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27 Junho 2019

Em 17 de junho de 2019, foi divulgado o Instrumentum laboris para a assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, a ser realizada em Roma de 6 a 27 de outubro de 2019. O título que o Papa Francisco deu a este Sínodo é "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral".

O comentário é do Monsenhor Ettore Malnati, Vigário episcopal para o laicato e a cultura da Diocese de Trieste, publicado por Vatican Insider, 25-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Esse documento, cuidadosamente preparado, começou de baixo, ou seja, depois de ouvir as urgências e as preocupações das populações desses países e o grande risco com o clima e a ecologia do planeta-terra, foi elaborado após um discernimento antropológico, eclesiológico e ecológico integral. Essa "escuta" será a plataforma de trabalho para os membros do Sínodo na Amazônia.

O Instrumentum é dividido em três partes precedidas por uma introdução que apresenta o que o documento quer alcançar de acordo com as atenções do Papa Francisco.

A primeira parte é a voz da Amazônia, dividida em quatro capítulos; a segunda trata da eclesiologia integral: o grito da terra e dos pobres, dividida em nove capítulos. A terceira parte apresenta as perspectivas de uma "Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças", dividida em oito capítulos para uma adequada e cuidadosa presença da Igreja por parte dos povos indígenas para uma Igreja em saída, em escuta e uma adequada e evangélica relação entre Igreja e poder.

A primeira parte traz o título: "A voz da Amazônia" e é introduzida por essa tomada de consciência da Igreja "de diferenciar-se claramente das novas colonizações, ouvindo os povos amazônicos para exercer com transparência seu papel profético" (n.7).
Esta primeira parte possui quatro capítulos que apresentam a vida dos povos do território amazônico, a vida da Igreja e a vida do Planeta (n.8).

A partir das muitas consultas realizadas em muitas regiões amazônicas, as Comunidades consideram que a vida em suas regiões é ameaçada sobretudo pela:

1. “criminalização e assassinato de líderes e defensores do território;

2. apropriação e privatização de bens da natureza, como a própria água;

3. concessões madeireiras legais e pela entrada de madeireiras ilegais;

4. caça e pesca predatórias, principalmente nos rios;

5. megaprojetos: hidrelétricas, concessões florestais, desmatamento para produzir monoculturas, estradas e ferrovias, projetos mineiros e petroleiros;

6. contaminação ocasionada por todas as indústrias extrativistas que causam problemas e enfermidades, principalmente para as crianças e os jovens; o narcotráfico;

7. os consequentes problemas sociais associados a tais ameaças, como o alcoolismo, a violência contra a mulher, o trabalho sexual, o tráfico de pessoas, a perda de sua cultura originária e de sua identidade (idioma, práticas espirituais e costumes) e todas as condições de pobreza às quais estão condenados os povos da Amazônia" (n.15).

Com razão, o Instrumentum laboris enfatiza que "atualmente, a mudança climática e o aumento da intervenção humana (desmatamento, incêndios e alteração no uso do solo) estão levando a Amazônia rumo a um ponto de não-retorno” (n.16).

Esse quadro por si só já desafia dramaticamente toda a família humana por causa daquela solidariedade antropológica que não pode ser desatendida. A pessoa consciente não pode ignorar essa questão e não alertar a comunidade internacional, os vários povos do Planeta Terra e indivíduos contra esta ameaça à vida biológica, àquela espiritual de parte dos Povos do Brasil, da Bolívia, do Peru, do Equador, da Colômbia, da Venezuela, da Guiana, do Suriname e da Guiana Francesa, que constituem o território da Amazônia.

Eis então que o Papa Francisco acolhe o grito das populações entrevistadas e pede que se reflita no fato de que a ameaça "da vida" das populações e dos territórios da Amazônia "deriva de interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade atual, de maneira especial de empresas extrativistas, muitas vezes em conivência, ou com a permissividade dos governos locais, nacionais e das autoridades tradicionais (dos próprios indígenas).” (n.14).

Essa atitude já estigmatizada pelo Papa Francisco na encíclica Laudato si' (n 49, 91) demonstra a indiferença culpada aos gritos dos últimos e contrasta com o estilo de solidariedade não só evangélica (Lc 10,33), mas da própria ética natural.
Com base nesta tomada de consciência, portanto, é deveoso pedir para mudar o rumo à política, à economia, aos indivíduos, à comunidade internacional e à própria Igreja, através de novos "caminhos de conversão, de comunhão e diálogo, caminhos do Espírito, de abundância e do bem viver" (n.18).

Esses novos caminhos devem se basear em relações interculturais, onde diversidade não significa ameaça, não justifica hierarquias de um poder sobre os outros, mas sim diálogo a partir de visões culturais diferentes" (n.18).

É, portanto, uma questão de incentivar aqueles critérios culturais de igualdade já presentes nos documentos fundamentais dos direitos humanos a partir da Magna Carta de João Sem Terra, até a Declaração Universal da ONU em 1948. Deve ser dito que os Pastores da Igreja, após a descoberta da América (1492), além de se ocupar com a solicitação de Alexandre VI, que pediu aos reis da Espanha e Portugal para permitir o anúncio do Evangelho e a implantatio Ecclesiae entre aquelas populações, graças à solícita atenção de Bartolomeu de Las Casas, encontramos o papa Paulo III emanando o a bula Sublimis Deus (1537), o primeiro documento contra os abusos contra os índios, declarando-os homens livres que devem ser respeitados como pessoas, mesmo na proposta evangelizadora, que nunca pode ser uma imposição. Além disso, o papa Paulo III neste documento pede aos espanhóis que respeitem a cultura dos índios. Bartolomeu de Las Casas em 1540 condena os erros dos conquistadores e é o inspirador das "leis novas" (1542) com as quais o imperador Carlos V suprime a "Encomienda". Em 1545, Las Casas é eleito Bispo de Chiapa na Guatemala e, nessa qualidade, continuará sua missão contra os abusos pela proteção dos Índios. Naqueles anos estiveram empenhados na evangelização e na proteção e promoção dos povos autóctones Mons. Zumàrraga, Bispo do México (1528-1548) e Mons. Toribio de Mogrovejo, bispo de Lima (1581-1606).

Recentemente, o Magistério da Igreja Católica manifestou-se sobre a proteção contra a exploração das populações dos Campesinos, quando São Paulo VI, em sua visita pastoral à Colômbia em agosto de 1968, tomou a defesa desses trabalhadores da terra, muitas vezes explorados e defraudados de sua formação cultural.

Suas palavras são claras: "Continuaremos a denunciar as desigualdades entre ricos e pobres; os abusos autoritários e administrativos contra vocês e sua coletividade. Continuaremos a encorajar os propósitos e os programas das Autoridades responsáveis e dos Entes internacionais, bem como das nações ricas, em favor das populações de via de desenvolvimento" [1].

O Sínodo "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral" é uma adequada releitura do compromisso com a evangelização e promoção humana para o território e a vida das populações da “zona” amazônica, mas também "uma voz livre" para denunciar e coibir a exploração ainda presente em detrimento desse território e da vida desses povos e de todo o Planeta Terra.

É importante ressaltar que "na Amazônia a vida está integrada e unida ao território, não existe separação nem divisão entre as partes. Esta unidade compreende toda a existência: o trabalho, o descanso, os relacionamentos humanos, os ritos e as celebrações" (n.24).

É necessário, portanto, que não somente a Igreja, mas toda a comunidade internacional, se esforce para acolher os desafios desse território e de seus povos em um diálogo intercultural (cf. n. 30-40), que é de enriquecimento mútuo. O documento do Instrumentum laboris fecha sua primeira parte, ressaltando que é o momento de ouvir a voz da Amazônia e responder a ela com escolhas "proféticas e samaritanas" (nº 43).


Nota:

[1] E. MALNATI, I gesti profetici di Paolo VI, ed Ancora, Milão 2013, p 90-91

 

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