Extrema direita e crise climática: o risco do nacionalismo verde

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04 Setembro 2019

A crescente preocupação dos cidadãos sobre os efeitos da crise climática está forçando os partidos a se posicionarem em relação a ela, incluindo grupos de extrema direita que não tiveram uma posição clara para além do negacionismo que, há anos, compartilham de forma majoritária. Esse posicionamento está se tornando um fator cada vez mais decisivo para o voto, e é previsível que seu peso aumente na medida em que os efeitos da crise climática se tornem mais visíveis em nossa vida cotidiana.

A reportagem é de Layla Martínez, publicada por El Salto, 31-08-2019. A tradução é do Cepat.

As eleições parlamentares de 2018, na Hungria, confirmavam o apoio ao governo de extrema direita de Viktor Orbán, que conquistava a maioria absoluta pela terceira vez. Seu partido, a União Cívica Húngara (Fidesz), conquistava 133 das 199 cadeiras em jogo, melhorando os resultados das eleições anteriores. No entanto, a surpresa eleitoral não era dada pela formação de Orbán.

Do outro lado do arco parlamentar, o Partido Socialista Húngaro caía para 20 cadeiras e perdia o segundo lugar. A liderança da oposição ficava nas mãos do Movimento por uma Hungria Melhor (Jobbik), um partido ainda mais à direita que a União Cívica e que conquistava 26 cadeiras. A correlação de forças parlamentares não deixava muito espaço para dúvidas: de um lado você tinha a ultradireita e, do outro, bom, ainda mais de ultradireita. Podemos classificar como fascistas sem medo de estarmos errados: o Movimento tem até seus próprios corpos paramilitares, os Magyar Gárda.

As contundentes vitórias eleitorais e o domínio parlamentar colocavam a extrema direita húngara em uma posição de liderança entre os partidos dessa corrente de outros países europeus, juntamente com o Lei e Justiça polonês. Todos querem se parecer com eles. Todos ouvem suas declarações, analisam seus discursos, aprendem com suas medidas.

Nesse contexto, as declarações da União Cívica sobre a necessidade de implementar políticas que parem a crise climática são especialmente relevantes. No Parlamento Europeu, o partido de Orbán é um dos que mais defenderam a necessidade dessas medidas dentro da extrema direita, embora na Hungria tenha sido muito mais moderado. O Movimento por uma Hungria Melhor não fica muito atrás: o partido se define como “ambientalistas de extrema direita” e em sua página no Facebook promove um “nacionalismo verde” e uma “administração da natureza sob valores cristãos”.

Outro dos partidos que parece estar modificando seu discurso sobre a crise climática é o Reunião Nacional, de Marine Le Pen. Em seu programa para as eleições europeias deste ano, escrito na forma de manifesto, anunciaram a criação de uma plataforma dedicada às mudanças climáticas. O porta-voz do partido, Jordan Bardella, disse em uma entrevista, em abril, que "as fronteiras são o melhor aliado das mudanças climáticas" e que "com elas salvaremos o planeta". A própria Le Pen argumentou que a preocupação com o clima é "inerentemente nacionalista" e que aqueles que são "nômades", se referindo a migrantes e refugiados, "não se preocupam com o meio ambiente, porque não têm pátria".

Guillermo Fernández, especialista em extrema direita francesa, destaca que a incorporação da defesa do ambientalismo como parte do projeto nacionalista está sendo uma das linhas que algumas correntes da direita radical europeia seguem para renovar o projeto de patriotismo identitário. “Esse foi amplamente o programa do Frente Nacional francês, agora reunião nacional, entre 2011 e 2017. Seu ideólogo, Florian Philippot, continua defendendo tais tipos de ideias e pode ser facilmente visto criticando o uso de pesticidas e falando sobre abuso animal e a necessidade de aumentar a ajuda pública ao setor primário francês para realizar tal tipo de reforma. E tudo com um mantra geral: será favorecida a saúde de todo o povo francês e a sobrevivência do modo de vida francês”.

No entanto, essa posição não é compartilhada por toda a extrema direita francesa. “A posição de Marion Maréchal Le Pen, neta de Jean-Marie Le Pen e favorita a liderar o Reunião Nacional no futuro, é que o ambientalismo é um inimigo cultural, que deve ser combatido porque, em primeiro lugar, exagera em seus diagnósticos e, em segundo lugar, é um cavalo de Tróia do liberalismo globalista”.

Essa ambivalência é compartilhada por boa parte da ultradireita europeia. Em um estudo realizado por Stella Schaler e Alexander Carius, que analisa a postura relacionada à crise climática e as políticas ambientais de 21 partidos de extrema direita presentes no Parlamento Europeu, os autores encontraram uma ampla variedade de posicionamentos, de negacionistas da mudança climática a conservacionistas do meio ambiente. Embora os negacionistas sejam cada vez menos - Chaler e Carius descobriram que sete dos 21 partidos mantinham essa postura -, a maioria dos parlamentares de extrema direita vota regularmente contra as medidas de política climática e energética - dois em cada três, segundo o estudo - e metade de todos os votos contra as resoluções sobre clima e energia vem da extrema direita.

De fato, nos últimos meses, temos assistido a vários exemplos de partidos de ultradireita que fizeram campanha contra políticas para frear a crise climática, com um resultado desigual. Na Finlândia, as eleições gerais deste ano deram, contra todas as probabilidades, a liderança da oposição ao Partido Finlandês, cuja campanha se baseou na rejeição explícita dessas medidas, com o argumento de que prejudicam a classe trabalhadora. Enquanto os outros oito partidos que concorreram às eleições incluíram em seus programas medidas contundentes contra a mudança climática, o grupo de ultradireita decidiu apostar em transformar essa questão em um polarizador do debate e assumir uma postura contrária. Foram bem: suas alegações de que o país havia caído na "histeria climática" e de que "já havia feito o suficiente nesse sentido" deram-lhes 39 cadeiras, apenas uma a menos que o vencedor, o Partido Social-Democrata.

Na Alemanha, por outro lado, essa estratégia não parece ter dado bons resultados. Nas últimas eleições europeias, nas quais a mudança climática apareceu como uma das principais preocupações dos eleitores, o Alternativa para a Alemanha optou por reafirmar suas posturas negacionistas. Embora o partido tenha crescido modestamente em comparação às eleições anteriores, seus resultados foram experimentados como uma derrota, uma vez que os Verdes dobraram em apoio eleitoral e ficaram em segundo lugar.

Algumas correntes do próprio partido atribuíram esses resultados às posturas sobre as mudanças climáticas e exigiram uma retificação. Em uma carta aberta, o líder da juventude do partido, David Eckert, estimulou a organização a "abster-se de declarar que a humanidade não influencia o clima", alertou que isso poderia afastar o partido dos mais jovens e apontou que os problemas climáticos "movem mais pessoas do que pensávamos".

Riscos

A crescente preocupação dos cidadãos sobre os efeitos da crise climática está forçando os partidos a se posicionarem em relação a ela, incluindo grupos de extrema direita que não tiveram uma posição clara para além do negacionismo que, há anos, compartilham de forma majoritária. Esse posicionamento está se tornando um fator cada vez mais decisivo para o voto, e é previsível que seu peso aumente na medida em que os efeitos da crise climática se tornem mais visíveis em nossa vida cotidiana. Portanto, embora uma parte deles permaneça ancorada no negacionismo, muitos outros começaram a direcionar seu discurso para posições mais estratégicas.

Emilio Santiago e Héctor Tejero, autores de ¿Qué hacer en caso de incendio? (Capitán Swing, 2019), veem duas opções possíveis: “a extrema direita”, diz Tejero, “enfrentará um grande dilema nos próximos anos, já que tradicionalmente tem sido associada a posturas negacionistas climáticas que são cada vez mais insustentáveis pela pura experiência pessoal do povo. Diante disso, tem duas opções possíveis: moderada, com posições que reconhecem as mudanças climáticas, mas diminuem a importância de suas consequências e propõem medidas claramente insuficientes, geralmente se apoiando nas necessidades econômicas, ou tentando usar a crise ecológica em benefício de seus posicionamentos e políticas anti-imigração, mas também antielites”.

Para Santiago, é provável que essas duas possíveis linhas de posicionamento estejam relacionadas às próprias reservas de combustíveis fósseis que o país tiver: “Nos países onde há combustíveis fósseis, será muito tentador aproveitar esta oportunidade para esgotar as reservas de combustíveis fósseis, terceirizando o dano ao exterior e se escondendo no negacionismo da mudança climática, mesmo que seja um negacionismo moderado. A outra linha possível é aproveitar a crise climática para consolidar um discurso excludente, de fechamento nacionalista diante da percepção de escassez”.

O risco de que a extrema direita use a crise climática para espalhar um discurso racista e xenófobo é especialmente preocupante, se consideramos que a ONU já estimou em 17,2 milhões o número de deslocadas em consequência da mudança climática, no ano passado, e que é previsível que esse número aumente na medida em que os efeitos da crise ecológica se acelerem. "As migrações climáticas vão adquirir tais dimensões que se faz necessário reconhecer que seu potencial de desestabilização política é objetivo", destaca Santiago. “Uma política de abertura de fronteiras, que eticamente deveríamos manter, deve assumir que sua tarefa será difícil devido a essas tensões, devido ao perigo da extrema direita e por causa do risco de que também surjam opções à esquerda, como estamos vendo princípios, que apostem em políticas excludentes”.

Para Tejero, “talvez o maior medo seja que, em um contexto de grave crise climática, sejam usados argumentos que podem atrair mais pessoas, inclusive pessoas que se sentem e tradicionalmente votam à esquerda. Por exemplo, os argumentos do 'não cabemos todos' ou a 'ética do barco salva-vidas', que por não haver espaço, fica legitimado eticamente deixar as pessoas morrerem sem ajudá-las ou até mesmo através da força evitar que subam no barco".

Precisamente, essa metáfora do barco salva-vidas é frequentemente usada nas comunidades ambientalistas de extrema direita que podem ser encontradas na internet. Embora seu número e capacidade de influência sejam pequenos, tem adquirido notoriedade pelo massacre de Christchurch, na Nova Zelândia, em março deste ano, cujo autor se definiu como "ecofascista" no manifesto que tornou público antes do tiroteio. As justificativas para a defesa da natureza também estavam entre as razões apresentadas pelo autor do massacre de El Paso, em agosto, que acabou com a vida de 22 pessoas. Esses grupos compartilham uma ideologia que combina racismo, nacionalismo, supremacia branca, teses de eugenia e uma defesa da natureza baseada no lebensraum, o espaço vital.

Peter Standemaier e Janet Biehl pesquisaram a origem dessa ideologia em seu livro Ecofascismo. Lecciones sobre la experiencia alemana (Virus, 2019): “Houve um vínculo histórico significativo entre algumas versões do ambientalismo e algumas versões da política de direita, por mais de um século, tanto na Europa como na América do Norte e em outros lugares”. Diz Staudenmaier. “A maior parte de minha pesquisa se concentra na Alemanha, na primeira metade do século XX, mas a história toda é muito mais ampla. Nos Estados Unidos, por exemplo, vários conservacionistas iniciais apoiaram fortemente a eugenia. Talvez o aspecto mais importante dessa história seja a conexão que ambientalistas de extrema direita postulam entre pureza natural e pureza racial. Os recentes assassinatos em massa, em Christchurch e El Paso, são um exemplo claro. Ambos os autores invocaram explicitamente preocupações ecológicas justificando suas ações”.

Possibilidades

Os riscos de um aumento do peso de partidos de extrema direita e de posições ideológicas ecofascistas no contexto da crise climática podem ser freados a partir de várias frentes. Para Tejero, “isso passa por propor uma alternativa progressiva que seja capaz de articular maiorias populares, eleitorais, mas também sindicais e a nível de movimentos: uma transição ecológica socialmente justa que transforma a luta contra a crise climática em uma alavanca para reduzir a desigualdade e democratizar a sociedade".

Santiago afirma que, “no nível institucional, seria importante pensar em políticas de médio prazo que se posicionem corretamente quem é o verdadeiro inimigo e o que está em jogo. Será necessária uma guerra de posições, com concessões de curto prazo, que possibilitem vitórias de longo prazo. No nível dos movimentos sociais, somente se formos capazes de construir uma ideia de felicidade mais sedutora, mas ao mesmo tempo com uma carga ecológica menor, poderemos combinar transição ecológica e democracia”.

Os riscos são grandes, mas as possibilidades também. "Estamos em um momento em que o grande debate ético e político nos coloca diante de duas opções: compartilhar em uma escala sem precedentes ou matar em uma escala que também é sem precedentes", continua Santiago. “A extrema direita vai construir a política da maioria apelando a todos os medos e todas as angústias que essa situação gera, nos preparando coletivamente para dar uma resposta homicida à crise climática". Está em nossas mãos evitar que isso aconteça.

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