O "Padre Pio" jesuíta que levou os católicos de volta à política

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23 Maio 2019

Felice Maria Cappello, jesuíta, canonista de fama internacional, profundo leitor da sociedade de seu tempo. Mas, acima de tudo, famoso confessor, a quem Padre Pio também enviava seus penitentes. Uma chave de leitura para compreender as próximas eleições europeias.

A reportagem é de Simone M. Varisco, publicada por Caffè Storia, 22-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Durante o fim-de-semana, os cidadãos dos 28 Estados-Membros da UE serão chamados a manifestar-se sobre a nova composição do Parlamento Europeu. Por seu lado, os bispos da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (COMECE) há tempo lançaram um apelo à participação na votação, orientando para o apoio da "casa comum europeia", embora "não seja perfeita", trazendo a pessoa de volta ao centro da política. Diferentes temas são indicados como primários: família, pessoas migrantes, desenvolvimento, direitos humanos. As características do "bom candidato" são, para os bispos, "integridade, competência, liderança e compromisso pelo bem comum". Mas também os eleitores são chamados a um senso de responsabilidade. "As eleições são apenas o primeiro passo em um compromisso político, e chamam os cidadãos para monitorar e acompanhar democraticamente o processo político", continuam os bispos.

Um envolvimento político saudável que talvez sejamos levados a considerar como certo, mas que ainda está bem longe de ser alcançado, inclusive - mas não apenas - por cristãos e como cristãos. Responsabilidade que nada mais seria do que a consequência coerente do plurissecular compromisso da Igreja na construção da identidade europeia, embora muitas vezes rejeitado pelas instituições modernas. Pio XI e Paulo VI lembram isso quase em uníssono: o compromisso político dos cristãos é "a mais alta forma de caridade". Uma lição importante no centenário do Apelo aos livres e fortes e 60 anos após a morte de Dom Luigi Sturzo. Mas também um ensinamento que não é nada banal quando se olha para os delicados eventos históricos e políticos que no século passado contrapuseram a Igreja e o Estado na Itália.

É apenas com as eleições políticas de 1904 que, pela primeira vez em quase 40 anos, um pontífice - Pio X - permite exceções às proibições de participação dos católicos na vida política nacional impostas pelo non expedit e pelo Silabo de Pio IX. Um processo não desprovido de críticas, tanto do lado liberal como conservador, cuja existência se deve também a uma figura ainda pouco conhecida, ainda que de grande fascínio: a do padre Felice Maria Cappello.

Originário de Caviola, na região de Belluno, primo distante de Albino Luciani, Felice Maria Cappello traz à sua história pessoal os vestígios de um momento histórico, social e eclesial particularmente complexo. De inteligência incomum (termina seus estudos no seminário aos 22 anos), formado em teologia, filosofia e direito, no seminário de Belluno dom Cappello é professor de Direito, exegese bíblica e hebraico. Colaborador da Civiltà Cattolica, é apreciado - e protegido - pelo padre Enrico Rosa, diretor de 1915 a 1931. É nas páginas da revista dos Jesuítas que Dom Cappello publica, entre outros, artigos sobre temas políticos. Suas posições lhe valem críticas de alguns ambientes da hierarquia eclesiástica, acusações de modernismo (paradoxais para quem, como ele, havia se envolvido em amargas polêmicas com os colegas modernistas de Belluno), mas também constituem um dos elementos úteis para "preparar o terreno para as sábias intenções do Santo Padre [Pio X, NdR], para uma revogação parcial ou geral do non expedit".

Afastado de Belluno e perturbado também em nível pessoal, Dom Cappello encontra conforto em Lourdes, onde em 1913 amadurece a decisão de entrar na Companhia de Jesus. Para o padre Felice Maria Cappello, agora jesuíta, são os anos de retorno ao ensino, primeiro no Pontifício Colégio Leoniano de Anagni e depois na Pontifícia Universidade Gregoriana, e da fama nacional e internacional como canonista e jurista, do qual estudantes, monsenhores da Cúria e dos dicastérios vaticanos apreciam unanimemente a habilidade de "conseguir imediatamente fazer uma síntese e ser capaz de responder aos mais diversos casos [...] de maneira a gerar segurança e paz no interpelante" (Francesco Occhetta, Padre Felice Maria Cappello. Il gesuita della misericordia, Gorle, Editrice Velar, 2016, p. 24).

No nível popular - e não só -, no entanto, sua extraordinária notoriedade deriva dos quarenta anos passados como confessor na igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma. Para todos é "o confessor de Roma", um apelido também retomado pelo título da biografia realizada por seu coirmão Domenico Mondrone (La Civiltà Cattolica, 1963). Padre Cappello é extraordinário por erudição e clareza intelectual, mas também cultiva a vida sacerdotal com humildade: batizar, distribuir a Eucaristia, visitar os doentes no hospital e em casa, sempre usando o transporte público, rezar incessantemente, especialmente o Rosário, e absolver dos pecados. Ainda mais misericordioso para com aqueles que cometem mais erros.

E é no confessionário que padres, religiosos e fiéis simples vêm ao seu encontro. Mas não só: o aguardam dentro e fora da Gregoriana, o procuram nos lugares e horários mais inapropriados. Até mesmo bispos e cardeais, fala-se. Tanto é assim que por algum tempo tentou-se colocar senhas para controlar a fila no confessionário: isso gerou discussões e negociações estranhas por causa dos agenciadores. Em 1950, o próprio padre Pio de Pietrelcina, já cercado por extraordinária fama de confessor e taumaturgo, envia seus penitentes romanos a padre Cappello. Em torno do qual, entretanto, se multiplicam fatos "estranhos”: o dom de ler imediata e profundamente a alma dos penitentes e aparentes episódios de previsão contados e relatados não apenas pela simplicidade popular.

Padre Felice Maria Cappello morre em 25 de março de 1962, em uma Roma que agora já havia se tornado "sua". No funeral, 20.000 pessoas, que o reclamam novamente para Santo Inácio. E a Santo Inácio Padre Cappello acaba voltando, enterrado ao lado de seu confessionário, dentro do qual estão expostos sua estola e os ex voto das graças recebidas. Um lugar perto do qual, por quatro décadas, se reuniram misérias, esperanças, pecados e insensatezes de crentes e não-crentes, romanos e não. As mesmas que caracterizam cada vez mais a atual sociedade europeia.

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