A Igreja Católica, a Segunda Guerra Mundial e as vítimas do nacional-socialismo

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15 Maio 2019

Há expectativa para a exibição no Festival de Cannes do novo filme do diretor Terrence Malick sobre a história do bem-aventurado Franz Jägerstätter, executado por ter se recusado a se alistar no Exército nazista. Ele será discutido nesta quarta-feira, 15 de maio, na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, onde serão apresentados dois livros: La Chiesa cattolica in Europa centro-orientale di fronte al Nazionalsocialismo 1933-1945 [A Igreja Católica na Europa centro-oriental diante do nacional-socialismo 1933-1945] e Perseguitati per la fede [Perseguidos pela fé].

A reportagem é de L’Osservatore Romano, 14-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As vítimas do nacional-socialismo na Europa centro-oriental, ambos organizados por Jan Mikrut, professor da Gregoriana e diretor da coleção “História da Igreja na Europa centro-oriental”, editada pela Gabrielli Editori. As duas obras fecham a seção sobre os totalitarismos do século XX da mesma coleção, que inclui cinco volumes, com 220 contribuições de 189 autores diferentes, totalizando mais de 5.200 páginas.

Publicamos aqui um trecho da introdução, escrita por Jan Mikrut, ao primeiro dos dois volumes.

Eis o texto.

“Igreja e nacional-socialismo” e “Igreja e Segunda Guerra Mundial”. As duas questões são diferentes, mas, ao mesmo tempo, difíceis, senão até impossíveis de separar. Afinal, o nacional-socialismo não se contentou “somente” em proclamar pontos de vista extremos e com o seu sucesso de propaganda. A partir de 1933, tornou-se uma formação política cada vez mais dominante, que, no fim, levou à Segunda Guerra Mundial.

Essa guerra, por sua vez, tornou-se um evento que não pode ser compreendido e descrito somente em termos militares. O seu aspecto mais terrível foi o genocídio: um homicídio em massa, metódico, até mesmo “industrial”, impensável sem a ideologia nazista.

Nesse ponto, nascem outras perguntas: para descrever as feridas da Igreja (ou das Igrejas) infligidas pelo nazismo ou pelo comunismo soviético no segundo front da guerra, é suficiente catalogar as perdas humanas e materiais da Igreja? Escrever os nomes dos mártires e comparar o número de igrejas destruídas ou confiscadas? É suficiente o conhecimento, até mesmo o mais detalhado, das restrições bélicas que limitaram ou até mesmo eliminaram a vida religiosa e eclesiástica?

Admitimos que tudo isso é importante e, por si só, chocante. Basta dizer que, só na parte da Polônia ocupada pelos alemães, morreram quase 3.000 pessoas, entre clero e consagrados; quase um em cada cinco sacerdotes diocesanos! No entanto, a perspectiva rigorosamente eclesial, centrada no bem próprio das Igrejas, entendido interiormente, parece muito estreita, até mesmo mesquinha. O nazismo e a Segunda Guerra Mundial puseram em discussão muito mais do que o normal funcionamento das estruturas eclesiais, nem só ameaçaram as liberdades da Igreja em sentido lato. O mal não pode ser reduzido à intolerância, à violência e à brutalidade dirigidas contra os cristãos e os quadros da Igreja.

O nazismo e a guerra que daí se seguiram tornaram-se um desafio não apenas ao que é religioso ou eclesiástico, mas a tudo o que é universal! Eles levaram os cristãos da Europa a uma prova dramática, não só para o seu apego às práticas religiosas, às tradições e aos direitos da Igreja; levantaram uma pergunta sobre a sua determinação em defender os direitos humanos fundamentais, independentemente da fé e da religião. E é justamente nesse nível que se desenvolveu o exame mais importante na Europa, um exame do grau e da qualidade da sua evangelização...

A sua principal demanda não era a força das estruturas eclesiásticas, mas sim a força e a profundidade das crenças e das atitudes cristãs, e não só das hierarquias eclesiásticas, mas de sociedades inteiras!

Mas é difícil não se perguntar: as pessoas da Igreja já estavam conscientes disso ou só alcançaram essa consciência após o fim da guerra? Isso não era simples em si mesmo: a partir de meados do século XVII, isto é, a partir do fim da Guerra dos Trinta Anos, a Igreja não só não moldava mais a realidade social, mas também lutava para manter o seu ritmo, até que, no século XIX, quase se separou completamente dessa realidade.

Portanto, ela teve que se contentar em exercer uma missão “estrita e exclusivamente religiosa” (Z. Zieliński), sendo muitas vezes, também nesse âmbito, meticulosamente controlada e regulamentada. Tal igreja, de repente, poderia estar pronta para uma completa mudança de perspectiva e para assumir novamente a responsabilidade dos grandes processos sociais e dos grandes desafios em escala global?

Além disso, deve-se lembrar que, já antes da eclosão da guerra, as Igrejas da Europa central e oriental se encontravam em circunstâncias muito difíceis. No Oriente, no território da União Soviética, somente em 1937 (ano em que foi proclamada a encíclica Divini Redemptoris que condenava o ímpio comunismo como o sistema que “minava os fundamentos da civilização cristã”), foram fechadas 29.000 igrejas ortodoxas (612 foram demolidas), 63 mosteiros ortodoxos, 240 igrejas católicas, 61 igrejas protestantes, além de 115 sinagogas e 110 mesquitas. Como se pode ver, o ataque foi dirigido contra todo o mundo da religião!

Na Bielorrússia, em 1938, todo o clero foi preso, e 2.500 igrejas e 23 mosteiros foram destruídos. Naturalmente, no que diz respeito ao território da URSS, o martírio ortodoxo está mais bem documentado. Vale a pena citar aqui alguns dados: entre 1917 e 1939, foram mortos cerca de 45.000 sacerdotes, monges e freiras; na eclosão da guerra, 42.000 sacerdotes estavam na prisão e nos campos de concentração; somente entre os bispos, foram mortos 270, enquanto outros 300 morreram na prisão ou no exílio.

Junto com a guerra, abateram-se sobre a Igreja outras desgraças dirigidas não só contra a hierarquia ou a base material do culto. A experiência mais trágica foram as deportações em massa. Somente a partir do território polonês ocupado pela União Soviética, com base no Pacto Ribbentrop-Molotov, quase um milhão de pessoas foram deportadas (mais de um quarto de milhão foram presas, e o mesmo número foi alistado à força no Exército), principalmente pertencentes à intelligentsia e engajados nas atividades sociais e eclesiásticas.

Por outro lado, porém, pode-se chegar ao exemplo extremamente oposto: a Eslováquia, governada durante a Segunda Guerra Mundial pelo presidente Jozef Tiso, um sacerdote católico, que permaneceu em estreita colaboração com Hitler. É precisamente sobre ele que recai a responsabilidade pelo extermínio dos judeus eslovacos executado em duas ondas (1942 e 1944): dos 130.000, só sobreviveram 23%. Sempre será um capítulo dramático da memória cristã e judaica que os transportes dos judeus eslovacos (junto com os franceses), enviados para Auschwitz por decisão de um governo que se definia como cristão, deram início à Endlösung der Judenfrage (Solução final da questão judaica) nesse campo de extermínio.

Sim, a honra da Igreja eslovaca pode e deve ser defendida, recordando, por exemplo, a figura do bispo uniata Pavel Gojdič, Justo entre as Nações, beatificado por São João Paulo II. Nesse caso, porém, surgirá imediatamente a questão das proporções dos comportamentos sociais e eclesiásticos: quais destes eram a “norma” e quais devem ser considerados como uma louvável – mas mesmo assim – exceção? Houve uma verdadeira resistência à política do Pe. Tiso ou, ao contrário, uma leve desaprovação?

Essa pergunta, feita com grande insistência, determina o processo de “purificação da memória” (São João Paulo II) de quase todas as Igrejas da região discutidas nesta publicação. Os números falam por si sós: de mais de 3 milhões de judeus poloneses, menos de 380.000 sobreviveram à guerra; de 220.000 judeus lituanos, apenas 12.000 sobreviveram à guerra. As oito semanas de maio e junho de 1944 foram suficientes para matar 565.000 judeus húngaros. Dos 757.000 judeus que viviam na Romênia, 400.000 foram exterminados; dos 80.000 que viviam na Iugoslávia pré-bélica, 14.000 sobreviveram à guerra. O Holocausto também atingiu 74 mil judeus da Letônia; a Estônia foi descrita como Judenfrei [livre de judeus], antes mesmo da Conferência de Wannsee.

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