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18 Outubro 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 29º Domingo do Tempo Comum, 20 de outubro (Lucas 18,1-8). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No Evangelho segundo Lucas, Jesus já havia feito um ensinamento sobre a oração através da entrega aos discípulos do Pai-Nosso (cf. Lc 11,1-4) e de uma parábola, comentada posteriormente, sobre a necessidade de insistir na oração, pedindo e batendo à porta de Deus, que sempre concede o Espírito Santo, isto é, a melhor coisa entre as coisas boas, a mais necessária aos fiéis (cf. Lc 11,5-13).

No capítulo 18, há uma retomada desse ensinamento, através da parábola paralela à do amigo inoportuno: a parábola do juiz injusto e da viúva insistente.

É necessário rezar sempre, diz Jesus. Mas o que significa rezar sempre? E, ainda, devemos nos perguntar: como é possível? Evitar essas perguntas significa, para o fiel, remover uma verdade elementar: a oração é uma ação difícil, cansativa, e, por isso, é muito comum, até mesmo entre os fiéis maduros e convictos, ser vencidos pela dificuldade de rezar, pelo desânimo, pela constatação de que não ter sido ouvido de acordo com os desejos, pelas vicissitudes da vida.

Hoje, além disso, a pergunta não é apenas: “como rezar?”, mas também: “por que rezar?”. Vivemos em uma cultura na qual ciência e técnica nos fazem acreditar que nós, humanos, somos capazes de tudo, que devemos sempre buscar uma eficácia imediata, que a autonomia que nos foi dada por Deus para viver no mundo nos exime de nos voltarmos para ele.

E também se deve reconhecer que, às vezes, em muitos fiéis, a oração parece apenas o fruto de uma indomável angústia, um falatório com Deus, uma verbalização de sentimentos gerados pelas nossas profundezas, devoção e piedade em busca de garantia e de méritos para nós mesmos. Há uma oração difusa que é feia e falsa: não a oração cristã, aquela segundo a vontade de Deus, aquela de que Deus gosta.

E, então, além das dificuldades naturais que frequentemente denunciamos – falta de tempo, velocidade da vida cotidiana, distrações, aridez espiritual –, o que podemos aprender com o Evangelho sobre a oração?

Acima de tudo, deve-se reiterar sempre que a oração cristã se acende, nasce da escuta da voz do Senhor que nos fala. Assim como “a fé nasce da escuta” (Rm 10,17), assim também a oração, que nada mais é do que a eloquência da fé (cf. Tg 5,15). Para rezar de modo cristão, e não como os pagãos (cf. Mt 6,7), isto é, os outros caminhos religiosos humanos, é necessário escutar, é preciso deixar que os ouvidos sejam abertos pelo Senhor que fala e acolher a sua Palavra: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta” (1Sm 3,9). Não existe oração mais alta e essencial do que a escuta do Senhor, da sua vontade, do seu amor que nunca deve ser merecido.

Uma vez realizada a escuta, a oração pode se tornar um pensar diante de Deus e com Deus, uma invocação do seu amor, uma manifestação de louvor, adoração, confissão para com ele. A oração muda em cada um de nós dependendo da idade, do caminho espiritual percorrido, das situações em que vivemos.

Existem tantas maneiras de rezar quanto os sujeitos orantes. E ai dos que pretendem julgar a oração de outro: o sacerdote Eli julgava a oração de Ana na morada de Deus como o murmúrio de uma bêbada, enquanto aquela era uma oração agradável a Deus e por ele escutada (cf. 1Sm 1,9-18)!

Portanto, verdadeiramente, a oração pessoal é “secretum meum mihi”, e a oração litúrgica deve inspirá-la, ordená-la, iluminá-la e torná-la cada vez mais evangélica, como Jesus Cristo a estabeleceu.

Quando isso ocorre, a oração deve ser apenas insistente, perseverante, não falhar, porque, quer viva do pensar diante de Deus ou com Jesus Cristo, quer se manifeste como louvor ou ação de graças, quer assuma a forma da intercessão pelos humanos, é sempre diálogo, comunicação com Deus, abertura e acolhida da sua presença, tempo e espaço em que o Espírito de Deus, que é vida, inspira, consola e sustenta.

Eis porque se deve rezar sempre! Não se trata de repetir constantemente fórmulas ou ritos (seria impossível fazê-lo continuamente), mas de pensar e fazer tudo na presença de Deus, escutando a sua voz e confessando a fé nele. Por isso, o apóstolo Paulo, nas suas cartas, várias vezes e com diversas expressões, repete o mandamento: “Rezem ininterruptamente” (1Ts 5,17); “sejam perseverantes na oração” (Rm 12,12); “em todas as ocasiões, rezem com todo tipo de orações e súplicas no Espírito” (Ef 6,18); “perseverem na oração e vigiem nela, dando graças” (Col 4,2).

Isso significa permanecer sempre em comunhão com o Senhor, sentindo a sua presença, invocando-o no próprio coração e ao nosso lado, oferecendo-lhe o corpo, isto é, a vida humana concreta, como sacrifício vivo, santo e aceitável a Deus (cf. Rm 12,1).

E eis, então, a parábola. Há uma viúva (categoria que, junto com o órfão e o pobre, expressa, segundo a Bíblia, a condição de quem é indefeso, oprimido) que pede a um juiz que lhe faça justiça, que a liberte da sua injusta opressão.

Mas esse juiz, diz Jesus, “não teme a Deus e não respeita homem algum”. É, portanto, um mau juiz, que nunca exerceria a justiça em favor daquela mulher; no entanto, em um certo momento, vencido pela sua insistência e para não ser mais atormentado por ela, decide atendê-la. Ele faz isso na sua lógica egoísta, para não ser mais perturbado.

No fim dessa breve parábola, Jesus faz-se exegeta dela e, com autoridade, faz uma pergunta aos seus ouvintes: “Se isso acontece na terra por parte de um juiz que não se importa nem com a justiça humana nem com a Lei de Deus, Deus que é juiz justo não escutará, talvez, as súplicas e os gritos dos chamados por ele para serem seu povo, sua comunidade e assembleia em aliança com ele? Tardará, talvez, a intervir?”.

Com essas palavras, Jesus confirma a fé dos fiéis nele e tenta aplacar a sua ânsia e as suas dúvidas sobre o exercício da justiça por parte de Deus. A comunidade de Lucas, de fato, mas também hoje as nossas comunidades, custam a crer que Deus é o defensor dos pobres e dos oprimidos.

A injustiça continua reinando, e, apesar das orações e dos gritos, nada parece mudar. Mas Jesus, com a sua força profética, assegura: “Deus lhes fará justiça bem depressa!”. Haverá o juízo de Deus, ele virá sobre todos nós como a sua intervenção repentina e chegará bem depressa, na pressa escatológica, mesmo que para nós, humanos, pareça tardar.

“Aos teus olhos, ó Deus, mil anos são como ontem”, canta o Salmo (90,4), e é verdade que para nós, humanos, não é como para Deus, mas aguardamos aquele dia que, embora pareça demorar, virá bem depressa, sem tardar (cf. Hc 2,3; Hb 10,37; 2Pd 3,9).

Portanto, a perseverança em rezar tem os seus efeitos, não é inútil, e devemos sempre lembrar que Deus é um juiz justo que exerce o juízo de um modo que, por enquanto, não conhecemos. Somos míopes e cegos quando tentamos ver a ação de Deus no mundo e, acima de tudo, a ação de Deus sobre os outros...

Mas, para Jesus, a oração é o outro lado da moeda da fé, porque, como já se disse, ela nasce da fé e é a eloquência da fé. Por isso, segue-se uma última pergunta, não retórica, que indica a inquietação de Jesus sobre a aventura da fé no mundo: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?”. Pergunta que também nos inquieta, a nós que, às vezes, temos a impressão de ser os últimos cristãos sobre a terra e tememos que a nossa fé falhe. Nada está garantido, nada está assegurado, e, infelizmente, há cristãos convencidos de que a Igreja permanecerá sempre presente na história. Mas quem assegura isso, se nem mesmo a fé está assegurada?

Deus certamente não abandona a sua Igreja, mas esta pode se tornar uma não Igreja, a ponto de diminuir, desaparecer e se dissolver no mundanismo, talvez religioso, sem ser mais comunidade de Jesus Cristo, o Senhor. O chamado de Deus é sempre fiel, mas os cristãos podem se tornar incrédulos, a Igreja pode renegar o Senhor.

Quando lemos o nosso hoje, podemos, talvez, deixar de denunciar a morte da fé como confiança, adesão, fé na humanidade e no futuro, antes mesmo do que no Deus vivo? E, se falta a confiança nos outros que vemos, como podemos cultivar uma confiança no Outro, no Deus que não vemos (cf. 1Jo 4,20)?

A falta de fé é a razão profunda de muitas patologias dos fiéis, e a tentação de abandonar a fé é cotidiana e está presente nos nossos corações. Portanto, só nos resta renovar a fé, com a esperança na vinda de Jesus, Filho do homem, justo Juiz, e com o amor fraterno vivido a partir do amor de Jesus, amor fiel até o fim (cf. Jo 13,1), por todos os humanos.

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