Papa Francisco, Newman e a canonização da consciência

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17 Outubro 2019

“A canonização do cardeal John Henry Newman, um grande defensor da consciência, oferece uma oportunidade para considerar novamente as profundezas teológicas do retorno de Francisco a uma tradição católica negligenciada sobre a consciência.”

A opinião é do teólogo estadunidense David E. DeCosse, diretor de Ética Religiosa e Católica do Markkula Center for Applied Ethics, da Santa Clara University. O artigo foi publicado em National Catholic Reporter, 15-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Poucos temas teológicos do Papa Francisco evocaram tanta oposição quanto sua ênfase na consciência. Mais notavelmente, na Amoris laetitia, ele disse que a Igreja Católica é chamada “a formar as consciências, não a substituí-las”. Em resposta, os críticos lamentaram essa linguagem como uma porta aberta para o inevitável subjetivismo dos católicos divorciados em segunda união que podem decidir por conta própria se podem receber a Comunhão.

Mas o escritor Austen Ivereigh observou com inteligência que a ênfase de Francisco na consciência, de fato, é um apelo a um ensino da Igreja negligenciado, embora perene. A canonização do cardeal John Henry Newman, um grande defensor da consciência, oferece uma oportunidade para considerar novamente as profundezas teológicas do retorno de Francisco a essa tradição católica negligenciada.

Os santos não se enquadram nas categorias usuais de direita e esquerda, conservadoras e liberais. E esse certamente é o caso de Newman, um gigante intelectual inglês do século XIX e padre católico que, no auge de sua considerável reputação pública, abandonou um cargo distinto em Oxford para iniciar uma escola e trabalhar entre os pobres de Birmingham.

Suas inovadoras contribuições teológicas e literárias levaram o papa Paulo VI a chamar o Vaticano II de “Concílio de Newman”, e James Joyce a dizer que Newman era o melhor estilista inglês do século XIX.

Newman não escreveu um tratado teológico sobre a consciência, mas o tema teve um papel de destaque em algumas de suas maiores obras – especialmente a “Apologia Pro Vita Sua” (seu relato clássico da sua conversão do anglicanismo ao catolicismo); “Essay in Aid of a Grammar of Assent” e “A Letter Addressed to His Grace The Duke of Norfolk on Occasion of Mr. Gladstone's Recent Expostulation”.

Antes de Newman, a tradição teológica católica afirmava uma compreensão integrada da consciência em duas partes. Primeiro, a consciência referida a uma orientação humana inalienável e geral a buscar a verdade, a fazer o bem e a evitar o mal. Segundo, a consciência também referida a julgamentos morais práticos e específicos sobre algo que foi feito ou deve ser feito.

Newman adaptou essa tradição de uma maneira distinta. Ele reformulou a noção de consciência como uma orientação geral, ao enfatizar mais a conexão da consciência com a liberdade, a responsabilidade e a crença em Deus. Newman constatou que as provas clássicas para a existência de Deus tinham deficiências. Por outro lado, sua experiência pessoal e vivida da consciência fornecia toda a “prova” de que ele precisava.

Ele disse sobre essa experiência: “Quando eu a obedeço, eu sinto uma satisfação; quando eu a desobedeço, uma dor – exatamente como eu me sinto ao agradar ou ao ofender algum amigo reverenciado. O eco implica uma voz; a voz, um falante. Esse falante, eu amo e temo”. Por sua vez, Newman conectava o julgamento prático da consciência ao seu senso vívido de que, em questões morais concretas, sempre há uma exceção à regra.

Os católicos conservadores elogiaram os escritos de Newman sobre a consciência pela sua ênfase na verdade: a verdade que Newman encontrou ao se tornar católico e a verdade que ele combateu para se defender contra as forças relativizantes do liberalismo filosófico do século XIX.

Da mesma forma, os conservadores elogiaram a sua rejeição dentro da Igreja a uma confiança singular naquele que ele chamava de “julgamento privado” ou consciência. Mas essa apreciação conservadora de Newman muitas vezes ignorou como ele situava a consciência dentro de um mundo ricamente personalista, afetivo, social e histórico. De fato, ele rejeitava uma ênfase singular em um “julgamento privado” subjetivista. Mas, ao mesmo tempo, ele afirmava um papel indispensável para a consciência na vida da Igreja quando disse: “A Cristandade católica não é uma simples exibição de absolutismo religioso, mas apresenta uma imagem contínua da Autoridade e do Julgamento Privado que avançam e recuam alternadamente como o fluxo e refluxo da maré...”.

Aqui, Newman antecipa uma mutualidade sobre a qual Francisco disse de modo semelhante: “Não é preciso sequer pensar que a compreensão do sentir com a Igreja esteja ligada somente ao sentir com a sua parte hierárquica. (...) Não: é a experiência da ‘Santa Madre Igreja hierárquica’ (...) da Igreja como povo de Deus, pastores e povo em conjunto”.

Além disso, a declaração mais famosa de Newman sobre a consciência – “Certamente, se eu sou obrigado a levar a religião para os brindes depois do jantar (...) Eu irei beber – ao papa, se vocês quiserem – ou, melhor, primeiro à Consciência, e depois ao papa” – encontrou um desfavor entre os católicos que favorecem um forte papel para a infalibilidade da Igreja e do papa.

O filósofo jurídico católico John Finnis refletiu essa visão quando disse que o brinde de Newman indicava erroneamente que a consciência de um católico poderia ser dispensada de estar vinculada aos mandamentos universais e sem exceção que são objeto da infalibilidade da Igreja. Na verdade, a afirmação de Finnis sobre o que constitui um ensinamento moral infalível é candentemente contestada. Mas o contraste é claro entre o retrato de Finnis de uma consciência vinculada a mandamentos universais e sem exceção, e a evocação de Newman a uma consciência sintonizada com um mundo “onde as exceções devem existir em todas as questões concretas”.

Aqui também vemos o contraste entre a crítica da consciência subjetivista de João Paulo II na Veritatis splendor (uma crítica semelhante ao argumento de Finnis sobre Newman) e o elogio da consciência prudencial de Francisco na Amoris laetitia.

Com Francisco, é crucial entender que a recuperação da tradição católica de consciência não é um retorno ao subjetivismo, mas ela se baseia em um respeito inaciano pela imediaticidade do encontro em consciência entre cada pessoa e Deus semper maior, o Deus sempre maior. O papa Francisco falou desse encontro quando explicou a sua recusa a julgar as pessoas homossexuais de boa vontade que buscam a Deus: “A religião tem o direito de expressar a sua opinião a serviço do povo, mas Deus, na criação, nos libertou: não é possível interferir espiritualmente na vida de uma pessoa”.

Ao dizer isso, ele devia muito bem estar canalizando Newman, que especificamente evocava temas inacianos quando escrevia sobre a consciência: “Pois, novamente, aqui, em um assunto que consiste nos atos mais puros e diretos da religião – nas relações entre Deus e a alma, durante uma seção de recordação, de arrependimento, de boa resolução, de inquirição da vocação – a alma está ‘sola cum solo’; não há nenhuma nuvem interposta entre a Criatura e o Objeto da sua fé e amor”.

A tradição católica da consciência está em um momento de renovação. A canonização do cardeal Newman confirma as saudáveis profundezas teológicas desse retorno.

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