Uma espiritualidade encarnada, “com os olhos fixos em Jesus”. Entrevista com Alfredo Sampaio Costa

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Por: CEPAT | 01 Outubro 2019

“A mística inaciana é uma mística de olhos abertos, de quem encontra Deus e é interpretado por Ele em meio ao sofrimento do mundo”. Esta é uma das ideias-chave do livro Encarnados no mundo com os olhos fixos em Jesus: Descobrindo a Mística Inaciana (Loyola, 2018), de autoria do jesuíta Alfredo Sampaio Costa, doutor em Espiritualidade pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde também lecionou por vários anos. Atualmente, coordena a Rede SERVIR (Rede Inaciana para a Colaboração, e Espiritualidade da Província dos Jesuítas do Brasil), contribuindo em diversas áreas apostólicas a serviço da Igreja do Brasil.

Para Alfredo Sampaio Costa, autor do livro Solidários, obedientes e amorosos: Novas faces da Humildade para o mundo atual (Loyola, 2015), a mística inaciana permanece muito atual, pois “é uma mística humanizadora, que promove um acesso à interioridade, tem uma atenção ao mundo dos desejos e afetos, promove a solidariedade e o serviço aos mais necessitados, é uma espiritualidade integral e ecológica, entre outros pontos”.

Seu último livro está sendo lançado em diferentes locais e para diversos públicos. Em agosto, o CEPAT fez o lançamento do livro em Curitiba. Naquela oportunidade, Alfredo Sampaio Costa também apresentou pontos centrais da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco. Retomando a biografia de Santo Inácio de Loyola, como chave para entender o Papa Francisco, afirma: “Para ser santo, Inácio teve que aprender a sair de si, a direcionar o melhor de si para servir, viver a experiência interior sem medo de enfrentar seus conflitos e fantasmas. Inácio foi um dos que certamente inspiraram Francisco a acreditar que todos hoje somos chamados a uma vida de santidade!”.

O livro de Alfredo Sampaio Costa será lançado no Centro de Espiritualidade Cristo Rei - CECREI, em São Leopoldo - RS, no dia 9 de outubro, às 19h. Entrada franca.

A entrevista é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CEPAT.

Eis a entrevista.

O que procura ressaltar quando apresenta no título de seu livro a expressão “encarnados no mundo”? Acredita que esse é o caminho para uma autêntica vivência cristã?

Demorei bastante tempo para encontrar um título que pudesse expressar aquilo que eu queria transmitir com esse meu livro. Eu queria um título que fosse igualmente uma síntese de como eu vivo a espiritualidade inaciana. Na verdade, o título traz duas expressões e não uma. A espiritualidade de Santo Inácio busca manter atuantes e vivas ao mesmo tempo uma espiritualidade encarnada no mundo, concreta, inclusiva, solidária, sem perder de vista “os olhos fixos em Jesus”, que por primeiro foi quem viveu assim totalmente para o Pai e para os irmãos. É bem conhecida a expressão “contemplativos, até mesmo na ação” que quer exatamente mostrar o que deve ser a essência da vida cristã.

O que a mística inaciana pode conferir ao mundo de hoje, marcado por tantas formas de se buscar a Deus, mas, ao mesmo tempo, muito ameaçado por diversas formas de idolatria, superficialidade e fechamento?

A espiritualidade inaciana é desconhecida por grande parte do público. Na introdução do livro, eu defendo que se trata de uma mística muito atual e elenco alguns elementos para ilustrar: o fato que ela é uma mística humanizadora, que promove um acesso à interioridade, tem uma atenção ao mundo dos desejos e afetos, promove a solidariedade e o serviço aos mais necessitados, é uma espiritualidade integral e ecológica, entre outros pontos. Baseada no discernimento espiritual e na busca de uma maior liberdade diante dos apegos e entraves de todos os tipos que nos atrapalham a caminhar, ela valoriza o que temos de bom e nos potencializa a crescer no seguimento de Jesus.

Pe. Alfredo Sampaio, SJ

Como ver Deus em todas as coisas, em um mundo repleto de paradoxos, com claros sinais de morte, que depõem contra a beleza da Criação?

Ver Deus em todas as coisas é exatamente ser capaz de enxergar a sua Presença e Ação salvadora exatamente em meio aos paradoxos e sinais de morte que povoam nosso mundo. É levar adiante a lógica da Encarnação que a Trindade assumiu ao enviar o Filho para um mundo ferido e dividido, marcado pelo pecado e pela injustiça [EE 106]. Jesus ao se encarnar assumiu nossa história na sua beleza e na sua dramaticidade. E nos convida a fazer o mesmo. Um aspecto importante do “ver Deus em tudo” é exatamente contemplar a sua Presença amorosa e solidária que nos acompanha nos momentos onde pensaríamos que Ele fosse ausente.

Em tempos de polarização e paixões políticas exacerbadas, vemos a Companha de Jesus insistindo na necessidade do discernimento. Como o discernimento, dentro da espiritualidade inaciana, pode nos ajudar a se posicionar no mundo de hoje?

Em um mundo onde raramente podemos saber com certeza onde está a verdade dos fatos, o discernimento ganha ainda mais força. Como saber qual posição devemos adotar, em quem devemos acreditar, confiar e seguir? Na espiritualidade, a cada momento que temos que tomar uma posição, assumir uma decisão, nos vem a pergunta que não quer calar: “Senhor, o que queres que eu faça?”. A Companhia de Jesus tem retomado uma prática antiga do Discernimento Apostólico em Comum. Esse discernimento tem o grande valor de mostrar que, diante da complexidade das coisas, sozinhos não chegaremos muito longe. É preciso tecer redes, trabalhar em colaboração, construirmos juntos o caminho que nos leve a uma decisão certeira.

Como a experiência espiritual de Inácio de Loyola pode iluminar a vida de tantas pessoas que, afundadas em uma profunda crise de sentido, sofrem de diferentes formas as dores do mundo, sem saber como encontrar a Deus?

O meu livro apresenta a experiência espiritual de Inácio desde a sua base familiar, captando as diversas influências da infância que vão marcando o seu caráter, o peso do ambiente onde ele cresceu, as leituras que realizou, as experiências que vai vivenciando… Não foi nada fácil para ele percorrer o seu caminho. Ele passou por crises profundas de sentido, que quase o levaram a tirar a própria vida… Mas venceu esses períodos obscuros e continuou buscando, até encontrar o seu rumo a seguir. Já ouvi testemunhos de pessoas que leram o livro e comentaram comigo: “parece que está contando a minha história!”. Sorri agradecido, pois é essa a finalidade do livro: que cada um descubra o seu caminho interior e o siga.

Em um mundo frenético, marcado por luzes e sons, avanços tecnológicos, ininterruptos processos de produção e consumo, como os Exercícios Espirituais podem nos ajudar? Após séculos, como os Exercícios Espirituais propostos por Santo Inácio podem ser apreciados hoje?

Poderia responder a essa pergunta simplesmente dizendo: acompanhando esse movimento todo com um olhar aberto e receptivo! Inácio adotou o nome de Exercícios exatamente para mostrar com isso que não quer ver ninguém parado, engolindo passivamente a tudo, mas que tenhamos sempre uma atitude ativa, participativa, vibrante, diante da vida. Por outro lado, a espiritualidade inaciana saberá convidar cada um a ser sujeito da própria história, a não se deixar engolir pelo frenesi do mundo que quer eliminar a profundidade das relações e o cuidado pelo outro e pela nossa casa comum. Adota, pois, uma posição crítica diante dos exageros unilaterais de uma sociedade egoísta que busca somente o próprio bem-estar e descarta os mais pobres.

Muitos enxergam no dinamismo pastoral do Papa Francisco as marcas da espiritualidade inaciana. De fato, as preocupações pastorais do Papa Francisco estão em sintonia com a missão da Companhia de Jesus, a partir do Concílio Vaticano II?

Francisco é um Papa jesuíta. Nós, jesuítas, vemos claramente como todo o seu governo pastoral é pautado pelos Exercícios Espirituais. Sua preocupação pela catequese, por uma sobriedade no estilo de vida, pela espiritualidade, seu empenho pela reconciliação e pela verdade, pela defesa do nosso mundo ferido, por uma autenticidade de vida marcada pelo compromisso com o outro, são apenas alguns ecos das marcas inacianas no coração de Francisco. Como bom jesuíta, Francisco busca servir a Igreja, sentir com a Igreja, colocando em prática os seus ensinamentos, sempre em um diálogo franco e aberto com as outras profissões de fé e o mundo do ateísmo.

Em agosto, você esteve no CEPAT, em Curitiba, para apresentar a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate e lançar seu livro. O que é ser santo hoje? Por que o Papa lança um chamado à santidade no mundo atual?

Gostei da sua pergunta, pois ela toca em um ponto em que Francisco e eu concordamos. Eu me inspiro muito no Papa em tudo o que faço. Identifico-me com seu estilo e modo coerente de viver e anunciar o Evangelho de modo simples. O Papa lança uma exortação apostólica para afirmar que a santidade é para todos. O Papa afirma que ser santo é viver para os outros, no amor e no serviço; ser santo é cuidar, ser solidário, ser humano, ter sentimentos de compaixão, é se comprometer com o sofrimento dos outros. Ora, contar a vida de Inácio é trilhar o mesmo caminho: mostrar que para ser santo, Inácio teve que aprender a sair de si, a direcionar o melhor de si para servir, viver a experiência interior sem medo de enfrentar seus conflitos e fantasmas. Inácio foi um dos que certamente inspiraram Francisco a acreditar que todos hoje somos chamados a uma vida de santidade!

Para terminar, o que recomendaria para aqueles que forem ler o seu livro?

Eu diria, antes de mais nada, que lessem meu livro sem pressa e com um espírito aberto. Que se deixem interpelar, que não tenham receio de dialogar com este que aqui vos escreve, nem com o próprio Inácio que conta o que se passou com ele por crer que, se aconteceu com ele, pode acontecer também com vocês que têm sede de “mais” e que não querem ficar limitados a repetir esquemas que hoje não funcionam mais. Agradeço a todos que me inspiraram e me animaram a escrever esse livro, de modo especial aos pobres e descartados da sociedade, moradores em situação de rua, dependentes químicos com quem aprendi a não desanimar jamais, o povo do sertão pernambucano que contando suas histórias de vida sofridas me fazem crer que Deus não desiste de ninguém e que há sempre uma oportunidade para quem, como Inácio, quis aceitar o convite a servir.

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