O rico e o pobre Lázaro

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27 Setembro 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 26º Domingo do Tempo Comum, 29 de setembro (Lucas 16,19-31). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois da parábola do ecônomo injusto, ouvida no domingo passado (cf. Lc 16,1-8), hoje nos é proposta uma segunda parábola de Jesus sobre o uso da riqueza, também contida no capítulo 16 do Evangelho segundo Lucas: a parábola dos ricos e do pobre Lázaro.

“Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias.” Não se diz o nome dele, mas ele é definido pelo seu luxo e pelo seu comportamento. Os ricos têm que se exibir, devem se impor e ostentar: desde então, até hoje, nada mudou, e aqueles que pensam que são poderosos e ricos, também na Igreja, querem exibir os sinais do poder e ousam até afirmar que os sinais que traz e dos quais se reveste são em glória a Deus...

A outra dimensão com que os ricos se exibiam na antiguidade eram os seus banquetes com ostentação. Para os outros homens, a festa é uma ocasião rara; para os pobres, é impossível; enquanto para os ricos todo dia é possível festejar. Mas festejar o quê? Eles mesmos e a sua situação privilegiada, sem nunca pensar na partilha.

Esse homem rico, em particular, nunca havia convidado os pobres, nunca havia se dado conta do pobre presente na frente da sua porta e, portanto, nunca havia praticado aquela caridade que a própria Torá exigia. Mas qual é a doença mais profunda desse homem? Aquela que o Papa Francisco, em uma homilia matinal, definiu como mundanismo: a atitude de quem “está sozinho com o seu próprio egoísmo, portanto, é incapaz de ver a realidade”.

Ao lado do rico mundano, à sua porta, está outro homem, “jogado” lá como uma coisa, coberto de feridas. Ele nem sequer é um mendigo que pede comida, mas está abandonado na frente da porta da casa do rico. Ninguém olha para ele nem o percebe, mas apenas cachorros de rua, mais humanos do que os seres humanos, que, passando ao seu lado, lambem as suas feridas.

Esse pobre tem fome e desejaria pelo menos aquilo que os comensais deixam cair da mesa ou jogam no chão para os cachorros (cf. Mc 7,28; Mt 15,27). A sua condição está entre as mais desesperadas que podem ocorrer para aqueles que estão no sofrimento.

No entanto, Jesus diz que este, ao contrário do rico, tem um nome: ‘El’azar, Lázaro, isto é, “Deus vem em auxílio”, nome que expressa verdadeiramente quem é esse pobre, um homem sobre o qual repousa a promessa de libertação de Deus.

De todos os modos, tanto o rico quanto o pobre compartilham a condição humana, razão pela qual, para ambos, chega a hora da morte, que a todos une. Um salmo sapiencial, já citado outras vezes, apresenta um refrão significativo: “O homem rico não compreende, é como os animais que, inconscientes, vão rumo ao matadouro” (cf. Sl 49,13.21).

O rico da parábola não se recordava desse salmo para tirar lições dele, nem se recordava das exigências de justiça contidas na Torá (cf. Ex 23,11; Lv 19,10.15.18 etc.), nem das severas advertências dos profetas (cf. Is. 58,7; Jr 22,16 etc.). Consequentemente, era incapaz de responsabilidade pelo outro, de partilha.

O verdadeiro nome da pobreza é partilha, a tal ponto que Jesus chegou a afirmar: “Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, e assim, quando o dinheiro faltar, esses amigos receberão vocês nas moradas eternas” (Lc 16,9). Mas esse rico não entendeu...

Quando Lázaro morre, o seu nome mostra toda a sua verdade, porque o funeral do pobre (que talvez não ocorreu materialmente, porque devem tê-lo jogado em uma fossa comum!) é oficiado pelos anjos, que vêm tomá-lo para conduzi-lo para o seio de Abraão. A vida de Lázaro não se dissolveu no vazio, mas ele foi levado ao reino de Deus, onde se encontra o pai dos fiéis, dos quais ele é filho: aquele que estava “jogado” perto da porta do rico, agora foi elevado e participa do banquete de Abraão (cf. Mt 8,11; Lc 13,28). O rico, por sua vez, tem um enterro como lhe convém, mas o texto é lacônico, não especifica nada sobre o seu possível ingresso no Reino.

Eis, de fato, pontualmente, uma nova situação, em que os destinos dos dois homens são mais uma vez divergentes, mas com papéis invertidos. Aquilo que aparecia sobre a terra é desmentido, mostra-se como realidade efêmera, enquanto há realidades invisíveis que são eternas (cf. 2Co 4,18) e que, depois da morte, se impõem: o pobre se encontra agora no seio de Abraão, onde estão os justos; o rico, no submundo.

Na morte, é logo decidido o destino eterno dos seres humanos, prenúncio do juízo final, e os dois caminhos percorridos durante a vida dão o resultado da bem-aventurança ou o da maldição. A Lázaro é doada a comunhão com Deus junto com todos aqueles a quem Deus justifica, enquanto ao rico cabe o inferno como morada, isto é, a exclusão da relação com Deus: depois de ter muito, ele passa a ter nada.

Nos sofrimentos do inferno, o rico levanta os olhos e “de longe” vê Abraão e Lázaro no seu seio, como um filho amado. Ele agora vive a mesma condição experimentada pelo pobre em vida e também está na mesma posição: olha de baixo para cima, à espera... Ele não pôde levar nada consigo, os seus privilégios acabaram: ele, que não escutava a súplica do pobre, agora deve suplicar; faz-se mendigo gritando para Abraão, renovando por três vezes o seu pedido de ajuda. Começa exclamando: “Pai Abraão, tem piedade de mim!”, grito que, durante a vida, nunca tinha elevado a Deus, e “manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas”. Em suma, ele pede que Lázaro faça um gesto de amor, que ele nunca fizera para com um necessitado.

Mas Abraão lhe respondeu: “Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado”. Um modo esquemático, mas eficaz, para expressar como o comportamento vivido na terra tem consequências precisas na vida além da morte: o comportamento terreno já é o juízo, dependem dele a salvação ou a perdição eternas (cf. Mt 25, 31-46). Assim, a bem-aventurança dirigida por Jesus aos pobres e o “ai” dirigido aos ricos (cf. Lc 6,20-26) se realizam plenamente.

Depois, Abraão continua usando a imagem do “grande abismo”, insuperável, que separa as duas situações e não permite deslocamentos de um “lugar” para outro: a decisão é eterna, e ninguém pode esperar mudá-la, ela é jogada hoje...

O relato poderia terminar aqui, mas o texto muda de tom. Tendo ouvido a primeira resposta de Abraão, o rico retoma a sua invocação. Não podendo fazer nada para si, pensa nos seus familiares que ainda estão na terra. Lázaro, pelo menos, poderá ir e avisar os seus cinco irmãos, adverti-los, prenunciando-lhes a ameaça daquele lugar de tormento, se viverem como o homem rico.

Mas, mais uma vez, “o pai na fé” (cf. Rm 4,16-18) responde negativamente, lembrando-o que Lázaro não poderia anunciar nada de novo, porque Moisés e os Profetas, isto é, as Sagradas Escrituras, já indicam bem o caminho da salvação. As Escrituras que contêm a palavra de Deus dizem claramente como os homens devem se comportar em vida, são suficientes para a salvação. Porém, é preciso escutá-las, ou seja, obedecê-las, realizando concretamente aquilo que Deus quer!

Mas o rico não desiste e, pela terceira vez, se dirige a Abraão: “Pai Abraão, se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter”. Abraão, então, com autoridade, encerra a discussão de uma vez por todas: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. Palavras definitivas, mas ainda hoje muitos cristãos custam a acolhê-las, porque estão convencidos de que as Escrituras não são suficientes, que são necessários milagres extraordinários para levar à fé...

Não, os cristãos devem escutar as Escrituras para crer, até mesmo para crer na ressurreição de Jesus, como o Ressuscitado recordará aos Onze: “É preciso que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” ( Lc 24,44). Aliás, ele mesmo, pouco antes, dissera aos dois discípulos no caminho para Emaús: “‘Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram! Será que o Messias não devia sofrer tudo isso, para entrar na sua glória?’ Então, começando por Moisés e continuando por todos os Profetas, Jesus explicava para os discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27).

Não por acaso, na profissão de fé, o cristão também confessa que “Cristo morreu segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras” (1Co 15,3-4). As Escrituras testemunham aquilo que se realizou na vida e na morte de Jesus Cristo, testemunham a sua ressurreição. Se o cristão toma consciência das palavras de Jesus (cf. Lc 24,6-7) e escuta as Escrituras do Antigo Testamento, chega à fé na sua ressurreição.

Essa parábola nos sacode, sacode acima de tudo a nós, que vivemos na abundância de uma sociedade opulenta, que sabe esconder tão bem os pobres a ponto de não se dar conta mais da sua presença. Ainda há mendigos nas ruas, mas nós desconfiamos da sua verdadeira miséria; há estrangeiros marginalizados e desprezados, mas nós nos sentimos autorizados a não compartilhar os nossos bens com eles.

Devemos confessar: os pobres nos envergonham porque são “o sacramento do pecado no mundo” (Giovanni Moioli), são o sinal da nossa injustiça. E, quando pensamos neles como sinal-sacramento de Cristo, muitas vezes acabamos lhes dando as migalhas, ou mesmo alguma ajuda, mas mantendo-os longe de nós.

No entanto, no dia do juízo, descobriremos que Deus está do lado dos pobres, descobriremos que para eles era dirigida a bem-aventurança de Jesus, que repetimos talvez considerando-a dirigida a nós. Por fim, somos advertidos a praticar a escuta do irmão necessitado que está à nossa frente e a escuta das Escrituras, e não uma coisa sem a outra: é no fato de pôr em prática, aqui e agora, essas duas realidades estreitamente conectadas que se joga, já hoje, o nosso juízo final.

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