Gretas ecoterritoriais para enfrentar a crise socioambiental

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01 Outubro 2019

“Estamos diante de um discurso conspiracionista de esquerda não muito diferente do apresentado pela atual direita negacionista, que também vê o surgimento de Greta Thunberg como uma construção do globalismo mundial, financiada por um magnata como George Soros. Em outras palavras, os dois discursos usam a figura da ativista sueca para confirmar abordagens ideológicas reducionistas que acabam invisibilizando o que deveria ser o centro da discussão, que é uma crise socioambiental que coloca em risco as condições mínimas de vida no planeta”, escreve Andrés Kogan Valderrama, sociólogo e editor do Observatório Plurinacional de Águas no Chile. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

As múltiplas manifestações em todo o mundo, no marco da Friday For The Future, da qual Greta Thunberg foi a principal porta-voz, através de sua presença na Cúpula do Clima da ONU, gerou uma enorme controvérsia sobre o papel desempenhado pela ativista sueca nesse movimento ambiental, após certos setores de esquerda, progressistas e decoloniais colocarem em dúvida suas reais intenções políticas, denunciando assim uma suposta nova marionete das grandes potências econômicas para impulsionar um novo capitalismo verde.

Daí que as críticas feitas à Greta Thunberg vão desde a ideia de que nada mais é que um produto ocidental de grandes empresas que promovem “energia limpa” em diferentes países, substituindo combustíveis fósseis, como também que sua luta é deliberadamente usada pelos grandes veículos de comunicação para esconder outras lutas provenientes de distintos povos no mundo empobrecidos e saqueados historicamente. Não é por acaso, portanto, que se chegue a desacreditar Greta Thunberg, só pelo fato de ser branca e vir de um país ocidental como a Suécia.

É desse modo que estamos diante de um discurso conspiracionista de esquerda não muito diferente do apresentado pela atual direita negacionista, que também vê o surgimento de Greta Thunberg como uma construção do globalismo mundial, financiada por um magnata como George Soros. Em outras palavras, os dois discursos usam a figura da ativista sueca para confirmar abordagens ideológicas reducionistas que acabam invisibilizando o que deveria ser o centro da discussão, que é uma crise socioambiental que coloca em risco as condições mínimas de vida no planeta.

Diante disso, o importante é situar a discussão sobre o que está acontecendo com todas as lutas que estão sendo geradas nos territórios, por meio de diferentes ativistas e organizações socioambientais do planeta, independentemente se são nos Estados Unidos, Suécia, China, Bolívia, Índia, África do Sul ou Filipinas. Não se trata com isto de desconhecer a dívida climática histórica proveniente das potências do Norte, em termos de poluição e emissões de CO2 geradas em suas economias industrializadas, como a própria Greta Thunberg destacou, mas em ir muito além disso, questionando um estilo de vida imperial expandido em todo o mundo e centrado na produção e consumo ilimitado de mercadorias, buscado em todos os países, sem exceção.

Por isso, é crucial que a luta que Greta Thunberg está travando atualmente possa ser traduzida, como seu próprio nome diz, em novas Gretas ecoterritoriais no sistema atual, para enfrentar o extrativismo imperante e possibilitar a articulação com outras lutas realizadas com outros movimentos e referências da região, como bem assinalou recentemente Francia Márquez, após a controvérsia gerada pelo surgimento da ativista sueca, afirmando que “todas as vozes e ações são necessárias para conter a crise ambiental”.

Consequentemente, mais que questionar as lutas de alguns, devemos somá-las a outras vozes críticas, como é o caso de Máxima Acuña, no Peru, Rodrigo Mundaca, no Chile, Alberto Curamil, em Wallmapu, Oscar Olivera, na Bolívia, Sofia Gatica, na Argentina, Francisco Pineda, em El Salvador, Randall Arauz, na Costa Rica, Humberto Ríos, em Cuba, Jesús León, no México, Líbia Grueso, na Colômbia, Tarsicio Feitosa da Silva, no Brasil, José Andrés Tamayo, em Honduras, Pablo Fajardo, no Equador, Elías G. Diaz, no Paraguai, Luis Jorge Rivera, em Porto Rico, que tem colocado o corpo para frear as megacorporações, que não possuem nenhum tipo de asco em assassinar aqueles que entram na sua frente, em cumplicidade com os estados, para realizarem seus projetos extrativistas.

Por esse motivo, é necessário construir uma nova memória histórica das lutas socioambientais feita por pessoas que perderam a vida para defender os territórios nesses mesmos países da região, como aconteceu fatalmente com Berta Cáceres, Chico Mendes, Sabino Romero, Camilo Catrillanca, Isidro Baldenegro, Macarena Valdés, Sami Flores, Alejandro Castro, Emilsen Manyoma, Laura Vásquez e tantas outras que entenderam que o que está em jogo é muito mais que uma mera luta ideológica entre esquerda e direita, mas, sim, formas de conceber, habitar e se relacionar com o planeta.

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