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05 Outubro 2019

"Onde Francisco e seu grupo se inspiraram, em pleno século XIII, para criar este tipo de organização, embora interna, embrionária e profética, com tal radicalidade democrática, cercado por culturas e instituições baseadas em seu contrário, é para mim, embora com limitados conhecimentos em história franciscana, até hoje, um grande mistério. Tendo a acreditar na inspiração da experiência apostólico-conciliar dos primeiros cristãos", escreve Frei Sérgio Görgen, ofm, em artigo publicado por Brasil De Fato, 04-10-2019. Frei Sérgio pertence à Ordem dos Franciscanos Menores e é dirigente do MPA e Via Campesina.

Eis o artigo.

Introdução

Olhando com um pouco de atenção para a prática religiosa, social e política de Francisco de Assis e seu Movimento Sócio Histórico, de cunho religioso, de ampla repercussão social e política, datado na idade média, no século XIII, impressiona seu profetismo, sua não acomodação no lugar-comum e nos limites de seu tempo, sua capacidade impressionante de ser contra-cultural, com sabedoria e habilidade. Na verdade, um antecipador do tempo histórico, quase um visionário, um homem do seu tempo, mas muito além de seu tempo. Um antecipador do futuro, não no sentido de um oráculo que prevê e se mantém alheio, mas de criador de energias e processos dinâmicos influenciadores e preparadores da construção de formas novas de viver, conviver, crer e organizar a sociedade.

Nem vou me ater ao que já é senso comum, antecipando em 800 anos as intuições que hoje movem a consciência ecológica a nível mundial, reconhecidas pelas pessoas comuns, pelos mais renomados cientistas e consagradas pelo Papa Francisco que dá ao título de sua Encíclica sobre a Casa Comum e a Ecologia Integral as primeiras palavras do poema emblemático de Francisco de Assis, O Cântico das Criaturas, Louvado SejasLaudato Si'.

Refiro-me a outras três intuições e práticas concretas do Mestre de Assis: a Objeção de Consciência e o Movimento Pacifista, a Diplomacia para resolver conflitos bélicos e a Radicalização da Democracia.

O Movimento Pacifista e a Objeção de Consciência

Objeção de consciência é o que alegam e fazem os pacifistas, quando, em nome de sua consciência, negam-se ao serviço militar e a participar de guerras. Muitos países europeus já instituíram leis estabelecendo o Serviço Civil obrigatório para objetores de consciência. Alguns países punem com prisão quem se nega ao serviço militar.

Pois bem. Quando o Movimento Franciscano primitivo ganhou densidade e Francisco passou a ser seguido por multidões de leigos – chegou a constituir uma Ordem Religiosa Leiga – o Santo de Assis exigia-lhes um voto: não portar armas. E aí, nos constantes e comuns recrutamentos de reis, príncipes, senhores feudais e papas para constituir seus exércitos, os leigos franciscanos recusavam em nome do voto prestado, do juramento feito à Ordem Franciscana. Conta a história que gerou crise de falta de combatentes em algumas regiões da Europa. Foi um dos primeiros grandes movimentos pacifistas da história da humanidade e a objeção de consciência como um instrumento prático de recusa à guerra.

Só muito tempo depois na história, a objeção de consciência veio a ser adotada na sociedade por movimentos pacifistas como forma de contestar a estupidez das guerras e da violência.

Diplomacia

Francisco de Assis foi à Quinta Cruzada, organização bélica destinada a retomar os chamados Lugares Santos do cristianismo, onde viveu e foi assassinado Jesus de Nazaré, controladas territorialmente pelos seguidores do profeta Maomé. Muitas vezes, em nome da fé cristã e da Igreja Católica, as cruzadas foram hordas saqueadoras de riquezas dos povos muçulmanos.

Francisco escandalizou-se com o mundanismo e a ambição que constatou na quinta cruzada, acampada e se preparando para entrar em guerra contra os muçulmanos entrincheirados na cidade de Damieta, no Egito. Pregou aos cruzados, contra a cruzada. Profetizou sua derrota. Foi desprezado e ridicularizado.

Então ele e frei Simplício, que o acompanhava, cruzaram a linha divisória entre os dois exércitos prontos para o combate e foi ao encontro dos muçulmanos na cidade de Damieta.

Francisco conseguiu, após muitas peripécias, ser recebido pelo sultão Malik al Kamil, comandante do Exército do Islã.

Cada um tentou converter o outro, sem sucesso. Por fim, o sultão concedeu salvo conduto a Francisco e Simplício para adentrarem à Terra Santa e visitarem os Lugares Sagrados do cristianismo. E estendeu este salvo conduto a todos os que vestissem o hábito marrom – veste dos frades franciscanos – a transitar livremente pelos lugares santos da fé cristã, sem serem importunados. E atribui-se ao Sultão uma frase lapidar: “ se os cristãos fossem como você, não existiria guerra entre nós”.

A quinta cruzada foi fragorosamente derrotada e humilhada e posteriormente a Santa Sé confiou à Ordem Franciscana o cuidado dos Lugares Santos graças a ação diplomática de São Francisco que continuou a ser respeitada pelos sucessores do Sultão de Damieta.

O tempo ensinou à humanidade a lição de Francisco e a diplomacia passou a ser adotada para evitar guerras e como forma de solução de conflitos entre povos e nações.

Radicalidade Democrática

Na tradição apostólico-conciliar, minoritária e contra hegemônica na história do cristianismo, chama a atenção a radicalidade franciscana na forma de organizar a vida entre seus partícipes. Na tradição da Igreja e da Vida Religiosa até então, em sua esmagadora maioria, o poder interno era exercido na forma monárquica e vitalícia. Além do bispo, o prior do mosteiro ou convento, uma vez escolhido, seu mandato era até a morte.

O grupo que se organiza a redor de Francisco de Assis inaugura formas radicais de igualdade e democracia nas tomadas de decisão interna na organização religiosa em construção. “Todo poder aos Capítulos”, assim poderia se formular a experiência embrionária e profética da democracia franciscana. A própria expressão “Capítulo”, reunião de todos os frades para tomar decisões e escolher os mandatários, fez parte da revolução linguística inaugurada pela Ordem Franciscana. Os mandatários passaram a ser chamados de “ministros”, os que “ministram”, servem, estão à disposição do coletivo; “guardiães”, que guardam, cuidam. “Prior, superior, chefe”, são expressões não questionadas, mas preteridas e não usadas. E o “Capítulo”, com origem etimológica em “cabeça”, é a Assembleia Geral onde todos opinam, onde as divergências se expressam, os conflitos latejam, pugna-se pela formação de laços fraternos apesar dos conflitos e a decisão tomada coletivamente a todos obriga.

E até hoje, nas tradições franciscanas, ao entrar no Capítulo, “todos os cargos caem”, a assembleia é soberana, as funções tem prazo fixado e reeleições são limitadas.

Onde Francisco e seu grupo se inspiraram, em pleno século XIII, para criar este tipo de organização, embora interna, embrionária e profética, com tal radicalidade democrática, cercado por culturas e instituições baseadas em seu contrário, é para mim, embora com limitados conhecimentos em história franciscana, até hoje, um grande mistério. Tendo a acreditar na inspiração da experiência apostólico-conciliar dos primeiros cristãos.

Retorno ao Evangelho

A vida e a prática de Francisco de Assis e seu Movimento reprisam um sempre presente paradoxo do cristianismo: os que retornam com radicalidade ao Evangelho de Jesus e ao compromisso com os pobres e humilhados, projetam o futuro e são projetados para frente e contribuem para construir caminhos novos e melhores para o conjunto da humanidade.

Nosso tempo está conhecendo outro Francisco, com características semelhantes, inspirado na radicalidade do Evangelho e no exemplo do homônimo de Assis.

 

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