Vale do Silício faz um experimento com o salário básico universal

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25 Setembro 2019

A cidade de Stockton, com 300.000 habitantes, a cerca de 130 km de São Francisco, é a antítese completa de seu vizinho Vale do Silício. Longe da opulência e do alto custo de vida observado na Meca da tecnologia americana, em 2012, Stockton precisou declarar a maior suspensão de pagamentos municipais do país como resultado da crise financeira. Sua renda média anual é de 46.033 dólares por família (em São Francisco é de 95.000, segundo o jornal El País), e 15% de seus habitantes estão abaixo da linha da pobreza. Duas faces opostas do capitalismo dentro do mesmo estado.

A reportagem é publicada por iProfesional, 23-09-2019. A tradução é do Cepat.

Hoje, essa cidade é notícia novamente, mas desta vez porque foram selecionados cuidadosamente 125 moradores de Stockton, desde fevereiro passado e durante 18 meses, para receber de um benfeitor 500 dólares em um cartão de débito concedido pelo prefeito.

O projeto está sendo atenciosamente monitorado por uma equipe de pesquisadores, que registra a evolução de cada pessoa envolvida e prepara um relatório final.

O impulso financeiro fundamental veio do Economic Security Project. Fundada por Chris Hughes, Natalie Foster e Dorian Warren, em 2016, é uma organização dedicada a apoiar, financiar e pesquisar as possibilidades de se implementar um salário básico universal nos Estados Unidos como uma possível solução para a perda de empregos pela automação e inteligência artificial.

Muitos dos que promovem essa alternativa são alguns dos principais tecnólogos do Vale do Silício. Entre os convencidos está o empresário e ex-Facebook Chris Hughes. Com a colaboração do prefeito de Stockton, conseguiu lançar o primeiro projeto, em nível municipal, em uma grande cidade dos Estados Unidos. No início do ano, doaram uma quantidade de dólares que permitiu lançar um projeto pioneiro, que custará três milhões no total e será totalmente financiado por dinheiro privado.

O projeto se chama Demonstração de Empoderamento Econômico de Stockton (Stockton Economic Empowerment Demonstration) e o prefeito Michael Tubbs o defendeu da seguinte maneira: “Stockton será um exemplo para o resto do país. A pobreza é algo imoral e, simplesmente, não deveria existir. Não faltam caráter e força de vontade às pessoas que vivem angustiadas por falta de dinheiro: falta-lhes dinheiro”.

“Nosso objetivo é pesquisar não apenas como afeta as finanças, mas também o bem-estar de uma pessoa, com este conceito de possuir uma renda fixa garantida todos os meses”, explicou Natalie Foster, cofundadora da organização que financiou o projeto.

“Tivemos a sorte de conhecer o prefeito Tubbs e perceber que tínhamos um objetivo comum: tirar a ideia do salário básico garantido do mundo teórico e colocá-la verdadeiramente em prática. Permitir que isso impacte pessoas reais, com histórias reais”, afirmou.

Algumas dessas histórias, por exemplo, são a de Tomás Vargas Jr, que usou o dinheiro para pagar um professor particular para seus filhos, durante o verão, e obter um segundo diploma universitário. Esse dinheiro também lhe permitiu passar mais tempo com a sua família. Outra beneficiária disse que com as finanças seriamente comprometidas, após um acidente de trabalho do marido, precisava se beliscar para poder acreditar que esse dinheiro chegava do céu.

Um dos objetivos do projeto é afastar a ideia de dependência ou preguiça com a qual frequentemente os beneficiários de auxílios estatais são associados. Na maioria dos programas de assistência social existentes nos Estados Unidos, o destinatário do auxílio é colocado sob a lupa e é vítima de preconceitos.

O conceito de salário básico universal está intrinsecamente ligado à ideia de não se estabelecer condições e de confiar na capacidade das pessoas em usar, ao menos majoritariamente, o dinheiro de maneira inteligente e útil.

A ideia do salário básico universal, é claro, não é recente, nem nasceu no Vale do Silício. Foi forjada na Europa, ao longo dos séculos XVIII e XIX. Nos Estados Unidos, Martin Luther King a propôs em um de seus livros, e até o republicano Richard Nixon a colocou em prática, de maneira experimental, nos anos 1960 (experimento supervisionado por ninguém menos que Dick Cheney e Donald Rumsfeld, diretor e vice-diretor, respectivamente, do Escritório de Oportunidades Econômicas).

Na Holanda, Finlândia e Canadá, houve projetos-piloto apoiados pelo estado. Contudo, nos Estados Unidos grande parte do recente impulso vem do Vale do Silício.

“Estamos em um momento da história dos Estados Unidos que carece muito de ideias ousadas. Cada vez mais pessoas percebem que é necessário reequilibrar a economia. Um quarto dos trabalhadores com empregos em período integral precisa de algum tipo de ajuda ou subsídio porque não conseguem chegar ao fim do mês. E os empregos se tornarão cada vez mais precários na nova economia. Uma renda garantida que proporcione segurança, estabilidade. É esse tipo de ideia ousada que pode ajudar a mudar as coisas”, defendeu Foster.

“O mais interessante do projeto de Stockton é que ele nos oferece exemplos concretos, com rosto, nome e sobrenome, do que as pessoas reais podem fazer com uma renda extra no mês”, explicou o professor Mark Zwolinski, do Universidade de San Diego, especialista no assunto.

Os pesquisadores do projeto de Stockton medirão a evolução, entre outras coisas, no sentimento de relevância social de seus beneficiários, ou seja, o quanto percebem que são importantes para a sociedade. “Os efeitos positivos de ter um dinheiro garantido por mês são percebidos a curto e a muito longo prazo. Nos experimentos realizados no Canadá, por exemplo, constatou-se que as pessoas investiam mais em sua educação e podiam se permitir passar mais tempo com a família. Por sua vez, isto se reverte em um bem-estar prolongado ao longo do tempo, em maior conexão com as pessoas ao seu redor e até em menos gastos com a saúde, porque também tem efeitos duradouros na saúde”, explicou Zwolinski.

“Precisa ser uma quantidade que não seja um substituto de um salário exatamente, mas um complemento, um extra. As pessoas ainda precisam ter um trabalho, mas possuem maior margem para trabalhar menos, para fazer outras coisas socialmente úteis”, completou o professor. Zwolinski reconhece, no entanto, que a ideia continua sendo radical e praticamente contrária à cultura de trabalho dos Estados Unidos, uma sociedade que valoriza acima de tudo a capacidade de avançar “por si mesma”.

De fato, o experimento de Nixon fracassou. Mesmo tendo sido demonstrado que, efetivamente, a maioria das pessoas procurava um emprego e permanecia ativa, apesar de receber uma renda fixa todos os meses, sua aplicação mais generalizada não obteve maioria no Congresso.

No Alasca, cada residente recebe uma quantia dos ingressos da venda do petróleo, desde 1982, e um estudo realizado no ano passado mostrou que o número de pessoas no mercado de trabalho não diminuiu.

“Na realidade, fizemos grandes progressos nos últimos anos. A ideia está agora presente nos programas de campanha de candidatos democratas que não são considerados radicais. Eles a chamam de outra maneira, como Kamala Harris, com seu Lift the middle class (um plano para dar uma quantia mensal fixa para famílias de classe média, com renda abaixo de 100.000 dólares por ano), Julián Castro, com seu Working Families First Credit, ou Corey Booker, com seu rise credit, mas é basicamente o mesmo conceito: oferecer um piso econômico, uma base garantida, para dar um respiro às famílias e como uma forma eficaz de combater a pobreza”, explicou Foster.

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