Abertura sem precedentes da Igreja católica da França para o reconhecimento dos filhos de padres

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21 Maio 2019

Alguns filhos de sacerdotes foram recebidos pela primeira vez por um responsável eclesiástico francês e em junho falarão perante os bispos. Após séculos de recusa, a Igreja católica da França dá um passo tímido, mas sem precedentes, para o reconhecimento dos filhos dos sacerdotes. Três deles, membros da associação francesa Les enfants du silence (os filhos do silêncio), que reúne cerca de cinquenta filhos de eclesiásticos, foram recebidos pela primeira vez - a pedido deles - por um responsável eclesiástico, de acordo com informações do Le Monde.

A reportagem é de Faustine Vincent, publicada por Le Monde, 19-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O encontro, que permaneceu confidencial até o momento, aconteceu no dia 4 de fevereiro, em Paris, na sede da Conferência Episcopal Francesa (CEF), que reúne os bispos e cardeais do país. Durante uma hora e meia, Olivier Ribadeau-Dumas, secretário geral da CEF, ouviu seus testemunhos sobre esse tema tabu. Uma discussão "cordial e construtiva", explica o interessado, que escutou os "sofrimentos" desses homens e mulheres considerados como fruto do pecado, rejeitados e criados na vergonha e em segredo. Por essa conversa, Anne-Marie Jarzac, filha de um padre e de uma freira e presidente de Les enfants du silence, esperou muito tempo. "Foi um momento muito comovente, relata essa aposentada de 67 anos. Pela primeira vez, sentimos que a Igreja abriu suas portas para nós, que não havia mais uma negação, mas uma escuta e uma tomada de consciência do que vivemos.” Foi abordada a delicada questão do destino reservado aos sacerdotes que têm filho no curso de seu presbiterado, bem como o reconhecimento desses filhos nas comunidades paroquiais.

Sinal de uma evolução histórica da Igreja da França sobre o assunto, Olivier Ribadeau-Dumas propôs que alguns filhos de padres se encontrem com os bispos encarregados da formação por ocasião das próximas reuniões da comissão episcopal para os\ministérios ordenados e os laicos em missão eclesial (Cemoleme), para que possam testemunhar. O primeiro encontro será realizado no dia 13 de junho. "É um grande passo, comemora a Sra. Jarzac. Penso em todos aqueles filhos de sacerdotes que tentam desesperadamente saber quem é seu pai e que se chocam com o silêncio da Igreja. Eu estava começando a perder a esperança".

Esse gesto de abertura acontece depois que o Vaticano reconheceu, em fevereiro, a existência de um documento secreto, nunca publicado, que estabelece as diretrizes a serem aplicadas, concernentes àqueles que são chamados de "filhos dos ordenados". "É um documento confidencial, técnico e de uso interno da congregação para o clero [o departamento do Vaticano que supervisiona os cerca de 400.000 sacerdotes no mundo], especifica ao Le Monde Antonio Ammirati, porta-voz do Conselho das Conferências Episcopais da Europa. O que exatamente contém? Contatada, a Congregação para o Clero remete à entrevista dada em fevereiro por seu responsável, o cardeal Beniamino Stella, ao Vatican News, o órgão de comunicações da Santa Sé. Naquela entrevista, o cardeal explica que o critério fundamental é "o bem da criança" e que a regra consiste em permitir que o padre abandone o estado clerical "o mais rápido possível" para que "possa se tornar disponível à mãe para criar o filho". No entanto, menciona duas exceções: quando, na família do recém-nascido, "outro progenitor assume o papel do pai" e "quando se trata de padres de idade avançada, com filhos adultos, de 20 ou 30 anos de idade".

Vincent Doyle, um irlandês que coordena uma rede mundial de filhos de padres, a Coping International, que conta com mais de 500 membros, é um dos poucos a ter lido o famoso documento, redigido em 2009. Ele teve oportunidade de fazê-lo em outubro de 2017, em uma reunião com Mons. Ivan Jurkovic, observador permanente da Santa Sé para as Nações Unidas (ONU) em Genebra. Esse psicoterapeuta e teólogo de 35 anos, também filho de um padre, é formal: "O documento não sugere, não implica nem indica em nenhuma parte que o padre deve deixar o sacerdócio depois de ter um filho". Afirmar o contrário, como o Vaticano faz, é uma "mentira", garante.

Esse aspecto é fundamental, continua ele, de fato "os padres que têm um filho se deparam com duas possibilidades extremas: manter o segredo ou ficar desempregados". Vincent Doyle pediu esclarecimentos e convidou a Santa Sé a publicar as diretrizes o mais breve possível. Em vão. "Se não as divulgam, é porque estão com medo", é a sua análise.

A Conferência dos Bispos Franceses assegura que não leu o documento nem que dispõe de uma cópia. "De Roma recebi indicações claras sobre o comportamento a assumir nessas situações, que são muito raras, então não preciso daquele documento", refere o padre Ribadeau-Dumas. No entanto, as conferências episcopais de todos os países podem pedir para recebê-lo: a congregação para o clero, em Roma, terá "o maior prazer em enviar uma cópia", afirma seu subsecretário, Mons. Andrea Ripa, em um e-mail de 24 de abril enviado a Vincent Doyle e que o Le Monde pôde consultar. Mons. Ribadeau-Dumas afirma que não foi informado da primeira exceção, que, no entanto, havia sido mencionada pelo cardeal Stella, sobre os padres que acabaram de ter um filho. Se o caso se apresentasse, o senhor o aplicaria? O prelado assegura que a posição do episcopado francês é a mesma que a de Roma, mesmo que se negue a responder a esse respeito, e repete que "só foi mencionada a exceção relativa aos filhos que cresceram o suficiente para serem autônomos".

Ele acrescenta que soube da existência do documento apenas algumas horas antes graças ao Le Monde, que lhe enviou um link para a entrevista do cardeal Stella que explicava as diretrizes. "É bom que exista um documento interno, mas isso não muda a posição, que eu conheço, dos responsáveis pela congregação", acrescenta.

Diante de uma crise sem precedentes com a multiplicação de escândalos de pedofilia e de estupros contra religiosas, a Igreja Católica finalmente enfrentou esses escândalos. Mas se mostra relutante em fazer o mesmo com o escândalo dos filhos dos padres, cujo diálogo recém iniciado com as autoridades religiosas continua frágil. "Somos vistos como uma ameaça", lamenta Anne-Marie Jarzac. Reconhecer a sua existência poderia, de fato, recolocar em discussão o celibato dos padres. Essa regra, que a Igreja católica romana é a única religião do mundo a aplicar, foi estabelecida na Idade Média para evitar a dispersão dos bens do clero com a herança. Atento para não correr esse risco, o Cardeal Stella eliminou essa possibilidade na entrevista ao Vatican News: “O fato de alguns padres terem vivido relações e trazido ao mundo filhos não recoloca em discussão o celibato presbiteral que representa um dom precioso para a Igreja latina e cujo valor, ainda hoje atual, foi recordado pelos últimos papas, de Paulo VI até Francisco".

A instituição também teme que os filhos dos sacerdotes peçam um ressarcimento financeiro. Vincent Doyle expressa uma última hipótese para explicar tais reticências: "Um pedófilo ou um estuprador podem ser presos, mas não se pode impedir a um homem de ter filhos". Até agora, a Igreja fez de tudo para esconder existência desses milhares de homens e mulheres no mundo, cuja simples presença denuncia as violações da regra do celibato. Usou principalmente três métodos para isso: a transferência de padres para afastá-los do filho, os acordos de confidencialidade (sigilo) impostos às mães e os abandonos forçados.

O próprio Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança chamou a atenção para o destino dos filhos dos padres, pela primeira vez em um relatório de 2014. Dizia-se "preocupado" com a situação dessas pessoas que "em muitos casos não conhecem a identidade do pai ", denunciava os acordos de confidencialidade e pedia vigorosamente ao Vaticano para acabar com isso. A Santa Sé até agora nunca teve nem uma palavra nem um gesto em relação a esses filhos ocultos da Igreja. "Vivemos tamanha recusa que precisamos desse reconhecimento", ressalta Anne-Marie Jarzac. Ela espera que a carta que escreveu para ser entregue ao Papa Francisco, e que Monsenhor Ribadeau-Dumas prometeu enviar, consiga convencê-lo a abandonar o silêncio.

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