O suicídio tem cara e cor

Revista ihu on-line

A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

Edição: 537

Leia mais

Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

Edição: 536

Leia mais

No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

Edição: 535

Leia mais

Mais Lidos

  • Vaticano abre as portas para a ordenação de homens casados em regiões isoladas

    LER MAIS
  • Renda do trabalhador mais pobre segue em queda e ricos já ganham mais que antes da crise

    LER MAIS
  • A última entrevista de Francisco com os jesuítas é reveladora – também de suas contradições

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

12 Junho 2019

De cada dez jovens que se matam, seis são negros. Crise econômica e incertas sobre o futuro agravaram números. Para especialistas, incipientes políticas públicas de saúde mental e racismo estrutural assassinam a população negra.

A entrevista é de André Cabette Fábio, publicada por Nexo Jornal e reproduzida por Outras Palavras, 10-06-2019.

No dia 21 de maio de 2019, o Ministério da Saúde realizou em São Paulo o I Seminário Nacional de Saúde da População Negra na Atenção Primária.

Na ocasião, foram relançados alguns materiais sobre a saúde da população negra elaborados pelo governo. Entre eles, a cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, que já havia sido divulgada no início de 2019.

Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2012 e 2016 houve um aumento de 12% no risco de suicídio para jovens negros com até 29 anos, mas o índice dos brancos se manteve estável. Entre jovens negros com até 29 anos, o índice de suicídio é 45% maior do que o de brancos.

De acordo com o documento, “os modos de adoecer e morrer da população negra no Brasil refletem contextos de vulnerabilidade que são expressos em iniquidades em saúde

Como o estudo foi feito

O estudo levantou os casos de suicídio no Brasil a partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde.

Essas informações foram cruzadas com dados do IBGE sobre o perfil racial do Brasil e a população por faixa etária, o que permite chegar à taxa de suicídio para cada população.

A classificação por faixa etária seguiu a definição da Organização Mundial de Saúde. Foram considerados adolescentes aqueles com entre 10 e 19 anos. E jovens, aqueles com entre 20 e 29 anos. Foram analisados os dados relativos a 2012 e 2016.

De cada dez suicídios entre adolescentes e jovens, aproximadamente seis são de negros. E quatro, de brancos. A cartilha ressalta que as três principais características das pessoas que tentam o suicídio, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), são:

Ambivalência

Pessoas que se suicidam vivem um conflito entre o desejo de viver e o de morrer. Anseiam deixar de sofrer e encontram na morte uma única alternativa, ou a forma mais rápida para deixar a situação de angústia.

Impulsividade

A tentativa de suicídio é um ato impulsivo, desencadeado por pensamentos e sentimentos negativos que podem ser pontuais.

Rigidez

Quem tenta se suicidar possui pensamentos fixos e constantes sobre suicídio, visto como a única alternativa para enfrentar um problema.

O Nexo entrevistou duas pessoas sobre os fatores que fazem com que jovens negros tenham uma predisposição maior a se suicidar, e como lidar com esse problema.

Alanda Gomes é estudante de medicina da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e integrante do NegreX, um coletivo nacional que reúne estudantes negros de medicina.

Rita Borret é presidente da Associação de Medicina da Família e Comunidade do Rio de Janeiro e coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra. Ela foi a coordenadora do estudo do Ministério da Saúde.

Eis a entrevista.

O que pode ser feito para lidar com o problema do suicídio entre jovens negros?

Rita Borret - Para instituições de saúde, é fundamental começar a abordar questões relacionadas a raça e etnia nas consultas. Entender que equidade é cuidar diferentemente de pessoas que sofrem de maneira diferente.

A questão da raça é muito silenciada. O Ministério da Saúde lançou recentemente um manual orientando os profissionais sobre como abordar raça e cor na consulta, pedindo que a própria pessoa se identifique. Começamos agora a levar em conta as políticas de saúde relacionadas ao racismo.

Até cinco anos atrás, a informação sobre raça nas fichas das inscrições de mortalidade, na maioria das partes do país, era ignorada. Como fazer uma avaliação de impacto do racismo dessa forma?

Do ponto de vista da sociedade, é importante que comecemos a fazer uma autorreflexão. Todo mundo sabe que existe o racismo, e nem todo mundo percebe o racismo em si. Ele tem que ser percebido não só para não ser reproduzido como para ser combatido. Isso não é função da população preta, não foi ela que criou o racismo.

Para um jovem que está com sofrimento mental, o mais importante é perceber que isso não é OK e pedir ajuda. Não significa que ele é mais fraco. Um dos principais motivos do silenciamento é que as pessoas que sofrem não conseguem falar, e é importante falar sobre isso.

Quando a pessoa não se identifica com ninguém, sofre sozinha. Isso só vai piorando até um ponto em que ela não aguenta.

Tem uma série de questões de autoestima que podem ser trabalhadas. O jovem pode buscar referências da cultura negra, da leitura de jovens negros, porque isso ajuda a achar um lugar de pertencimento maior.

Alanda Gomes - Em termos de políticas públicas, é necessário aumentar o acesso desses usuários ao profissional que lida com a saúde mental.

Precisamos de mais psicólogos e psiquiatras especializados nas Unidades Básicas de Saúde, que muitas vezes não têm um profissional em uma equipe que deveria ser multidisciplinar, e no Cras (Centro de Referência de Assistência Social). A quantidade que há hoje não dá conta da demanda.

Além disso, a saúde mental é muito depreciada. Todo mundo respeita quem é hipertenso, mas todo mundo desqualifica muito quem tem ansiedade ou depressão.

Seria bom ter campanhas de autoconscientização, como há campanhas de combate ao HIV, contra a gripe, para a pessoa entender que ela tem um problema e que ele é um problema sério. E também campanhas de conscientização da sociedade como um todo, sobre como deve ser a abordagem, para onde levar pacientes, quais são os principais sintomas.

No nível pessoal, é preciso procurar ajuda, reafirmar as redes de apoio para saber pedir ajuda. Temos mania de diminuir aquilo que sentimos, e é muito importante pedir socorro. Muitas vezes, o médico de família sabe manejar essa demanda de saúde mental, que é uma questão trabalhada nessa especialidade.

Por que há um índice maior de suicídio entre jovens negros?

Rita Borret - Tem uma questão muito importante para essa faixa etária da juventude. As pessoas se descobrem como identidade, se percebem como indivíduos.

Em uma sociedade que é racista, que entende que o negro necessariamente é inferior, subjugado, isso traz um grau de sofrimento muito maior e leva a adoecimento e tentativas de suicídio. Esse é simplesmente o mais alto grau de sofrimento que uma pessoa pode experienciar.

A grande causa é o racismo estrutural, que define praticamente toda a nossa sociedade e que determina os lugares sociais a partir da raça com que as pessoas nascem.

É uma questão estrutural porque constrói uma sociedade desigual. Os negros são considerados incapazes, selvagens. Vivemos em um país em que a maior parte da sociedade é negra, mas somos uma minoria quanto a oportunidades.

A segurança pública entende o jovem negro na rua como suspeito, ele é abordado constantemente pela polícia. Na saúde, o racismo institucional entende que as mulheres negras são mais fortes, não precisam de anestesia, ser tocadas ou se consultarem frequentemente.

O jovem negro vai aprendendo, pela forma como a sociedade lida com ele, que ele faz parte desse grupo de pessoas que é desvalorizado. Ele acaba internalizando o racismo, percebendo-se como inferior e reproduzindo esse ódio a si mesmo.

A pesquisa mostra que o suicídio é mais recorrente entre homens negros do que entre mulheres negras. Alguns estudos discutem masculinidade e racismo, e apontam que o homem negro não tem o mesmo privilégio que um homem branco costuma ter. Pode ser que seja difícil lidar com esse fato.

Alanda Gomes - Isso sempre foi um fato, mas agora tem mais pesquisas sobre isso, o que é algo bom do momento em que vivemos: buscamos saber o que acontece entre as populações.

Há um século, a maioria da população manicomial era de mulheres negras. Na minha faculdade, faço parte de uma iniciação científica sobre qualidade de vida entre estudantes. Vimos que uma estudante mulher e negra tem uma qualidade de vida pior que a de um estudante branco e hétero.

Nossa sociedade foi estruturada em um sistema escravocrata. Esse sistema mudou de roupagem, mas não deixou de existir. Há um racismo estrutural e estruturante.

A maioria da população nos empregos que remuneram menos é a população negra. Essa população é bombardeada esteticamente e intelectualmente.

Você passa a infância sem se enxergar em um filme da Disney, em uma novela. É uma demanda que começou a ser atendida muito recentemente.

A universidade não está preparada para receber minorias, o professor não sabe lidar com esse aluno. A maioria dos corpos da aula de anatomia são corpos negros, nossos irmãos, porque são não reclamados. Não tem nenhuma abordagem sobre isso, e quando fazemos ela é mal recebida.

Isso se torna algo estruturante, que faz parte da gente. A mulher negra sofre rejeição a vida inteira e passa pela “solidão da mulher negra”, porque não correspondemos a padrões. Isso nos afeta psicológica e esteticamente, e pode levar à depressão.

Há uma escala de repressão. A mulher negra na base da pirâmide, acima dela, o homem negro, e, depois, a mulher branca.

Por que há um aumento no número de suicídios nessa população?

Rita Borret - Nossa sociedade de maneira geral vem sofrendo uma grande crise econômica, que faz com que as pessoas, especialmente das classes mais marginalizadas, fiquem com uma condição de vida mais difícil.

Não dá para desatrelar a situação econômica da situação política que vivemos. Há sempre a expectativa de que algo vai mudar, vai piorar. Vivemos um momento em que as garantias não estão dadas, não se consegue projetar nada no longo prazo.

Surgem questões como “será que vou conseguir manter o trabalho?”, “vou conseguir terminar de estudar?”. Essa situação constante potencializa o sofrimento.

Com o rumo político, um político de extrema direita no poder que diz com tranquilidade que a democracia racial existe no Brasil, a questão do racismo está se acentuando. Mais gente está demonstrando o racismo, o que é exacerbado pelo avanço do movimento negro trazendo algumas pautas. As pessoas estão mais inseguras.

Tem outro fator que é a facilidade de veiculação de imagens nas redes sociais. Aquilo que é considerado bonito, o padrão de felicidade, circula de forma muito fácil. Perceber-se fora daquele padrão de imagem e não conseguir viver aquilo faz com que o sofrimento seja maior.

Alanda Gomes - Essa estrutura que vivemos provoca um adoecimento muito grande, e muitas vezes as pessoas não têm uma reflexão sobre isso. Eu fui vincular as coisas, esse recorte, quando entrei na faculdade.

A população negra tem ascendido com o tempo, as pessoas têm um salário melhor e acessam outros lugares, tem muitos estudantes universitários hoje.

Essa ascensão cria um choque cultural, porque ninguém quer dividir poder. Tudo fica mais à flor da pele, essa convivência faz com que o racismo institucional, que sempre existiu, fique muito vivo.

São coisas muito simples: eu, como estudante, às vezes respondo uma coisa para o professor e ele não valoriza. Quando uma outra pessoa fala, com pele branca, ele valoriza. Em duas vezes em que fui para congressos, fui revistada no aeroporto. As outras meninas que estavam comigo, não.

E vivemos um contexto, inclusive político, que torna esse adoecimento maior. No Rio de Janeiro, há uma política de guerra sendo implementada.

Atendi um paciente com depressão que disse que quando foi sair de casa apontaram um fuzil na cara dele e o revistaram. Imagina passar por isso constantemente e não ter como mudar.

Não acho que Bolsonaro é culpado disso, seria muito imediatista dizer isso. Mas lógico que tem um impacto. A pressão social que o negro vive é muito maior se comparada com a de outras populações.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O suicídio tem cara e cor - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV