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09 Agosto 2019

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - MG.

 

Mas basta-me um quadrado de sossego

Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos

Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras

Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos noturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos

Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para sermos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas (...).

Fonte: Daniel Faria. Poesia. Assírio & Alvim. Porto, 2012, p. 131.

Daniel Faria | Foto: Sabrina Silva - Wikimedia Commons

Daniel Faria (1971 - 1999): Poeta português que ocupou um lugar de destaque na poesia contemporânea portuguesa. Faria tomou gosto pelos versos enquanto frequentava a Faculdade de Teologia de Porto e na mesma época percebeu sua vocação para vida monástica. Faleceu, em 09 de junho de 1999, em um acidente doméstico, quando estava próximo de encerrar o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.

Publicou, ainda em vida, Uma Cidade com Muralha (1991), Oxálida (1992), A Casa dos Ceifeiros (1993), Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998) e Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998), que foram seguidas de obras póstumas, entre elas, Legenda para uma casa habitada (2000).

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