Francisco, o outro Jorge e as encantadoras “listas vertiginosas”

Revista ihu on-line

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Mais Lidos

  • Uma análise de fundo a partir do golpe de Estado na Bolívia

    LER MAIS
  • Gregório Lutz e a reforma litúrgica no Brasil. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • Lula desequilibra o jogo. Craque é craque

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

21 Outubro 2019

De maneira completamente casual, por iniciativa de uma amiga querida, voltei a um texto de Gaudete et exsultate e parece-me ter descoberto uma "fonte" de inspiração de Francisco, ligada à sua cultura argentina e às suas paixões mais originárias. Por outro lado, não devemos esquecer que, quando jovem, o futuro papa havia ensinado por dois anos "literatura espanhola" (cfr. relata Giacomo Giambassi em seu texto por mim publicados anos atrás) no Colégio Jesuíta de Santa Fe de la Vera Cruz. Ele nunca se esqueceu dessa experiência, sempre a levou consigo.

O comentário é de Andrea Grillo, teólogo italiano, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua, publicado por Come Se Non, 19-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Acontece, portanto, que essa amiga, que estava elaborando um texto sobre a santidade, tenha me passado seu artigo, para um conselho: nesse documento ela citava essa passagem surpreendente, dedicada por Francisco à "santidade do cotidiano"; nesta passagem, em minha primeira leitura do documento, não havia posto muita atenção, misturada como estava nos muitos números da Exortação papal. Agora, precisamente porque, neste caso, a passagem era citada sozinha, isolada, a olhei com outros olhos e descobri algo que me deixou muito feliz. Relato imediatamente abaixo, assim como o vi:

144. Lembremo-nos como Jesus convidava os seus discípulos a prestarem atenção aos detalhes:

  • o pequeno detalhe do vinho que estava a acabar numa festa;
  • o pequeno detalhe duma ovelha que faltava;
  • o pequeno detalhe da viúva que ofereceu as duas moedinhas que tinha;
  • o pequeno detalhe de ter azeite de reserva para as lâmpadas, caso o noivo se demore;
  • o pequeno detalhe de pedir aos discípulos que vissem quantos pães tinham;
  • o pequeno detalhe de ter a fogueira acesa e um peixe na grelha enquanto esperava os discípulos ao amanhecer.

145. A comunidade que guarda os pequenos detalhes do amor, e na qual os membros se cuidam e formam um espaço aberto e evangelizador, é o lugar da presença do Ressuscitado que a vai santificando de acordo com o plano do Pai.

Fiquei imediatamente impressionado com a "ousadia" da lista. O critério com o qual são reunidos episódios tão diferentes da narrativa evangélica parece surpreendente, "extravagante", excêntrico, vertiginoso, mas dotado de uma eficácia rara, que se impõe e convence: é uma extravagância persuasiva, uma originalidade forte, mas espiritualmente e teologicamente capaz de abrir um novo olhar para textos e existências.

Certamente, o Papa, em tudo isso, sabe se abastecer na grande tradição sapiencial da Igreja, na espiritualidade inaciana, nos padres do deserto, nos monges da Idade Média, nos santos modernos. Acredito, porém, que exista uma fonte oculta, uma palavra mais secreta e mais incisiva, que o inspira pelas audaciosas escolhas linguísticas e pelas combinações inéditas e ousadas.

Creio que não seja arriscado supor que um texto como aquele que eu agora gostaria de citar, que vem de uma fonte certamente "não teológica", tenha permanecido fixo na memória poética e expressiva, primeiro do jovem padre jesuíta, depois do professor e depois do bispo, depois do cardeal e, finalmente, também do papa. Aqui está um texto singularmente ousado desta fonte, que poderíamos chamar de "fonte JLB":

"Em 1517, o padre Bartolomeu de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos fatos: os blues de Handy, o sucesso alcançado em Paris pelo pintor-doutor uruguaio D. Pedro Figari, a boa prosa agreste do também oriental D. Vicente Rossi, a dimensão mitológica de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra da Secessão, os três mil e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia Espanhola, o impetuoso filme Aleluya, a fornida carga de baionetas levada por Soler à frente de seus Pardos y Morenos em Cerrito, a graça da senhoria de Tal, o negro que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba El Manisero, o napoleonismo embargado e encarcerado de Toussaint Louvertoure, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cobras degoladas pelos machado dos papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe." (História universal da infâmia)

Este texto de Jorge Luis Borges, que abre sua singular História universal da infâmia, manifesta à atenção do leitor muitas das características desse extraordinário contador de histórias e poeta. Acima de tudo, oferece-nos uma chave preciosa para entender as "listas vertiginosas" que aparecem, aqui e ali, também na palavra de Francisco. O qual aprendeu a falar, a escrever e a pensar assumindo um traço "literário" e "sapiencial" também desse grande autor, que leu e acompanhou de maneira intensa por anos. O fato de convidá-lo para dar aula a seus alunos, em 1965, quando ele tinha 28 anos e Borges já tinha 66, convencendo-o a fazer uma viagem de ônibus de seis horas para chegar à escola de Santa Fé, distante quase 500 km de Buenos Aires, onde o "maestrillo" Bergoglio ensinava há alguns meses - explica muito sobre o vínculo literário e pessoal que então se estabeleceu entre o jovem jesuíta e o grande escritor, agora quase cego.

Um poeta, um intelectual, um escritor como Borges foi, para Francisco, mestre de escrita, na forma paradoxal de um agnóstico "padre da Igreja". Deu a ele o gosto por uma palavra que transgrede, que transcende, mas que ilumina, que encanta. Uma palavra que, segundo a tradição, a renova e a amplia. Com sabedoria e ironia, com imaginação e com inquietação, com superabundância e com um vívido sentimento de incompletude. O papa, que pôde ter a liberdade de descrever a escrita teológica, falando aos coirmãos da Civiltà Cattolica, como caracterizada por "inquietude, incompletude, imaginação", é um discípulo do Senhor, é um aluno de Inácio, é um filho da América, mas também é um admirador e um leitor apaixonado de Jorge Luis Borges. Assim, renova a tradição, assim faz caminhar a Igreja. Assim, ele pode não apenas ter uma relação, mais ou menos fácil, com a cultura, mas pode ser capaz de fazer, ele próprio, cultura, de modo direto, com autoridade, solto, original, irresistível.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Francisco, o outro Jorge e as encantadoras “listas vertiginosas” - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV