''Não tenha medo, pequeno rebanho''

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09 Agosto 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 19º Domingo do Tempo Comum, 11 de agosto (Lucas 12,32-48). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Continua o caminho de Jesus e dos discípulos rumo a Jerusalém, onde ocorrerá o seu êxodo (cf. Lc 9,31), a sua morte. Jesus sabe o que o aguarda, porque a hostilidade da hierarquia religiosa judaica já se tornou obsessiva, enquanto a simpatia das pessoas vai diminuindo cada dia mais, porque não parece se realizar aquele Messias que eles pretendiam encontrar em Jesus. Ele parece cada vez mais decepcionante para a multidão, e o perfil do fracasso de uma missão e de uma vida se torna cada vez mais evidente.

É nesse contexto que Jesus pronuncia algumas palavras que, depois de dois milênios, são escutadas pelos fiéis com comoção profunda e convicção perseverante: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”. Jesus olha para a pequena realidade da sua comunidade, um “barraco” mais do que uma construção, cerca de 20 homens e algumas mulheres que o seguem, muitas vezes perplexos e ansiosos, e se dirige a eles com uma linguagem afetiva e fraterna: “Não tenha medo, pequena realidade, que parece inadequada para realizar uma missão que diz respeito a todo o Israel, a toda a humanidade. Não tenha medo, minoria fraca e visivelmente frágil, sem apoios no mundo. Não tenha medo, realidade pouco visível, inerme, sem influência e impotente no mundo. Não tenha medo, comunidade que merece reprimendas e precisa continuamente de repreensões, de correções”.

Por quê? Porque, mesmo assim, o Pai, Deus, no seu amor, quer dar a essa comunidade o Reino, fazê-la participar daquela vida que é a dele, a vida salva, sensata, na sua mão, da qual ninguém jamais poderá arrancá-la.

A imagem do pequenino rebanho é distante de nós e provavelmente também pouco eloquente, mas o que é decisivo nela é o caráter da pequenez. Jesus vê atrás de si uma pequena realidade, enquanto é grande a realidade religiosa dos judeus, é grandíssima a realidade do mundo em que essa pequena comunidade apareceu e cresceu pouco. Porém, que ela não tema, não se deixe atacar pela ansiedade e pelo medo, porque, naquela situação tão precária, o decisivo é acolher a promessa de Jesus de participar do Reino de Deus.

É claro, para acolher tais palavras de Jesus e, consequentemente, não temer, mas sim se alegrar, é preciso ser realmente o pequeno rebanho que o segue, envolvido na sua história até o fracasso e a morte. Não basta se dizer cristão, mas, para sê-lo verdadeiramente, é preciso ser “pobres”, pecadores que desejam conversão, homens e mulheres que não confiam em si mesmos, mas sabem pôr a fé e a esperança em Jesus e no seu Reino vindouro. Não tomemos como certo que essas palavras têm a nós como destinatários, porque nos dizemos cristãos! Assim como se dizer filhos de Abraão podia ser um engano (cf. Lc 3,8; Mt 3,9), assim também se dizer discípulos de Jesus pode coincidir simplesmente com a vaidade de uma pertença, com o fato de se dar uma identidade que cubra o vazio pessoal.

Compreendemos, então, a afirmação seguinte de Jesus: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Para ter essa alegria do dom do Reino, é preciso pouco, pouquíssimo: separar-se dos bens, compartilhando-os!

Eu confesso que essa palavra me impressiona, única condição posta para ser um pequeno rebanho: despojar-se e compartilhar. Despojar-se daquilo que se tem – bens, dinheiro, terra – não por desprezo, não em nome de um cinismo filosófico, mas simplesmente para compartilhar com aqueles que não têm e não possuem.

Cada um tem riquezas: dinheiros, posses, mas também força, tempo disponível, dons pessoais. Basta compartilhar isso com os outros, que são todos irmãos e irmãs. Só assim é que um discípulo, uma discípula, torna-se realmente tal, deixa de ter dois senhores (cf. Lc 16,13; Mt 6,24), deixa de se colocar no centro da vida e não é mais tentado a ser alienado pelo ter, pela posse, não é mais tentado a pôr a confiança e a esperança nas riquezas.

Sim, repito, é tão simples, mas requer uma conversão que nunca ocorreu de uma vez por todas, mas que deve ser renovada dia após dia no seguimento de Jesus, porque os bens, o dinheiro, quase sempre nos acompanham e crescem. Penso muitas vezes na nossa vida de monges: chegamos ao mosteiro respondendo à vocação e não temos nada, somos realmente pobres, porque, se tínhamos bens ou dinheiro, nós os deixamos; mas, depois, pouco a pouco, participamos dos bens e do dinheiro sem os quais uma comunidade não pode viver e, infelizmente, deixamo-los crescer e acabamos justificando o acúmulo, até confiar neles. Então – é preciso dizer – não somos mais o pequenino rebanho de Jesus!

Por isso, Jesus pede uma grande vigilância e uma profunda inteligência na vida cristã. Pede para permanecer na atitude e na postura dos servos, que, para servir, cingiam-se com a veste; pede para manter as lâmpadas acesas, para permanecer à espera da vinda do Senhor, para escutar aquele que bate na porta e poder lhe abrir quando chegar. Servos à espera do Senhor que vem: eis quem são os cristãos, para os quais ressoa a bem-aventurança: “Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar”, isto é, bem-aventurado aquele que, tendo o Senhor como tesouro, estará à espera de encontrá-lo e o encontrará na sua vinda, a qualquer hora que chegue, mesmo que tenha que tardar.

Jesus acrescenta um brevíssimo ditado, performativo para os discípulos, seguido de uma exortação: “Se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”. Vigiar, não dormir, não ser vítima do sonambulismo e da confusão espiritual, manter os olhos abertos não é fácil: o cansaço do dia, o trabalho, os muitos serviços feitos, a duração da vida cristã, a monotonia do cotidiano são todos atentados à vigilância, que também significa consciência e responsabilidade. “O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14,38; Mt 26,41), diz Jesus em outro lugar a três discípulos que não conseguem vigiar com ele na noite da paixão.

E, se é verdade que todos os discípulos, os servos, devem vigiar, há alguém que é mais responsável por essa atenção do que os outros. No pequenino rebanho, todos são irmãos e irmãs, todos receberam a tarefa de vigiar, mas nem todos têm a mesma responsabilidade. É por isso que, solicitado por Pedro, Jesus diz claramente que, na comunidade, há uma distinção entre os simples discípulos e os responsáveis, que não devem se separar, mas, ao contrário, realizar mais a fraternidade e a igualdade dos filhos de Deus.

Há alguém que, na comunidade, tem uma tarefa precisa, a do oikonómos, da pessoa encarregada pela casa, chamada a realizar o seu serviço dando de comer aos seus irmãos e irmãs, dando o alimento da palavra e da sabedoria de Deus, “ministro” porque dá a cada um a “minestra” [sopa]: esse é o sustento necessário, que faz viver, do qual o oikonómos é responsável. Cabe a ele o cuidado espiritual e material dos irmãos, e ele deve desempenhar o serviço de servo confiável (pistós) e inteligente, sábio (phrónimos).

Mas, se esse servo se coloca no centro da vida comunitária; se só afirma a si mesmo e não faz os outros crescerem; se pensa em levar a “sua vida”, sem uma partilha com seus irmãos e as irmãs; se organiza o consenso em torno de si mesmo, porque tem no coração os sentimentos do tirano, para o qual os outros nada mais são do que instrumentos do seu poder e sucesso; se não sabe mostrar misericórdia humanitária nas relações comunitárias; e se, alimentado pelo narcisismo, pensa que é “irrepreensível” e só fustiga os defeitos dos outros, então...

Nós acrescentamos mais nada, basta ler o trecho do Evangelho até o fim. Então, o Senhor que vem se separará daquele servo e o colocará entre as pessoas não confiáveis... Portanto, atenção: de quem é mais dotado de dons, é mais inteligente, tem mais responsabilidades na comunidade do Senhor, mais será exigido! Porque o juízo de Deus, que se manifestará quando estivermos diante dele depois da nossa morte, dependerá não apenas daquilo que tivermos feito, mas também do grau de consciência e de responsabilidade que tivemos e do uso dos dons de que fomos dotados.

Todos os cristãos, mas acima de tudo os seus guias, sempre devem manter o olhar fixo no horizonte escatológico: o Senhor é Aquele que vem, portanto é preciso estar vigilante e ser capaz de esperá-lo!

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