Chile. Administrador apostólico da Arquidiocese de Santiago diz que crítica do papa criou uma imagem ''dolorosa'' e ''injusta''

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15 Maio 2019

Quando toda a Conferência dos Bispos do Chile apresentou suas renúncias ao Papa Francisco em Roma no ano passado, em meio a um enorme escândalo envolvendo abusos sexuais clericais e acobertamentos, Celestino Aós Braco era bispo de uma pequena diocese há apenas quatro anos.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada em Crux, 14-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Contudo, foi uma preparação escassa para o trabalho que o papa lhe deu em março: administrador apostólico da Arquidiocese de Santiago, a capital do Chile e o olho do furacão da Igreja local.

Santiago é o lar de dois dos mais infames padres pedófilos do país: Fernando Karadima e Cristian Precht, ambos expulsos do sacerdócio no ano passado.

Aós conversou com o Crux no dia 4 de maio, logo depois que a Igreja local assinou um acordo de cooperação com a promotoria chilena – um acordo que foi rescindido pelo promotor nacional Jorge Abbott alguns dias depois.

Entre outras coisas, Aós disse que os comentários de Francisco no ano passado sobre uma “cultura do acobertamento” entre os bispos chilenos levaram a uma impressão de que todos os prelados do país eram igualmente culpados, uma imagem que ele chamou de “dolorosa” e “injusta”.

Aós também discutiu por que ele optou por não dar a Comunhão aos fiéis que queriam recebê-la de joelhos, apesar de ser uma prática permitida pelo Vaticano. Ele também falou sobre o seu encontro com o cardeal Sean O’Malley, de Boston, enquanto os dois estavam em Roma, em abril.

A primeira parte dessa conversa está disponível aqui [em inglês].

Eis a entrevista.

O que aconteceu com a assinatura de um acordo entre a Igreja e o governo? Por que os sobreviventes de abuso sexual clerical foram os primeiros a protestar?

A Igreja não é a única entidade que assinou esse acordo com a promotoria. Não é algo que foi assinado do dia para a noite. Teria sido possível dar mais participação aos sobreviventes? Provavelmente sim. Mas, quando um acordo desse tipo é preparado, dois lados estão envolvidos – neste caso, o Ministério Público e a Igreja. O acordo não nos deu privilégios. Pelo contrário, ele foi além do que é exigido por lei hoje, dizendo que todo abuso que alguém que trabalha para a Igreja descobre fora do confessionário deve ser relatado aos promotores. Eu vi nos promotores um desejo e uma vontade de colaborar. O que queremos é que a verdade venha à tona no Chile e que aqueles que são culpados de cometer um crime respondam à lei civil pelo que fizeram. E queremos trabalhar com a promotoria para que esses crimes nunca mais aconteçam.

Em Roma, o Santo Padre apresentou-lhe um documento dizendo que bispos no Chile haviam destruído provas e descartado denúncias. Hoje, há 10 bispos que foram intimados a testemunhar. Nesta semana, os bispos se reuniram para a sua assembleia geral. Há um certo desconforto entre vocês, imaginando a que o papa estava se referindo?

As reuniões da Conferência dos Bispos estão sempre programadas para revisar como estamos indo como Igreja. A reunião em Roma, à qual o papa nos convocou e durante a qual nos deu este documento [sobre a situação da Igreja no Chile], que não tinha valor legal, mas era uma meditação, incluiu algumas expressões fortes que causaram desconforto entre nós, bispos chilenos, e que o próprio papa tentou explicar mais tarde.

Eu falo, por exemplo, de uma “cultura do acobertamento”, o que faz parecer que todos estivemos conspirando uns com os outros. Ele falou sobre algumas coisas muito duras, como a destruição de provas, e aqui no Chile isso levantou muita poeira junto aos promotores. Não sabemos se ele quis dizer que a evidência foi destruída no Chile ou em Roma, mas, de fato, se ele diz isso, deve ter havido casos em que algumas evidências foram destruídas, o que é um crime. O problema é que, como está tudo no ar, muitos entenderam que todo bispo é culpado de encobrir e de estar disposto a destruir provas. Isso tem sido muito doloroso e também muito injusto. Há alguns que agiram assim, e isso é repugnante, mas nem todos o fizeram.

Nós trabalhamos de acordo com o que ele indicou, mas o papa não tem um livro de receitas, ele iniciou um processo. Quando você inicia um processo, ele é reorientado, se necessário. O processo deve levar em conta o problema, que foi mal abordado em alguns casos. Quando falamos com o papa, ele nos disse que mudar uma pessoa não é a solução. Isso é parte de um processo que requer um planejamento de curto, médio e longo prazo. Queremos acompanhar as pessoas e ser comunidades que encontram Cristo. Se estamos nos relacionando de uma forma que não é o que Cristo quer, mas com uma atitude de arrogância, abuso do outro, algo tem que mudar. Temos que mudar a maneira como nos relacionamos uns com os outros, com a sociedade e com essas pessoas que estão sofrendo, porque são vítimas. Às vezes você tem um objetivo claro, mas às vezes você não tem.

Vendo de fora, fica-se a pensar por que os bispos cujas renúncias o papa aceitou estavam concelebrando com o administrador apostólico na Missa Crismal durante a Semana Santa...

Mesmo assumindo que alguém cometeu um crime, nem todos são igualmente graves: temos o que é conhecido como a “proporcionalidade da penalidade”. Em segundo lugar, devemos levar em conta que essas pessoas que estavam concelebrando não haviam sido punidas e, portanto, têm todo o direito de participar da missa. [Talvez] alguns cristãos não pensem assim, [mas] é precisamente naqueles dias da Páscoa em que nós, como cristãos, somos todos chamados a nos reconciliar com nós mesmos e com aqueles que nos rodeiam.

Foi injusto que o Papa Francisco tenha colocado todos os bispos chilenos no mesmo saco, falando de uma cultura do acobertamento?

Alguns dizem que o papa foi injusto em nos colocar no mesmo saco. Eu digo sim e não. Porque, quando eu peço desculpas por um crime tão atroz quanto o aborto, eu não abortei nem participei de um aborto, mas estou em solidariedade com aqueles que abortaram e peço perdão por isso. Então, o papa tinha o direito, naquela que era uma meditação sem nenhum valor legal, de nos conscientizar de que somos todos responsáveis por isso. Quando se trata de abuso, não se pode dizer: “Eu me responsabilizo pelo que acontece na minha diocese, e somente isso”, ou: “Eu não tenho casos na minha diocese, então não é problema meu”. Não, ele nos convidou a dizer: “Eu assumo a responsabilidade por todo esse mal. Como posso ajudar?”. Essa é a orientação que o papa nos deu, e acho que é o que temos feito.

O senhor tem um trabalho difícil, mas, na Quinta-Feira Santa, nós o vimos tornando-o ainda mais difícil, pedindo que as pessoas se levantassem para receber a Comunhão, em vez de se ajoelharem. Uma semana depois, o senhor estava em um vídeo em que é visto dando a Comunhão a todos, incluindo aos que estão ajoelhados. Por quê?

Alguns dizem que eu lhes neguei a Comunhão, mas eu não neguei a Comunhão a ninguém. Havia uma pessoa que se ajoelhou, eu pedi que ela se levantasse e dei-lhe a Comunhão. Mas depois, para uma segunda pessoa, que não queria se levantar, quando ela se levantou, eu lhe ofereci a Comunhão, e ela não quis.

Qual foi o critério para fazê-los se levantar para receber a Comunhão?

A Comunhão não é simplesmente uma união com Deus, mas também com a comunidade. Há um ditado em espanhol que diz: “Donde fueres, haz lo que vieres” [Aonde fores, faze o que vires]. Se vou a um lugar onde todos recebem a Comunhão de joelhos, eu também o faço. E se todos vão para a Comunhão em pé, isso também é normal. Uma semana depois, enquanto eu celebrava a missa no Santuário da Misericórdia, havia alguns que recebiam a Comunhão de pé, outros de joelhos, e foi dada a todos. Eu acredito que Jesus Cristo está na Hóstia Sagrada, quer eu esteja de pé ou de joelhos. Naquela época, houve uma reação. Alguns disseram que eu humilhei [essas pessoas] ao lhes pedir para ficarem de pé. Se elas se sentiram humilhadas, eu peço perdão, não foi a intenção. Mas, apesar do incidente, eu estou calmo.

Há pessoas em Valparaíso, uma diocese onde o senhor atuou como promotor de justiça, que teve uma experiência negativa com o senhor e disse isso quando o senhor foi nomeado para Santiago.

Há duas pessoas cujo caso eu avaliei como promotor da justiça. Todos em um tribunal têm um papel. Eu era o promotor da justiça. Eu exerci o meu papel, mas não cabe a mim dar uma sentença. E há um registro detalhado do que eu fiz em cada caso. Propôs-se que as duas pessoas registrassem uma queixa, e elas o fizeram. Elas podem concordar com o que foi feito ou não, mas se fez o que tinha que ser feito.

Algo mais que o senhor gostaria de dizer?

Somente que, neste tempo [da história], temos um momento de grande sofrimento na Igreja, mas a Igreja é linda. E isso é algo que o papa sempre insistiu: há muitas pessoas boas, muitas pessoas que se santificam. Há muita bondade no mundo, mas esta é a tragédia do nosso tempo: a boa notícia não faz barulho. A própria imprensa está presa nessa ideia, e isso é um desafio.

O senhor se sente apoiado pelo Santo Padre?

Eu me sinto apoiado, mas espero que ele me apoie ainda mais: estou esperando que ele nomeie alguns bispos auxiliares, porque eu tenho um que está nos ajudando com a oração, mas está muito doente para assumir quaisquer tarefas pastorais, e isso deixa apenas um, Dom Cristian Roncagliolo, mas isso não é suficiente.

[Quatro dos bispos auxiliares de Santiago foram nomeados por Francisco como administradores apostólicos de outras dioceses chilenas que lidavam com as consequências da crise do abuso sexual clerical.]

Conte-nos sobre o encontro com o cardeal Sean O’Malley, de Boston, que, como o senhor, é capuchinho e também chefe da Comissão para a Proteção dos Menores do papa, quando o senhor esteve em Roma.

Eu tive que me encontrar com ele. Corri ao seu encontro na rua, e ele me convidou para almoçar em Santa Marta [a residência vaticana onde o Papa Francisco mora, e onde a maioria dos cardeais fica quando visitam Roma]. Eu disse a ele que precisamos da ajuda dele, porque ele é um daqueles homens que teve que enfrentar uma crise como essa antes. Não porque faremos exatamente a mesma coisa, mas porque precisamos de ajuda.

Os danos e os sofrimentos não afetam apenas as vítimas diretas [do abuso sexual clerical], mas também muitos padres e muitas comunidades lideradas por homens que não deveriam ser padres, em primeiro lugar. Há também o fato de que muitos hoje insultam a nós e aos fiéis por continuarmos sendo católicos contra todas as probabilidades. O’Malley é um homem que pode nos ajudar e está disposto a fazê-lo. Minha intenção é convidá-lo para Santiago e ao restante do Chile, para que as pessoas, os padres possam conversar com ele, porque ainda temos muito trabalho a fazer.

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