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21 Maio 2019

"Quando se noticia que um homem atirou em outro, é importante saber se por acaso esse outro também segurava uma arma ou estava prestes a atirar. Um exemplo de tal deformação por subtração é constituído por tantos infames ataques midiáticos ao Papa Francisco I, atacado como subversor da Tradição cristã católica, sabotador da estrutura bimilenar da Igreja, de suas hierarquias e suas verdades. Qual é a substância desses anátemas?", questiona Claudio Magris, escritor italiano, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 20-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Fake News, há algum tempo uma das palavras mais presentes na nossa realidade e suas crônicas; quando chega uma notícia, a primeira coisa que você se pergunta é se não é falsa, uma invencionice ou um embuste. As técnicas de falsificação são muitas. A mentira total, o anúncio de um evento que nunca aconteceu, de um desastre ou de um atentado que nunca ocorreram. A atribuição de um crime ou um ato criminoso a pessoas ou grupos que não são responsáveis por isso ou cuja responsabilidade não foi verificada com rigor, como nos casos extremos de massacres. Mentiras grosseiras e exageradas, mas eficazes com seu ruído imponente e pesado de muitos decibéis. Há outra técnica eficaz: censurar a comunicação de um fato, dar a versão amputada de alguns elementos fundamentais e, portanto, alterada; citar apenas aqueles aspectos que são úteis para a tese que se deseja defender ou para o resultado que se deseja obter com tal informação. Essa operação cirúrgica distorce radicalmente o significado do que é dito ou escrito. Quando se noticia que um homem atirou em outro, é importante saber se por acaso esse outro também segurava uma arma ou estava prestes a atirar. Um exemplo de tal deformação por subtração é constituído por tantos infames ataques midiáticos ao Papa Francisco I, atacado como subversor da Tradição cristã católica, sabotador da estrutura bimilenar da Igreja, de suas hierarquias e suas verdades. Qual é a substância desses anátemas? Quando o Papa Francisco fala dos sofrimentos dos homens, de todos os seres humanos expostos a sofrimentos e injustiças inomináveis, nada mais faz senão anunciar, como é seu dever, a mensagem do Evangelho, as palavras de Jesus, que disse que rejeitará e condenará aquele que negou ajuda aos sofredores, aos necessitados, aos faminto, aos sedento e aos despidos, porque ao fazê-lo negou ajuda a ele também. A própria ideia de Europa do Papa Francisco, repetida várias vezes por ele, é a ideia de uma Europa solidária, laica e cristã, na medida em que foi o cristianismo que desmascarou o absolutismo totalitário do poder e afirmou os direitos inalienáveis de cada indivíduo em relação a todo poder. Um intenso ensaio de Dario Antiseri, um estudioso e filósofo liberal, ressaltou isso recentemente com grande ênfase. Mas quando o papa Francisco levantou a voz em defesa dos migrantes, por exemplo, os últimos dos últimos, vítimas de todos e frequentemente usados por todos em ignóbeis propagandas políticas, foi vilipendiado e atacado por demagogos toscos e inumanos. Chegou a ser definido como um agente a serviço de um sinistro projeto de uma nova Ordem subserviente à grande finança especulativa e globalizada, criadora de uma humanidade homogênea e indistinta. O Papa Francisco torna-se, assim, um personagem dos romances de James Bond, um daqueles ocultos ou camuflados Senhores do Mal, à frente de misteriosas e criminosas associações mais ou menos secretas que planejam a destruição apocalíptica e planetária. Como tais mirabolantes acusações revelam, a barbárie é muitas vezes também kitsch. Além disso, o chiado contra os Pontífices - bem diferente da crítica respeitosa, mas também obrigatoriamente dura em relação a um ou outro pontificado - é um tiro ao alvo favorito no decrépito Parque de Diversões em que vivemos. Quatro bolas por uma moeda, convida o vendedor. Aconteceu também ao predecessor do papa Francisco, a Bento XVI, objeto de muitas trivialidades indecentes, às quais sua personalidade de grande estudioso intelectual talvez tenha tido dificuldade para responder com a devida rudeza, como o pastor que sacode a vara para afastar os lobos. Eu nunca entendi, por exemplo, por que aqueles que vaiavam Bento XVI por sua oposição ao casamento homoafetivo não tenham sentido o dever de atirar pelo menos tomates, mas possivelmente também objetos mais contundentes, contra as janelas das embaixadas daqueles países onde - como documentava uma escabrosa fotografia no Corriere de alguns anos atrás - os homossexuais são decapitados.

Fake news também são notícias parciais e, portanto, sectárias. Muitas vezes os que esbravejam contra o Papa Francisco o acusam de enlamear ou alterar a tradição católica. Deveriam ler o que escrevia um famoso intelectual e poeta que morreu ainda jovem vários anos atrás, Rodolfo Quadrelli, católico fortemente ligado à tradição - que ele sempre escrevia com a letra maiúscula - que dizia que tanto os tradicionalistas retrógrados quanto os progressistas zelosos negam a vitalidade da Igreja: os primeiros porque a consideram esgotada e, portanto, morta depois dos primeiros séculos, os segundos porque a veem começar com o modernismo, negando-a em bloco no que diz respeito aos séculos precedentes. Há quem acusa o Papa Francisco e os católicos dedicados a ajudar os mais desafortunados - tais como, mas não apenas, os migrantes jogados de um lado ao outro no mar ou atirados nas praias - de negligenciar os valores e a defesa da vida ao longo de sua parábola, desde as primeiras batidas no útero até as últimas no limiar da morte. Por que será que eles não mencionam as palavras e as advertências do Papa Francisco sobre o aborto e sua prática casual, definida por ele como "assassinato pela mão de um matador", palavras claras e duras raramente ouvidas? Inclusive nesse caso, a omissão, ou seja, a censura de um aspecto da realidade levada em consideração altera e falsifica aquela mesma realidade. Fake News, No News.

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