Estudiosos da questão indígena convidam à descolonização do antropoceno

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09 Outubro 2019

Pesquisadores concluem que a “hipótese Orbis implica que o colonialismo, o comércio global e o carvão causaram o antropoceno”. Sublinham as “relações desiguais de poder entre diferentes grupos de pessoas, o crescimento econômico, os impactos do comércio globalizado e a nossa dependência atual dos combustíveis fósseis”.

O artigo é de Alex Mikulich, eticista social católico, publicado por National Catholic Reporter, 08-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo o eticista, “no espírito de São Francisco, nutrir um coração humilde e de escuta é um pré-requisito para romper com o mal do nosso tempo. Nos tornarmos humildes é um pré-requisito para a descolonização do antropoceno. Na verdade, falar da vulnerabilidade com os nossos semelhantes humanos e não humanos é um pré-requisito para a renovação da Terra”.

Eis o artigo.

Enquanto escrevo neste dia de São Francisco, lembro que “nós mesmos somos terra” (Gn 2, 7) e que “o nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta” (Laudato Si’), semelhantes humanos e não humanos permeiam o meu ser com uma dúvida.

Como co-sentir as estreitezas – a relacionalidade e a integridade mútuas – entre os nossos semelhantes não humanos (as rochas, os peixinhos, o vento, etc.) e os diversos seres humanos por toda a terra e em todos os tempos?

Propositadamente, escrevo “pessoas que acreditam que são brancas” para lembrar o que escreveu James Baldwin, segundo o qual vivemos uma mentira. Esta nossa mentira viva – a supremacia branca – rompe laços estreitos ao longo da criação em todos os nossos empreendimentos cotidianos.

Como assim? Consideremos a reflexão do antropólogo e pesquisador Zoe Todd sobre as confusões ao longo do tempo entre os semelhantes humanos e não humanos que anunciam formas negras e indígenas de ter inter-relações mutuamente complexas com rochas, peixes e humanos.

Todd convida à contemplação da reflexão de Christina Sharpe apresentada no livro “In the Wake: On Blackness and Being” (Na esteira: sobre a negritude e o ser, em tradução livre). Destacada pesquisadora nos estudos da diáspora negra, Sharpe leva o leitor a imaginar o rastro histórico, hidrológico de um navio negreiro no Atlântico para co-sentir com os escravizados que foram deliberadamente afogados na Passagem do Meio e que perseveraram através do “tempo de residência”.

A quantidade de tempo que leva para uma substância entrar no oceano e, depois, sair é o que os cientistas chamam tempo de residência. Sharpe aprende com um colega, geógrafo da marinha, que o sangue humano é salgado, e que o sódio tem um tempo de residência de 260 milhões de anos.

A autora então pergunta: “E o que acontece com a energia produzida nas águas? Ela continua pedalando como os átomos no tempo de residência? Nós, negros, existimos no tempo de residência da esteira, um tempo no qual ‘tudo é para já. Tudo é para agora’”.

Eu me pergunto se – e como – o tempo de residência, no rastro da escravidão atlântica, registra-se no ser de colonos brancos.

Consideremos o painel de cientistas que se reuniu para votar, há poucos meses, uma nova época geológica – o antropoceno – buscando nomear um período que coincide com os impactos mensuráveis da “grande aceleraçãodas atividades humanas ao longo do último século.

As atividades humanas não são mais insignificantes para o sistema terrestre. Esta nova época geológica dominada pelo humano gera impactos globais sem precedentes que os geólogos medem em camadas da Terra. Os cientistas não encontram um análogo geológico para o período em que neste momento navegamos.

Os cientistas definiram o antropoceno em 1964. Esta data destaca os impactos cumulativos, devastadores da bomba atômica, de uma economia capitalista baseada em combustíveis fósseis com o seu concomitante consumo em excesso e desperdício, especialmente materiais não biodegradáveis como o plástico e o concreto, que alteram drasticamente a dinâmica e o funcionamento do sistema terrestre.

Outros cientistas, no entanto, contestam a datação de 1964 porque ela não dá conta de mensurar os impactos geológicos do antropoceno com a colonização europeia.

Os geógrafos Simon Lewis e Mark Maslin, por exemplo, propõem duas hipóteses para a marcação do começo do antropoceno com a colonização europeia.

A primeira hipótese tem a ver com a forma como os ecossistemas da Europa e das Américas foram remodeladas através do intercâmbio de plantas e animais. Uma prova dessa transformação está nas espécies de biomas acumuladas nos continentes europeu e americano.

A segunda hipótese de Lewis e Maslin, muito mais aterradora, analisa estratos geológicos que revelam como os níveis de dióxido de carbono caíram quando o genocídio eviscerou povos indígenas nas Américas. Enquanto que nas Américas viviam entre 54 e 60 milhões de pessoas em 1492, por volta de 1650 havia somente 6 milhões.

Chamam-na de “a hipótese orbis” de 1610, pois o início da globalização (“orbis” ou mundo), na forma da colonização europeia, coincide com mudanças geológicas drásticas nos níveis de massa terrestre e de dióxido de carbono.

Lewis e Maslin concluem que a “hipótese Orbis implica que o colonialismo, o comércio global e o carvão causaram o antropoceno”. Sublinham as “relações desiguais de poder entre diferentes grupos de pessoas, o crescimento econômico, os impactos do comércio globalizado e a nossa dependência atual dos combustíveis fósseis”.

Longe de ser um evento do passado, Lewis e Maslin advertem que os “efeitos posteriores à chegada dos europeus nas Américas destacam um exemplo de longo prazo e em larga escala das ações humanas a desencadear processos que são difíceis de prever ou gerenciar”.

Estudiosos do assunto, entretanto, convidam à descolonização do antropoceno. A descolonização começa com a exposição de como o conceito do antropoceno torna as assunções eurocêntricas invisíveis, neutras e globais. Simultaneamente, ela apaga os saberes indígenas.

Na esteira da escravidão, o antropoceno estende a lógica colonialista que rompe relações entre humanos e o solo, as plantas e animais, e mesmo “entre minerais e os nossos ossos”.

Zoe Todd e Heather Davis pragmaticamente lançam da “hipótese Orbis” para costurar laços entre o antropoceno e a colonização. O interesse deles, todavia, vai além do de ser um simples marcador científico; “estamos interessados em saber como a rocha e o clima ligam-se à carne”

O tempo de residência de Sharpe registra como a rocha e o clima se ligam à carne. Se participamos do tempo de residência, ele oferece a possibilidade de aprendermos com os ancestrais negros e indígenas cujos corpos perduram na massa terrestre e nos oceanos como “oxigênio, hidrogênio e átomos”.

Voltando ao tempo de residência da Passagem Média que a autora deve honrar a fim de sobreviver, Todd pergunta: “E se as rochas estão trabalhando em concerto com os tempos de residência daqueles que foram violados pelos pesadelos que a supremacia branca invocou?”

Esta pergunta assombra e nutre admiração. Será que iremos nós, colonizadores brancos, nos voltar no sentido de um novo jeito de ser? Iremos nós cultivar uma maneira tenra de co-sentir a nossa relacionalidade, interconectividade e obrigações mútuas com os – e pelos – indígenas e negros assim como pelos não humanos?

A maneira como respondemos a essas perguntas diz respeito à condição da possibilidade do diálogo a que o Papa Francisco convida.

Que a nossa oração seja a de que nós, os brancos, tenhamos a capacidade de nos rebaixar e ouvir, com atenção, os registros plurais do tempo de residência com os – e pelos nossos – semelhantes indígenas, negros e não humanos.

No espírito de São Francisco, nutrir um coração humilde e de escuta é um pré-requisito para romper com o mal do nosso tempo. Nos tornarmos humildes é um pré-requisito para a descolonização do antropoceno. Na verdade, falar da vulnerabilidade com os nossos semelhantes humanos e não humanos é um pré-requisito para a renovação da Terra.

 

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