O status quo não salvará o planeta Terra nem a Igreja Católica. Editorial do National Catholic Reporter

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29 Setembro 2019

"No mundo católico, o equivalente aos negacionistas do clima são aqueles que se recusam a reconhecer a credibilidade das estruturas administrativas e hierárquicas, a extinção de um certo senso de superioridade, o desaparecimento dos jovens, a diminuição da vida de fé, sem a liderança de pessoas casadas e, principalmente, de mulheres", diz o editorial do National Catholic Reporter, publicado em 26-09-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o editorial.

Uma sensação de urgência, um tanto incomum e talvez sem precedentes nesse grau, paira sobre o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que está para começar. É um fenômeno peculiar do século XXI que bispos de uma ampla faixa da Terra se encontrem com grandes pesos na balança: a sobrevivência do planeta e a sobrevivência da vida de fé entre os católicos em uma área que necessita extremamente de ministérios sacramentais.

Essas necessidades, e as consequências inerentes de ignorá-las, podem ser tão óbvias para alguns quanto uma demonstração do derretimento do gelo ártico. No entanto, em meio às crescentes tempestades, derretimento de geleiras, recuo de costas, mudança de flora e fauna para chegar a novos padrões climáticos, e uma maioria global de cientistas informando do iminente perigo em termos inequívocos, ainda existem, em muitos lugares, negacionistas da mudança climática.

Em um estranho paralelismo isso existe no mundo católico. A cultura clerical está desmoronando. O velho modelo da Igreja – uma reitoria bem equipada e um convento cheio de irmãs –, que ainda reside na psiquê dos Católicos como um ideal a ser perseguido, desapareceu há muito tempo. Isso não tem volta. De fato, foi, dada a linha do tempo da Igreja, uma anomalia do século XX que existia, na realidade, em poucos lugares. E dado o legado dos escândalos que se seguiram, talvez não seja um modelo exemplar.

Era um catolicismo de alto consumo, geralmente ostensivo, destinado a impressionar e projetar um ar de superioridade. Tem sido terrivelmente humilde.

No mundo católico, o equivalente aos negacionistas do clima são aqueles que se recusam a reconhecer a credibilidade das estruturas administrativas e hierárquicas, a extinção de um certo senso de superioridade, o desaparecimento dos jovens, a diminuição da vida de fé, sem a liderança de pessoas casadas e, principalmente, de mulheres.

A realidade das igrejas locais em muitos lugares do mundo tem se diferenciado mais da cúpula católica, como Boston, Filadélfia ou Chicago. O Sínodo da Amazônia traz essa realidade à frente de forma concentrada.

Se as necessidades que originam o Sínodo são pouco usuais, a força contra ele é sem precedentes. Sobre a questão da ciência climática, os bispos enfrentarão as objeções de promotores e agitadores internacionais envolvidos em atividades como práticas exploratórias de mineração e desmatamento ilegal para fins agrícolas. Eles causam danos incalculáveis a inestimáveis ecossistemas e às pessoas que vivem lá.

No Sínodo, formalmente intitulado “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para a Ecologia Integral”, a Igreja escutará a Terra com um elevado senso de conexão a ela. Se entenderá a responsabilidade por aquilo que está acontecendo, nas palavras do papa Francisco, à nossa Casa Comum.

Nessa mesma configuração, líderes escutarão as pessoas da Igreja com um grau de abertura que é necessário para descobrir as circunstâncias locais que são inspiradoras, e desconcertantes para alguns.

Mauricio López Oropeza, um líder do processo de consultas que envolveu em torno de 90 mil pessoas na região Amazônica, disse “nós estávamos tentando transformar a forma de participar da igreja em diferentes territórios na região, e tratamos de vir e escutar”.

Considerando as críticas ao documento de trabalho do Sínodo, López disse ao correspondente no Vaticano, Joshua J. McElwee: “eles nem sequer foram ao território experimentar a realidade de lá”.

Entre os mais barulhentos críticos, não surpreendentemente, está o cardeal estadunidense Raymond Burke, junto a dom Athanasius Schneider, o bispo-auxiliar de Astana, Cazaquistão. Quanta credibilidade se deve dar a uma campanha de duas pessoas contra o Papa é uma questão em aberto, mas elas atraíram muita atenção em certos círculos com suas acusações bastante extensas – faladas, é claro, em “amor” pelo Papa e “almas” não especificadas – contra Francisco. Um parágrafo de seu ponto é suficiente para entender a essência:

"Nenhuma pessoa honesta pode negar a confusão doutrinária quase geral que está reinando na vida da Igreja em nossos dias. Isso se deve principalmente às ambiguidades em relação à indissolubilidade do casamento, que estão sendo relativizadas pela prática da admissão de pessoas que coabitam em uniões irregulares à Santa Comunhão, devido à crescente aprovação de atos homossexuais, intrinsecamente contrários à natureza e contrários à vontade revelada de Deus, devido a erros relativos à singularidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua obra redentora, que está sendo relativizada através de afirmações erradas sobre a diversidade de religiões, e especialmente devido ao reconhecimento de diversas formas de paganismo e suas práticas ritualísticas, através do Instrumentum Laboris para a próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia."

Foi dito o suficiente.

O Instrumentum Laboris, o documento de trabalho, não é confuso. É bastante simples e, em alguns lugares, é fortemente representado.

É valioso lê-lo para contemplar e assumir a magnificência de uma Igreja global que confronta, do ponto de vista da vastidão universal, os detalhes da vida cotidiana e as espécies não contabilizadas, problemas existenciais desta era. Isso é tão valioso, que deve requerer uma mensuração do grau de charlatanismo e autoindulgência incorporada à "campanha de dois homens de Burke".

Como os negacionistas climáticos, ele deve querer manter o status quo ou ansiar por uma era dourada inexistente, não importando como atingiria a vida da comunidade de fé hoje. Ele se preocupa todo tempo sobre a “abolição do celibato dos padres”, porque a sugestão da ordenação de homens idosos casados e aprovados poderia fornecer uma solução para a falta de padres em toda a Amazônia. Ele esquece que foram os papas João Paulo II e Bento XVI que permitiram a ordenação de homens casados transferidos de outras denominações?

O Sínodo da Amazônia, talvez inadvertidamente, leva a um ponto concentrado de uma discussão necessária sobre a sobrevivência do planeta e a sobrevivência de uma igreja em mudança sem precedentes. Em qualquer um dos domínios, a sobrevivência não está no status quo ou no retorno ao modo como as coisas eram feitas no passado.

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