizando outros critérios além dos financeiros;

3. Evitar que os PDB fiquem subordinados a critérios comerciais de curto prazo;

4. Fomentar que os fundos soberanos, cujos ativos se estimam em 7,9 bilhões de dólares, destinem recursos em apoio aos PDB;

5. Garantir que os reguladores bancários tratem os bancos públicos, especialmente os PDB, com uma compreensão adequada de seus mandatos específicos;

6. Liberar os bancos centrais de seu típico enfoque estreito sobre a estabilidade de preços, em geral mediante um “objetivo de inflação” nas últimas décadas, para que assumam funções de desenvolvimento mais audaciosas e proativas.


Juan Grabois, Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP) e Frente Pátria Grande falam em People's Dispatch, sobre os desafios do novo governo na Argentina.

A jovem mulher na estrada de Bagdad, as pessoas cantando Victor Jara em Santiago, os eleitores na Argentina e na Bolívia, os manifestantes das ruas de Atenas, o que todos querem é que seus governos criem políticas que provenham de suas aspirações. Querem que essas políticas produzam menos pessoas famintas e menos bilionários. Querem vencer. Não querem estar como Dorfman e seu amigo brasileiro, tristes porque querem vencer, porém temem não conseguir.

A cada ano, os povos do planeta se levantam e anunciam que a intifada mundial começou. Alguns meses depois, suas esperanças são esmagadas, e a fórmula segue igual: mais bilionários, mais gente faminta. Porém, algum dia, o sol brilhará e o anjo da história sorrirá com ele; os raios de sol derreterão o velho pedestal de granito e teremos o direito de viver em paz.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O teste de um país não é o número de milionários que tem, mas sim a ausência de fome entre as suas massas - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV