Bispos americanos deveriam cancelar tudo e buscar evitar um cisma

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27 Agosto 2019

"Confesso não saber ao certo o que a hierarquia deveria fazer com grupos como o LifeSiteNews e o Church Militant. Não creio que ignorá-los funciona. Eles estão bem financiados e organizados. O Church Militant atua agora em estúdios com um profissionalismo impressionante. As transformações em tecnologia permitem que estes grupos espalhem tais divisões para que as sementes do cisma possam brotar mais rapidamente e mais amplamente do que antes", escreve Michael Sean Winters, jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-08-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Tenho uma modesta proposta para a conferência episcopal dos EUA. Eles deveriam deixar de lado toda a agenda marcada para a assembleia plenária de novembro e abordar uma única questão: Até que ponto as sementes de um cisma real estão sendo lançadas dentro da igreja americana?

Semana passada, um amigo chamou a minha atenção para um sítio chamado Faithful Shepherds lançado há um ano pelo LifeSiteNews. Seus editores afirmam que a finalidade do mesmo é criar um “banco de dados” com as posições em que se encontram os bispos católicos sobre certos assuntos e “incentivar os bispos a serem fiéis a Cristo”.

O sítio aborda uma gama de questões, incluindo homossexualidade e liturgia. “O seu bispo incentiva a Comunhão na língua enquanto os fiéis estão de joelhos?” é uma das perguntas colocadas. Fiquei feliz ao ver que corretamente nomearam uma categoria de “política abortiva”, embora não conseguiram perceber que a certeza em política difere da certeza em moralidade. O item mais estranho na lista é o testemunho de Dom Carlo Maria Viganò sobre quem perguntam o seguinte: “O seu bispo apoiou uma investigação a partir das afirmações de Viganò? O seu bispo diz que as declarações de Viganò estão motivadas pela ideologia ou são um ataque ao Papa Francisco? O seu bispo falou que Viganò é um homem íntegro?” É estranho que a fidelidade a Viganò tenha se tornado um cartão postal entre estes cismáticos. O que ele diz é obviamente uma combinação de insinuações; se nada soubéssemos sobre Viganò ou nada sobre as pessoas que ele nomeia e apenas lêssemos os textos como estão no site, ficaríamos suspeitos quanto aos seus autores.

Quando descobrimos em que campo se encontra o nosso bispo a respeito destes temas, podemos clicar sobre um botão e enviá-lo um cartão, agradecendo-o por apoiar as posições que o LifeSiteNews endossa ou pedir-lhe que abandone os seus caminhos rebeldes. Primeiro, somos convidados a fazer uma doação de 5 dólares ou mais e, depois, sabemos que o nosso cartão de crédito terá uma cobrança de 2 dólares pelo cartão. Podemos também usar a opção “Faça você mesmo”, já que o site fornece o endereço de email e o número de telefone de cada prelado.

“Por muito tempo, os leigos católicos não contavam com uma ferramenta de responsabilização oficial para os bispos dos EUA, especialmente aqueles que se desviam do magistério da Igreja”, escrevem. Vendo como Francisco é, no momento, a encarnação do magistério da Igreja, o fato de eles aplaudirem os bispos que criticam Amoris Laetitia e denunciam os que apoiam este documento é, no mínimo, estranho.

Na semana passada, o Cardeal Blase Cupich foi o prelado em destaque no sítio. Não vou ocupá-los com o modo bizarro usado pelos editores para enquadrar diferentes itens na lista de queixas apresentada. Muitos são tendenciosos ao extremo. Outros são verdadeiros, mas nesta linha extremista, o que é são está apresentado como herético e o que é lugar-comum é considerado com ultraje.

Não creio que bispo algum, nem mesmo o Bispo de Roma, é isento de críticas. Mas o que faz deste site Faithful Shepherds tão nefasto, e na verdade o que faz o LifeSiteNews e outros meios de comunicação conservadores tão nefastos atualmente, é que a fidelidade é definida como estando-se em oposição ao papa. Não citam um único exemplo em que a concordância com o papa é marca de fidelidade. Bobo sou eu. Todos estes anos, pensei que estar em comunhão com o sucessor de Pedro fosse uma marca significativa do catolicismo romano.

Podemos encontrar afirmações ainda mais ultrajantes na direita católica, e é particularmente interessante quando eles atacam uns aos outros por não serem suficientemente extremos. Há um ensaio no blog Novus Ordo Watch que critica o jornal de extrema-direita The Remnant porque este último questionou o sedevacantismo, ideia segundo a qual modernistas conspiraram em 1958 para eleger um papa ilegítimo e que o verdadeiro papa está escondido em algum outro lugar. Este grupo está em cisma formal, e representam uma fatia da população.

Às vezes, as fontes do pensamento cismático difundem-se e cruzam espaços da imprensa convencional. Como informou a minha colega Heidi Schlumpf, o livro de Taylor Marshall, intitulado Infiltration: The Plot to Destroy the Church from Within (Infiltração: a trama para destruir a Igreja a partir de dentro, em tradução livre), sustenta que os maçons conspiraram com sucesso para eleger o Cardeal Jorge Maria Bergoglio em 2013. Estranho, sim, mas foi publicado por Sophia Press, filial da EWTN, e alcançou o posto de número 1 em várias categorias do site de vendas Amazon, incluindo a categoria história da igreja cristã.

Os bispos aqui listados podem me contatar se quiser publicamente denunciar este esforço insidioso e a sua teologia de má qualidade.

O site Faithful Shepherds não somente inclui os bispos que o LifeSiteNews ridiculariza. Ele também inclui muitos bispos que aplaudem. Claro, o Cardeal Raymond Burke não recebe outra coisa senão aplausos. Igualmente elogiam o Cardeal-arcebispo Daniel DiNardo (de Galveston-Houston), Dom Thomas Paprocki (de Springfield, Illinois), Dom Thomas Olmsted (de Phoenix, Arizona), Dom Michael Burbidge (de Arlington, Virginia) e muitos outros. Será que estes bispos aprovam o método do LifeSiteNews de dividir a hierarquia? Concordam que a oposição a Francisco é uma marca de fidelidade? Irão eles publicamente se desassociar para com este projeto? Os bispos aqui listados podem me contatar se quiserem publicamente denunciar este esforço insidioso e a sua teologia de má qualidade.

Lembro-me de um bispo que me contou sobre uma visita ad limina durante o pontificado do Papa São João Paulo II. Em um encontro com o então Cardeal Joseph Ratzinger, um bispo comentou a sobre os esforços para dividir a hierarquia rotulando-se alguns bispos como ortodoxos e outros heterodoxos. Ratzinger respondeu que todos os bispos eram ortodoxos. A crítica aos bispos – mesmo entre eles mesmos – jamais deveria questionar a fidelidade ao Evangelho. É possível discordar entre si e, ainda sim, ser católico. O projeto LifeSiteNews não reconhece a diferença.

LifeSiteNews também destacou recentemente uma entrevista com Janet Smith, quem aparentemente se retirou do cargo de professora do Seminário Maior do Sagrado Coração, em Detroit. O meu colega Peter Feuerherd publicou na internet um artigo sobre o grau a que este seminário chegou com as críticas a Francisco feitas por seus professores, escândalo que merece atenção. Assistamos a entrevista com Smith e vejamos o minuto 10:08 para ouvir como ela respondeu a uma pergunta sobre Francisco. No minuto 29:53, o entrevistador, também editor do LifeSiteNews, John-Henry Westin, traz Judas Iscariotes para a discussão, e ambos concordam que este relato é, hoje, um consolo, haja vista os bispos corruptos dos nossos tempos. Judas?

Confesso não saber ao certo o que a hierarquia deveria fazer com grupos como o LifeSiteNews e o Church Militant. Não creio que ignorá-los funciona. Eles estão bem financiados e organizados. O Church Militant atua agora em estúdios com um profissionalismo impressionante. As transformações em tecnologia permitem que estes grupos espalhem tais divisões para que as sementes do cisma possam brotar mais rapidamente e mais amplamente do que antes.

Sei, no entanto, disto: é difícil ver como algum outro tema poderia ser mais clamante da atenção dos bispos. O meu medo é que haja uma minoria significativa de bispos que concordam com algumas das loucuras do LifeSiteNews. A unidade dentro da nossa Igreja, no entanto, não se baseia numa ideologia, progressista ou conservadora. O ministério petrino existe para servir a unidade da Igreja. Seria impossível imaginar qualquer unidade eclesial fundada na oposição a Pedro. Nos próximos meses, quando os bispos americanos começarem as visitas ad limina ao Vaticano e enquanto se planejam para o encontro anual em Baltimore, eles precisam começar a forjar uma resposta que seja pastoral, porém decisiva.

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