Autora desembaraça a emaranhada identidade de Maria Madalena

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11 Julho 2019

"O que você não aprenderá com o livro de Arnold é o que qualquer um desses reformadores pensava sobre Maria Madalena ou como eles poderiam ter se baseado na imagem dela para pressionar pelas suas próprias pautas reformistas."

O comentário é de Bill Tammeus, ancião presbiteriano e ex-colunista do jornal Kansas City Star, publicado por National Catholic Reporter, 10-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que sabemos sobre Maria Madalena a partir do Novo Testamento é muito pouco, mas isso não impediu que o Papa Gregório, o Grande, em 591, pregasse um sermão no qual confundiu três relatos de mulheres quase certamente diferentes em um retrato noético de Madalena.

Como explica Margaret Arnold, reitora associada da Grace Episcopal Church em Medford, Massachusetts, em seu novo livro intitulado “The Magdalene in the Reformation” [A Madalena na Reforma], “não contente em deixar uma figura tão importante com o breve esboço que ela recebe nos Evangelhos canônicos, Gregório escolheu o método mais ortodoxo possível para dar vida à história pessoal dela. Em vez de inventar um passado, ele simplesmente identificou-a com duas outras personagens do Novo Testamento”. Pense nisso como uma #fakenews do século VI.

Uma dessas outras personagens era a pecadora anônima (o texto nunca mais diz “prostituta”) de Lucas 7, que lava os pés de Jesus com suas lágrimas e derrama óleo sobre eles. Jesus, então, perdoa seus pecados (por isso, vemos muitos exemplos ao longo da história do uso da Madalena redimida como inspiração para resgatar prostitutas.)

A outra é Maria de Betânia, irmã de Lázaro e Marta. Essa Maria recebe elogios de Jesus por se sentar atentamente aos seus pés e ouvi-lo, enquanto Marta corre para se certificar de que o falafel não cozinhe demais.

”Madalena na Reforma”, em tradução livre, Harvard University Press, 2018, 312 páginas (Foto: Divulgação)

De lá até hoje, Maria Madalena tem sido usada e mal-usada para inúmeros fins teológicos, eclesiais e até políticos. Ela tem sido nada mais do que Arnold chama de “uma imagem convincente e maleável”, quer nos refiramos à Maria real ou à figura amalgamada de Gregório.

Arnold refaz a história labiríntica de Madalena nos tempos medievais e depois, na maior parte do livro, aborda as diversas maneiras pelas quais os católicos e os protestantes a usaram no tempo da Reforma Protestante do século XVI e do movimento reformista católico que se seguiu, para reforçar seus argumentos. É uma história fascinante, mesmo que a versão de Arnold não seja tão completa.

Maria Madalena”, afirma Arnold, “foi central para o desenvolvimento de teologias e instituições centrais de reforma católica e protestante.” E, para os leitores de fora da academia que não acompanham as discussões e os debates dos estudos bíblicos, é principalmente uma história inédita.

Maria acabou sendo moldada para vários propósitos relacionados à reforma. Primeiro, como foi ela quem anunciou aos seguidores de Jesus na manhã de Páscoa que Ele havia ressuscitado, ela se tornou um modelo para os pregadores – inclusive mulheres – em harmonia com a ideia protestante daquilo que a Segunda Confissão Helvética chama de “sacerdócio de todos os fiéis”. Para os católicos, é claro, e até mesmo para muitos protestantes, incluindo Martinho Lutero, a ideia de haver pregadoras mulheres baseadas em Madalena era um mal início.

Além disso, ela se tornou a santa penitente, com base na história de Lucas 7 sobre alguma outra mulher. E ela se tornou um modelo de meditação e introspecção com base na história de Maria de Betânia sentada aos pés de Jesus. Os católicos enfatizaram pelo menos partes desses dois últimos papéis, enquanto os protestantes, que se afastavam da ideia dos santos, menosprezaram algumas dessas mesmas partes.

Não é que não tenha havido alguma resistência contra a Madalena “três-em-um” do Papa Gregório. Tanto os católicos quanto os protestantes, especialmente João Calvino entre o último grupo, procuraram desembaraçar de várias maneiras a figura composta por Gregório, embora nunca com um sucesso absoluto.

Por falar em Calvino, pai daquela que agora é chamada de Tradição Reformada (pense-se nos presbiterianos), o foco de Arnold na Reforma é quase – embora não completamente – sinônimo de um foco na abordagem de Calvino a ela. A Reforma que Lutero começou, se dividiu de várias maneiras, e, em 1529, Lutero e outros, reconhecendo a necessidade de os reformadores falarem com com uma voz mais unificada, se reuniram em Marburg, na Alemanha, para resolver suas diferenças (Calvino, nascido na França, estava recém-entrando na vida adulta nessa época e não compareceu).

Eles quase chegaram a um consenso, exceto pela questão central de explicar o que ocorre na Eucaristia. Essa batalha principal foi travada até um empate entre Lutero e o reformador suíço Ulrich Zuínglio, que achava que o pão e o vinho eram apenas símbolos do corpo e sangue de Cristo. Um Lutero decepcionado e repugnado terminou a reunião declarando: “Eu preferiria beber sangue com o papa, do que um mero vinho com os suíços”.

Mas quem mais esteve no Colóquio de Marburg? A lista inclui Stephan Agricola, Johannes Brenz, Martin Bucer, Caspar Hedio, Justus Jonas, o importante colega de Luther, Philipp Melanchthon, Johannes Oecolampadius e Andreas Osiander.

O que você não aprenderá com o livro de Arnold é o que qualquer um desses reformadores pensava sobre Maria Madalena ou como eles poderiam ter se baseado na imagem dela para pressionar pelas suas próprias pautas reformistas. No relato de Arnold, Calvino praticamente suga todo o oxigênio da lista de possíveis reformadores e do seu pensamento, embora ela dê a necessária atenção para o modo como os quakers e os anabatistas pensam sobre Maria.

Mesmo assim, há muito para recomendar nesse livro.

É de particular interesse o persistente enfoque de Arnold em um dos títulos de Madalena, “apóstola dos apóstolos”, que reflete seu papel de protagonista na Páscoa. Os protestantes e os católicos usaram a ideia de maneiras diferentes para defender suas próprias concepções sobre a ordenação de mulheres ou mesmo para permitir que as mulheres ensinem ou preguem. Como observa Arnold, a Igreja Católica considerou a imagem apostólica problemática e “procurou enfatizar, ao contrário, as outras características do seu caráter”. Ao mesmo tempo, escreve ela, “vemos Lutero elaborando cuidadosamente uma identidade evangélica para Madalena”.

No fim, uma Maria Madalena maleável acaba sendo um instrumento útil para quase todos, especialmente para as mulheres que buscam seu próprio lugar na fé. Mas seria fascinante saber o quão perto qualquer um desses variados retratos de Maria chega da sua própria compreensão de si mesma.

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