Evangélicos sem o princípio protestante

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12 Setembro 2019

"Observa-se que o apoio evangélico ao atual presidente em grande parte é total e acrítico. Muitas das posturas, atitudes e falas de Bolsonaro que seriam veementemente repreendidas e rejeitadas se ditas ou praticadas por outros líderes políticos são apoiadas integralmente por evangélicos", escreve Carlos Caldas, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas em Belo Horizonte, onde lidera o Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte - GPPRA.

Eis o artigo. 

O teólogo luterano alemão Paul Tillich (1886-1965) foi um dos mais destacados pensadores cristãos do século passado. Sua obra vasta, tida por alguns como uma filosofia teológica, e por outros como uma teologia filosófica, tem exercido grande influência na formulação teológica de protestantes e não poucos católicos. A despeito da densidade, da profundidade e das sutilezas de seu pensamento, Tillich, em sua fase estadunidense (sua trajetória se deu em sua Alemanha natal e nos Estados Unidos, onde viveu por 32 anos) tornou-se quase um “pop star”, tendo sido inclusive capa da prestigiosa revista Time, em sua edição de 16 de março de 1959. Pensador seminal que era, formulou algumas expressões que se tornaram bastante conhecidas. Uma delas fala do “princípio protestante”[i]. Por amor à correção, há que se anotar que a expressão completa do teólogo prussiano-estadunidense é “princípio protestante e substância católica”. Mas o foco deste pequenino artigo está apenas na primeira parte do enunciado tillichiano, ou seja, o princípio protestante. O que vem a ser isso?

Antes de qualquer outra coisa, é preciso ter em mente que no contexto original da formulação da expressão “princípio protestante e substância católica”, Tillich brinca com as palavras, porque não está pensando em termos de duas tradições cristãs. A substância, termo que Tillich pega emprestado da tradição aristotélica, tem a ver com o que é essencial e imutável em uma tradição. Logo, a substância no pensamento de Tillich tem a ver igualmente com catolicismo e protestantismo. Princípio por sua vez é o norte da bússola da consciência cristã, católica ou protestante. Sendo assim, a substância católica e o princípio protestante têm a ver com o cristianismo como um todo, e não apenas com a tradição de Roma, de Wittenberg ou de Genebra.

Tillich utiliza – e explica – o mesmo conceito de princípio protestante em A Era Protestante:

O princípio protestante não é uma ideia particular religiosa ou cultural; não se submete às variações da história; não depende do momento ou da diminuição da experiência religiosa ou do poder espiritual. Trata-se do critério absoluto de julgamento de todas as religiões e de todas as experiências espirituais; situa-se nas suas bases, tenham ou não consciência dele. Este princípio expressa-se, realiza-se, aplica-se e se relaciona com outros lados da relação divino-humana de maneiras diferentes em diferentes lugares e tempos, grupos e indivíduos. O protestantismo enquanto princípio é eterno; é um critério permanente em face de todas as coisas temporais. O protestantismo, na dimensão histórica, é um fenômeno temporal sujeito ao princípio protestante eterno (TIILICH, 1992, p. 14).

Em resumo: o princípio protestante de Tillich é a manifestação da denúncia e do protesto profético contra tudo que é condicional que quer ser incondicional, contra tudo que é relativo que quer ser absoluto, contra tudo que é finito que quer ser infinito, contra tudo que é passível de crítica que não admite ser escrutinado, nem avaliado nem submetido a qualquer espécie de juízo. O princípio protestante critica qualquer pretensão absolutista de inerrância e de posse exclusiva da verdade, em qualquer área da vida.

A ideia tillichiana de princípio protestante é um antídoto contra a idolatria. Por oportuno, há que se lembrar que idolatria é também categoria importante no pensamento tillichiano[ii]. Idolatria para Tillich é a absolutização do que é condicionado. Quando se perde a consciência do princípio protestante, facilmente pode-se cair em idolatria, tendo-se ou não consciência disso.

O conceito tillichiano de princípio protestante, mesmo tendo sido apresentado de maneira por demais sucinta, será usado para analisar a maneira como muitos evangélicos, de diferentes denominações, pentecostais e protestantes clássicos, têm tido com referência ao atual governo brasileiro. Vários analistas do cenário político brasileiro contemporâneo demonstraram o peso decisivo que o voto evangélico teve na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018[iii]. O discurso de Bolsonaro, em particular sua ênfase sobre a “pauta de costumes”, cativou com facilidade grande parte do público evangélico. O fato de estar casado (o atual é o seu terceiro casamento) com uma evangélica decerto contribui para torná-lo mais palatável para esta considerável parcela da população brasileira.

Todavia, causa perplexidade o fato deste mesmo público continuar a dar apoio amplo, geral e irrestrito ao presidente a despeito de atitudes e falas dele completamente contrárias a valores que os evangélicos, por definição, valorizam, ou dizem valorizar. O discurso do presidente, antes e depois da campanha eleitoral de 2018, envolve temas no mínimo, estranhos, para quem se pauta por uma ética evangélica clássica. Vide como exemplo sua apologia da tortura e do assassinato de partidários de posições políticas que não as suas [iv]. Apesar de Bolsonaro em 2016 ter sido “batizado” no Rio Jordão pelo pastor pentecostal Everaldo Dias Pereira, presidente do Partido Social Cristão (PSC), em nenhum momento deu qualquer demonstração ou evidência de ter se arrependido de declarações tão opostas aos princípios evangélicos, isto é, relacionados ao Evangelho – com E maiúsculo – de Jesus Cristo. Mesmo assim, a maioria dos evangélicos continua a apoiar o presidente com grande fervor.

Pesquisas recentes apontam queda nos níveis de popularidade e de aprovação do atual governo. Não por mera coincidência, neste exato momento o presidente busca cada vez mais participar de eventos com líderes evangélicos pentecostais, ligados à teologia da prosperidade. Tudo isso quando a (por enquanto) mais recente pesquisa do Datafolha mostra que aumentou de 33% para 38% o índice de reprovação da gestão Bolsonaro, com um dado curioso: tem crescido o número de descontentes com o atual governo entre as camadas mais ricas e escolarizadas. Os evangélicos, pentecostais em sua quase totalidade, continuam sendo o único segmento da população em que a popularidade de Bolsonaro se mantém estável: 56% de umbandistas, 46% de espíritas, 42% de católicos consideram seu governo ruim ou péssimo, sendo que entre os evangélicos apenas 27% o reprovam.

Observa-se que este apoio evangélico ao atual presidente em grande parte é total e acrítico. Muitas das posturas, atitudes e falas de Bolsonaro que seriam veementemente repreendidas e rejeitadas se ditas ou praticadas por outros líderes políticos são apoiadas integralmente por evangélicos. Se não dão apoio explícito, não fazem ouvir uma voz de crítica profética quando elementos teoricamente muito caros aos evangélicos são desprezados por completo. Vê-se assim evangélicos sem o princípio protestante. E quando falta o princípio protestante, quando falta a crítica profética, surge a idolatria. 

Referências:

TIILICH, Paul. A Era Protestante. São Bernardo do Campo: Ciências da Religião, 1992

TILLICH, Paul. A dinâmica da fé. 7ª edição. São Leopoldo: Sinodal, 2002

 

Notas: 

[i] A expressão “princípio protestante” – na verdade, tal como apontado no texto, a fórmula completa, princípio protestante e substância católica, aparece no terceiro volume da Teologia Sistemática de Paul Tillich, especificamente, na quarta parte do segundo capítulo, quando comenta a “presença espiritual”, isto é, a pneumatologia.

[ii] O conceito de idolatria é importante no pensamento de Tillich. Todavia, a despeito de sua importância, a compreensão tillichiana de idolatria não será apresentada neste texto. Para detalhes, consultar A dinâmica da fé, de Tillich.

[iii] Como exemplo, vide a entrevista do sociólogo Alexandre Brasil Fonseca publicada no portal IHU Online

[iv] Em entrevista à rádio Jovem Pan em junho de 2016 Bolsonaro afirmou que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. Antes, em maio de 1999, declarou “no período da ditadura, deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique, o que seria um grande ganho para a nação”.

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