Visão teológica radical de Francisco inclui o diálogo e a humildade

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16 Julho 2019

Nessa terça-feira, 9, eu chamei a atenção para um artigo de Robert Mickens sobre o recente discurso do Papa Francisco em um simpósio teológico em Nápoles. Onze dias atrás, meu colega Joshua McElwee relatou a homilia do papa na missa que celebrou a festa de São Pedro e São Paulo. Na segunda-feira, o papa marcou o sexto aniversário de sua viagem a Lampedusa com uma missa pelos migrantes, na qual ele fez o sermão. Esses três textos destacam a penetrante visão teológica desse papa, por que ela é tão adequada aos nossos tempos e por que ela perturba um certo tipo de católico norte-americano.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 10-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O discurso em Nápoles, como Mickens observou, foi notável por causa do foco do papa na teologia no Mediterrâneo como ele é hoje, não apenas como a fonte histórica de ideias filosóficas greco-romanas que tanto moldaram a Igreja primitiva. A conferência levou em consideração a teologia no rastro da constituição apostólica Veritatis gaudium, de Francisco, que trata da renovação das faculdades e universidades eclesiásticas. Em Nápoles, ele disse:

“Quando no Prefácio da Veritatis gaudium se menciona o aprofundamento do querigma e o diálogo como critérios para renovar os estudos, pretende-se dizer que eles estão a serviço do caminho de uma Igreja que se coloca cada vez mais no centro a evangelização. Não a apologética, não os manuais, como ouvimos: evangelizar. No centro está a evangelização, que não quer dizer proselitismo. No diálogo com as culturas e as religiões, a Igreja anuncia a Boa Notícia de Jesus e a prática do amor evangélico que Ele pregava como uma síntese de todo o ensinamento da Lei, das visões dos Profetas e da vontade do Pai. O diálogo é, acima de tudo, um método de discernimento e de anúncio da Palavra de amor que é dirigida a cada pessoa e que quer habitar no coração de cada um. Só na escuta dessa Palavra e na experiência do amor que ela comunica é que se pode discernir a atualidade do querigma. O diálogo, assim entendido, é uma forma de acolhida.”

O diálogo, reconheceu ele, não é uma fórmula mágica, mas sim uma metodologia de respeito pelas pessoas, assim como pelas ideias, e é o único caminho para relações sociais pacíficas e justas.

Francisco também apontou para o diálogo como uma espécie de autocorreção acadêmica.

“Precisamos de teólogos – homens e mulheres, presbíteros, leigos e religiosos – que, em um enraizamento histórico e eclesial e, ao mesmo tempo, abertos às inesgotáveis novidades do Espírito, saibam fugir das lógicas autorreferenciais, competitivas e, de fato, ofuscantes que muitas vezes existem até mesmo nas nossas instituições acadêmicas e escondidas, muitas vezes, entre as escolas teológicas.”

Essa expressão “lógica ofuscante” certamente é uma descrição incisiva de certas normas ideologicamente orientadas da academia e pode ser encontrada tanto na esquerda quanto na direita.

O sermão do papa na grande missa festiva foi uma das minhas favoritas em todo o pontificado, por causa do seu ousado desafio antipelagiano:

Há um grande ensinamento nisso: o ponto de partida da vida cristã não é ser digno; com aqueles que se julgavam bons, o Senhor pôde fazer bem pouco. Quando nos consideramos melhores do que os outros, é o início do fim. O Senhor não faz prodígios com quem se crê justo, mas com quem sabe que é necessitado. Ele não é atraído pela nossa bravura, não é por isso que Ele nos ama. Ele nos ama assim como somos e procura pessoas que não se bastam a si mesmas, mas estão dispostas a lhe abrir o coração. Pedro e Paulo foram assim, transparentes diante de Deus.”

A fusão da moralidade com o sagrado é uma grande tentação para o cristão. Em outras religiões, isso pode ser diferente, mas, na nossa, a santidade consiste em confiar na graça de Deus em todas as circunstâncias e em todas as decisões.

Existe um ângulo eclesiológico para esse antipelagianismo também. Outro dia, eu me deparei com um artigo no Patheos sobre Hans Urs von Balthasar e por que ele permaneceu católico. Falando contra os puritanos da sua época, ele escreveu:

“Se eles [os puritanos emotivistas] se recusam, eu não consigo entender como eles podem afirmar que estão na Igreja e não do lado de fora, lutando contra ela. No entanto, entreguemo-los ao seu destino ou, melhor ainda, a uma Providência gentil que possa abrir os seus olhos para esta verdade: uma Igreja sem pecado e onisciente que vendesse o velho e empoeirado não seria Igreja alguma, mas somente uma seita montanista-donatista-pelagiana na qual não vale a pena permanecer e que não tem nada em comum com a Igreja de Jesus Cristo. Deixemos que eles tirem essa conclusão simples e procedam à argumentação positiva.”

“Eu permaneço na Igreja porque a velha catholica ainda se assemelha à Igreja que salta aos olhos das páginas das Epístolas de São Paulo e dos Atos. De fato, a semelhança é tão impressionante a ponto de ser ofensiva. Aos próprios coríntios a quem Paulo elogia ‘pela graça de Deus, que vos foi dada em Cristo Jesus, porque em tudo fostes enriquecidos nele’ (1Cor 1 ss), ele prossegue denunciando capítulo após capítulo por formarem grupelhos, pela sua arrogância e pela sua incontinência, por um comportamento sem amor na festa eucarística (a expressão vem de um boletim paroquial suíço), finalmente, por negarem a ressurreição ao tentarem racionalizá-la.”

Quod erat demonstrandum.

Finalmente, chegamos à missa pelos migrantes. Lá, o papa pregou sobre a opção preferencial de Jesus pelos excluídos e sobre a sua missão de libertação e salvação.

“Só Deus escancara o Céu a quem vive na terra. Só Deus salva. E essa entrega total e extrema é o que une o chefe da sinagoga e a mulher doente no Evangelho (cf. Mt 9, 18-26). São episódios de libertação. Ambos se aproximam de Jesus para obter d’Ele o que mais ninguém lhes pode dar: libertação da doença e da morte. De um lado, temos a filha de uma das autoridades da cidade; de outro, uma mulher afligida por uma doença que faz dela uma rejeitada, uma marginalizada, uma pessoa impura. Mas Jesus não faz distinções: a libertação é concedida generosamente em ambos os casos. A necessidade coloca a ambas – a mulher e a menina – entre os ‘últimos’ a serem amados e levantados.”

Depois, referindo-se à leitura das Escrituras Hebraicas e ao ato de confiança de Jacó em Deus, o papa levou sua teologia para o campo da ação, especificamente um tipo de ação na contemplação, ou contemplação na ação, eu não tenho certeza de qual, mas, de qualquer modo, é uma marca de fervor pastoral:

“É espontâneo retomar a imagem da escada de Jacó. Em Jesus Cristo, a conexão entre a terra e o Céu está assegurada e é acessível a todos. Mas subir os degraus dessa escada requer empenho, esforço e graça. Os mais fracos e vulneráveis devem ser ajudados. Por isso, eu gosto de pensar que poderíamos ser nós aqueles anjos que sobem e descem, pegando no colo os pequenos, os coxos, os doentes, os excluídos: os últimos, que, caso contrário, ficariam para trás e só veriam as misérias da terra, sem vislumbrar já desde agora algum resplendor do Céu.”

Ele terminou agradecendo àqueles migrantes que, tendo chegado apenas alguns meses antes, já estão ajudando os recém-chegados. Ele lhes agradeceu por esse “belíssimo sinal de humanidade, gratidão e solidariedade”.

Humanidade, gratidão e solidariedade. Estas, junto com o diálogo, a humildade e a misericórdia, são as pedras de toque da visão teológica desse papa. Ela é profundamente pastoral, mas dificilmente sugere qualquer tipo de lassidão. Pelo contrário. A pregação de Francisco, se recebida, é um estímulo à ação, uma ação que produz testemunhas do Evangelho. É assim que ele entende a evangelização, e ela é mais fiel aos Evangelhos e ao espírito dos tempos do que qualquer programa de mídia social envolvendo Jordan Peterson.

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