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25 Outubro 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, 27 de outubro (Lucas 18,9-14). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A parábola que a liturgia deste domingo nos faz escutar é colocada por Lucas no capítulo 18, ainda em relação à oração. Quando rezar? Sempre e com intensidade, responde a parábola do juiz iníquo e da viúva insistente (cf. Lc 18,1-8), escutada no domingo passado.

Como rezar? Como o publicano, e não como o fariseu, responde a parábola deste domingo. Mas algo mais está em jogo nesse texto. Ou, melhor, Jesus trata, sim, de duas atitudes diferentes na oração, mas, na realidade, através delas, amplia o horizonte: ensina-nos que a oração revela algo que vai além de si mesma, diz respeito ao nosso modo de vida, à nossa relação com Deus, com nós mesmos e com os outros.

Tudo isso já está contido no incipit: “Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. O pecado desses homens religiosos não é a presunção de serem justos, mas sim o fato de colocarem fé-confiança em si mesmos e não em Deus. A sua observância das leis e a sua escrupulosa prática religiosa os convencem de que podem confiar em si mesmos, sem esperar mais nada de Deus.

Tal atitude tem como óbvia consequência o fato de considerar os outros como nada, de desprezá-los. Jesus sabe, precisamente porque também é uma pessoa religiosa e conhece bem os riscos da religião, que não basta ser filho de Abraão para ser um verdadeiro crente. O Batista já havia dito: “Não comecem a pensar: ‘Abraão é nosso pai’. Porque eu lhes digo: até destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão” (Lc 3,8).

Jesus sabe que existem barreiras criadas pelos humanos que não o são para Deus. Jesus sabe que existem pessoas religiosas que, na realidade, são incrédulos, habitados pela idolatria, que ostentam a sua fé, mas, depois, não realizam a vontade de Deus...

Eis, então, o relato da parábola: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro, cobrador de impostos”. O templo é o lugar onde se adora o Deus vivo, o lugar do encontro com ele, através do culto estabelecido pela Torá. Ambos estão no espaço reservado aos filhos de Israel, na frente do Santo, reservado aos sacerdotes. Ambos invocam o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus que se revelou como Senhor a Moisés, o Deus que estabeleceu sua morada no templo de Jerusalém. Mas as semelhanças terminam aí.

Um deles é um militante do movimento dos fariseus, o outro, um cobrador de impostos, alguém que exerce um ofício desprezado, pertencente a uma categoria de corruptos. Além disso, o cobrador de impostos é chamado de “publicano” por ser “publicamente pecador”, “corrupto manifesto”, por isso, amaldiçoado por Deus e pelos homens.

O fariseu, considerando-se em conformidade com as expectativas de Deus, está de pé, na posição habitual do orante judeu, e faz em seu coração uma oração que deveria ser um agradecimento a Deus. Mas, na realidade, ele está concentrado em si mesmo e, enquanto se orgulha dos seus méritos, se autocompraz, faz a comparação entre si e os outros, julgando-os. Não há nenhuma dúvida nele, mas sim o fato de estar de pé, certo de que está diante de Deus, de cabeça erguida, alheio ao fato de que só pode estar de pé por graça, por ter sido feito filho de Deus.

O seu monólogo declara distância dos outros homens, mas também distância de Deus, não conhecimento dele, do qual espera apenas um “amém” às suas palavras. Agostinho anota com firmeza: “Ele subiu para rezar; mas não quis rezar a Deus, mas sim louvar a si mesmo”. É evidente que em tal oração toda a relação com Deus é pervertida: o chamado à fé é um privilégio, a observância da Lei é uma garantia, o fato de estar em uma condição moral reta é um pretexto para se sentir superior aos outros.

Mas preste atenção: o que Jesus estigmatiza no fariseu não é o fato de ele fazer obras boas, mas o fato de que ele, na sua confiança em si mesmo, não espera nada de Deus. O problema é que ele se sente saudável e não precisa de um médico, sente-se justo e não precisa da santidade de Deus (cf. Lc 5,31-32): esqueceu que a Escritura afirma que o justo peca sete vezes por dia (cf. Pr 24,16), isto é, infinitas vezes!

Sim, quantos, sendo observantes e, portanto, justos, confiam em si mesmos, agradecem a Deus pelo que são e não acham que precisam pedir misericórdia a Deus, que precisam mudar algo na própria vida, mas são arrastados pela satisfação própria a desprezar os outros! Por isso, o fariseu, no seu agradecimento, enumera os pecados alheios, dos quais se sente isento: “São ladrões, desonestos, adúlteros”, para não falar do publicano que está com ele no templo...

Mas eis, diante dessa oração, a do pecador público. No começo do evangelho, Jesus havia chamado um publicano, Levi, para ser seu discípulo, e ele havia se dirigido a um banquete na sua casa, escandalizando escribas e fariseus (cf. Lc 5,27-32); no fim, pouco antes da sua entrada em Jerusalém, seria outro publicano, Zaqueu, que acolheria Jesus na sua casa, provocando ainda a reprovação dos homens religiosos (cf. Lc 19,1-10).

Desse modo, o anúncio do Batista segundo o qual “até destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão” (Lc 3,8) torna-se evento em Jesus; não é quem diz que tem Abraão por pai que é seu filho (cf. ibid.), mas sim alguém como Zaqueu, publicano, que é declarado por Jesus como “filho de Abraão”, alcançado na própria casa pela salvação (cf. Lc 19,9).

Mas por que Jesus escolhia preferencialmente a companhia dos pecadores públicos, a ponto de dizer aos homens religiosos: “Os publicanos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no reino de Deus” (Mt 21,31)? Não para surpreender ou escandalizar, mas sim para mostrar, paradoxalmente, que essas pessoas marginalizadas e condenadas são o sinal manifesto da condição de todo ser humano.

Todos somos pecadores – e pecamos, sempre que possível, de modo oculto! –, mas Jesus havia entendido uma coisa simples: os pecadores públicos estão expostos à desaprovação alheia e, por isso, são mais facilmente induzidos ao desejo de mudar a sua condição; isto é, eles podem viver a humildade como fruto das humilhações sofridas e, consequentemente, podem ter em si mesmos aquele “coração contrito e esmagado” (Sl 51,19) capaz de levá-los a mudar de vida.

O publicano é um homem não garantido pelo que faz; ao contrário, os seus pecados manifestos o tornam objeto de desprezo por todos. Ele sobe ao templo na consciência, sempre renovada por causa do julgamento alheio, de ser um pecador, mendicante do perdão de Deus. Por isso, Lucas descreve com precisão o seu comportamento, oposto ao do fariseu. Ele “ficou à distância”, não ousa se aproximar do Santo dos Santos, onde mora a presença de Deus; “nem se atrevia a levantar os olhos para o céu”, mas os mantém abaixados, envergonhando-se da própria condição; “batia no peito”, gesto típico de quem quer manifestar o seu arrependimento, como as multidões diante do “espetáculo” (Lc 23,48) da morte em cruz de Jesus.

As suas palavras são muito breves: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. É a invocação que retorna várias vezes nos Salmos (cf. Sl 25,11; 51,13 etc.). É pedir a Deus que continue sempre tendo muita piedade de nós, pecadores: como precisamos dela! É “a oração do humilde que penetra as nuvens” (Eclo 35,17), que não desperdiça palavras, mas que vive da relação com Deus, da relação consigo mesmo, da relação com os outros: pede perdão a Deus, confessa o próprio pecado e a solidariedade com os outros homens e mulheres.

O publicano se apresenta a Deus sem máscaras, os seus pecados manifestos o tornam objeto de escárnio: não tem nada para se vangloriar, mas sabe que só pode implorar piedade do Deus três vezes Santo. Ele sente o mesmo sentimento de Pedro, perdoado desde o momento da sua vocação, quando, diante da santidade de Jesus, grita: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5,8; cf. Is 6,5).

A humildade desse homem não consiste em fazer um esforço para se humilhar: a sua posição moral é exatamente a que ele confessa e da qual é humilhado! Não tem nada a reivindicar, por isso conta com Deus, não consigo mesmo. E isso também vale para nós: o nosso nada é o espaço livre em que Deus pode agir, é o vazio aberto à sua ação; naqueles que são muito “cheios de si”, Deus é impossibilitado de agir...

E note-se: Jesus não elogia a vida do publicano, assim como não condena as ações justas do fariseu, mas a sua condenação vai ao modo pelo qual o fariseu olha para as suas ações e, através delas, ao próprio Deus.

Terminada a parábola, eis o julgamento de Jesus: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado (por Deus), o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. Esta última frase proverbial, já presente no término da parábola sobre a escolha dos lugares à mesa pelos convidados em um banquete (cf. Lc 14,11), ecoa as palavras do Magnificat: “O Senhor eleva os humildes” (Lc 1,52).

Mas como entender essa elevação e esse abaixamento? E, acima de tudo, como entender a humildade, virtude ambígua e suspeita? A humildade não é falsa modéstia, não equivale a um “eu mínimo”: não é quem se faz orgulhosamente humilde que é elevado por Deus, porque isso equivaleria a replicar a atitude do fariseu, seria orgulho mascarado por falsa humildade.

Não, é elevado por Deus quem reconhece o próprio pecado, que, aderindo à própria realidade, reconhece o próprio pecado, acolhe as humilhações dos outros como remédio salutar e, sofrendo tudo isso, persevera no reconhecimento da graça e da compaixão de Deus, ou seja, na confiança em Deus, contando com a sua misericórdia que pode transfigurar a nossa fraqueza.

Através da figura do publicano, Jesus nos exorta a nos humilharmos no sentido de nos deixar acolher e perdoar por Deus, que, com a sua força, pode nos cuidar e nos curar; a não perdermos tempo olhando para fora de nós, perscrutando os outros com olho malvado e espiando os seus pecados; a aceitarmos reconhecer a nossa condição de pessoas que “não fazem o bem que querem, mas o mal que não querem” (cf. Rm 7,19).

O publicano não construiu nem se orgulhou da sua justiça diante de Deus e dos outros, mas deixou a Deus a liberdade de julgar; confiou-se a Deus, invocando a sua misericórdia como único dom de que verdadeiramente precisava. Com uma oração tão breve e simples, ele entrou em comunhão com Deus sem se separar dos outros e, agora, perdoado, retorna à vida cotidiana na companhia dos homens.

A palavra conclusiva de Jesus, solene e autorizadamente introduzida pelo “Eu vos digo”, faz de um justo um pecador, e de um pecador um justo. O julgamento de Deus, narrado por Jesus, subverte os julgamentos humanos: quem se acreditava distante e perdido é acolhido e salvo, enquanto quem se acreditava aprovado, ao lado de Deus, é humilhado e distanciado.

Isso pode parecer escandaloso, pode parecer uma pedra de tropeço na vida de fé para os homens religiosos, mas é uma boa notícia, é Evangelho para quem se reconhece pecador e necessitado da misericórdia de Deus como do ar que respira.

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