O instante de luz em Emaús

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24 Abril 2019

"O texto de Milner nos faz compreender o quanto se perdeu em nossos dias ao arquivar esse imenso léxico de narrativas, eventos, personagens, símbolos, temas que constituem o "grande código" da Bíblia. No entanto, mesmo nessa ausência, às vezes se vislumbra uma presença silenciosa, talvez um eco, como acontece com a concha que preserva a voz do mar, mesmo quando ela é transformada em um enfeite". 

O comentário é de Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 21-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

A emocionante análise oferecida pelo estudioso franco-polonês Max Milner do famoso retrato juvenil de Rembrandt conservado no Museu Jacquemart-André em Paris “A quem de nós a casa de Emaús não é familiar? ... Seguíamos uma estrada primeiro, e alguns se aproximavam ao nosso lado. Estávamos sozinhos e não sozinhos. Já era noite. Eis uma porta aberta, a escuridão de uma sala onde a chama da lareira ilumina apenas o chão e faz com que as sombras tremulem ...”.

Quase parece que, quando François Mauriac em 1936, em sua Vida de Jesus "pintava" na página a famosa cena de Emaús descrita no Evangelho de Lucas (24.13-35), tivesse diante de seus olhos a pequena obra a óleo (39x42 cm) de Rembrandt conservada no Museu Jacquemart-André, em Paris. 

Reprodução da obra A ceia em Emaús, de Rembrandt  
(Fonte: Museu Jacquemart-André | Wikimedia Commons)

Uma experiência análoga foi explicitada em um ensaio breve, mas emocionante, do estudioso judeu franco-polonês Max Milner (1923-2008) que mais tarde se converteu ao catolicismo: "Este livro nasceu de uma descoberta e uma surpresa".

O "choque" - que esse autor eclético (interessava-se por literatura romântica, arte, filosofia, psicanálise, espiritualidade) confessa em sua análise, agora traduzida para o italiano - acredito que pode repetir-se em todos aqueles que ficarão diante da pintura juvenil do artista holandês (estamos em 1628 e ele tinha apenas 22 anos).

O relato fremente do evangelista, após o caminho de sessenta estádios (11 km) dos três atores de Jerusalém até a vila de Emaús, agora está fixado em um interior: uma mesa, um pão e os três protagonistas, ou seja, o desconhecido companheiro de viagem. e os dois discípulos, dos quais apenas um é mencionado pelo nome, Cleópa (talvez Cleopatro). Naquela sala, o misterioso hóspede, cujas palavras já faziam bater os corações dos dois viajantes durante o percurso, "pega o pão, profere a bênção, o parte e distribui para eles".

Lucas continua: “Então seus olhos se abriram e eles o reconheceram. Mas ele desapareceu de sua vista”. É o Cristo ressuscitado que os olhos da carne não reconheceram e que agora o olhar da alma e da fé revela.

Pois bem, Rembrandt, de uma maneira extraordinária, consegue capturar com um impressionante jogo de luzes e sombras o instante inefável e supremo do reconhecimento. Naquela pintura, se resumem o assombro ofuscante de um dos dois (Cleópa?), a atmosfera noturna rasgada por um lampejo de luz externa, a invisível linha de demarcação do trânsito de uma melancólica incredulidade ("esperávamos que fosse ele a libertar Israel") a uma teofania ofuscante, mas acima de tudo, brilha a transfiguração de Cristo que, da corporeidade, passa à transcendência, tornando-se um presente-ausente.

Rembrandt, de fato, consegue captar aquela inexprimível passagem através da linguagem da sombra que paradoxalmente se transforma em luz, com o perfil de um corpo que já é a exaltação de uma pessoa divina.

Nenhuma catequese conseguiria explicar com uma só palavra a continuidade histórica pessoal e a diversidade transcendente da ressurreição de Cristo, assim como consegue fazer o pintor que combina em um único olhar a humanidade e a divindade, a carnalidade e a espiritualidade, a finitude humana e o poder celeste, a ausência e a presença precisamente.

As análises refinadas de Milner seguem todos os detalhes da pintura, do encontro à cena final e à sua atmosfera, do desconhecer ao reconhecimento dos dois discípulos, alcançando a metamorfose final.

É uma verdadeira exegese em que se entrecruzam a leitura evangélica e a avaliação crítica. Uma exegese teológico-pictórica que se estende a outras cenas do evento de Emaús pelo próprio Rembrandt (a tela do Louvre de vinte anos depois, a tela contemporânea do Museu Real de Copenhague e o último óleo do Louvre de 1660, para não mencionar as gravuras e desenhos), mas também de outros pintores: como não evocar os dois Caravaggios da Galeria Nacional de Londres e de Brera ou o Veronese do Louvre, o Rubens do Prado e o Ticiano do Louvre?

A leitura dessas páginas críticas torna-se uma experiência interior e intelectual que não nos deixa ilesos se for acompanhada pela contemplação das necessárias "páginas" pictóricas dos artistas. Uma experiência para a qual também nos guia o intenso pós-escrito de Carlo Ossola, cujo testemunho é necessário para reunir os fios de tantos múltiplos e vertiginosos acontecimentos humanos e espirituais nos quais o visível e o invisível se entrelaçam.

O texto de Milner nos faz compreender o quanto se perdeu em nossos dias ao arquivar esse imenso léxico de narrativas, eventos, personagens, símbolos, temas que constituem o "grande código" da Bíblia. No entanto, mesmo nessa ausência, às vezes se vislumbra uma presença silenciosa, talvez um eco, como acontece com a concha que preserva a voz do mar, mesmo quando ela é transformada em um enfeite.

É o que tentou explicar um sacerdote milanês de fina sensibilidade cultural, Paolo Alliata, nascido em 1971, que também tentou o caminho do teatro para os garotos, um público sob alguns aspectos bastante difícil. Agora, no entanto, ele se embrenhou ao longo das sendas traçadas por autores e artistas próximos e, principalmente, distantes da fé cristã e compôs uma espécie de mosaico, cuja textura é marcada por temas mais evocativos do que descritivos. É o que postula a grande arte, partindo precisamente da pintura de Rembrandt ou, se você quiser, da música ou da poesia autêntica.

Assim, passa-se do dom para a vida, parte-se do olhar para alcançar a pessoa: são temas existenciais e espirituais relidos com a voz de múltiplas figuras de nossa cultura.

Estamos muito longe, nas páginas desse livro, da frigidez de uma catequese ou da ênfase de um canto religioso. De fato, Padre Paolo, acompanha o respiro de Deus que sopra nas palavras escritas ou pintadas por tantas testemunhas (muitas vezes inesperadas). Ele faz isso piscando até mesmo a um único símbolo ou sinal, como por exemplo a caverna do filme dos pré-históricos Croods para o sepulcro de Lázaro ou na Festa de Babette para a última ceia de Jesus, ou aproximando Rilke à rede jogada no mar da parábola de Cristo ou o Capitão Mendoza do filme A Missão à cruz e à glória do Ressuscitado.

Ou, mais ainda, escolhe a cebola de uma metáfora dos Irmãos Karamazov, mas acende o fogo de van Gogh, ou aflora a emoção de uma carta de Mark Twain para Walt Whitman, e assim por diante, fazendo vislumbrar não apenas os sublimes Wilde, Hugo, Calvino, Blixen, Levi, Fallada, Buzzati e até mesmo Darwin, mas também o Ridley Scott do filme Perdido em Marte, Giono, Rodari, Tolkien e assim por diante.

Mas sempre e acima de tudo isso paira aquele sopro divino que, como o vento, ignora fronteiras, que não se escandaliza com a pergunta impertinente, que não teme o aparecimento de um muro, que não hesita em ultrapassar a presunção do hipócrita, que permeia cada criatura no íntimo da consciência, que conosco caminha pelas trilhas dos desertos da crise, da dúvida, da espera e até acompanha os nossos sussurros, sempre presente mesmo que muitas vezes incógnito.

 

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