O assombroso enigma da economia chinesa

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15 Abril 2019

Diante da crise, e ao contrário do Ocidente, país faz imensos investimentos em infra-estrutura e no consumo interno. Consolidará capitalismo de Estado? Talvez – mas de nada serve examinar sua experiência com as lentes do preconceito, escreve Zhang Jun, reitor da Escola de Economia na Universidade de Fudan, e diretor do Centro China de Estudos Econômicos, um think-tank baseado em Xangai, em artigo publicado por OutrasPalavras, 12-04-2019. A tradução é de Felipe Calabrez.

Eis o artigo.

Para o Ocidente, o ano de 2008 marcou o início de um difícil período de crise, recessão e recuperação desigual. Para a China, 2008 também foi um importante ponto de inflexão, mas seguido por uma década de progresso rápido que poucos poderiam ter previsto.

É claro: quando o banco de investimento norte-americano Lehman Brothers entrou em colapso, desencadeando uma crise financeira global, os líderes chineses ficaram profundamente preocupados. Suas preocupações foram agravadas por desastres naturais — incluindo fortes nevascas e tempestades de neve no sul, em janeiro de 2008, e o devastador terremoto de Sichuan, cinco meses depois, que matou 70 mil chineses – assim como revoltas no Tibet.

No começo, os temores da China pareciam estar se tornando realidade. Apesar de sediar uma impressionante Olimpíada em Pequim, em agosto daquele ano, seu mercado de ações despencou de um recorde de 6.124 pontos para 1.664, em outubro de 2008, em uma queda assombrosa.

Mas as autoridades chinesas continuaram dedicadas a seu plano de longo prazo de rever o modelo de crescimento do país, afastando-se de uma ênfase nas  exportações e adotando um projeto pautado pelo consumo interno. Na verdade a crise econômica global serviu para fortalecer esse compromisso, ao ressaltar os riscos da dependência chinesa da demanda externa.

Esse compromisso valeu a pena. Na última década, muitos milhões de chineses somaram-se à classe média, que agora reúne de 200 a 300 milhões de pessoas. Com um patrimônio líquido médio de 139 mil dólares per capita, o poder de compra total desse grupo pode chegar a 28 trilhões de dólares, comparado a 16,8 trilhões nos Estados Unidos e 9,7 trilhões no Japão. A classe média da China já exerce esse poder. A China respondeu por 70% das compras globais de luxo anualmente na última década. Embora a propriedade de carros per capita seja cerca de metade da média global, desde 2008, os chineses têm sido seguidamente os principais compradores de automóveis do mundo, superando os norte-americanos. Em 2018, mais de 150 milhões de chineses viajaram ao exterior.

Para as autoridades chinesas, fomentar o surgimento de uma classe média tão formidável foi uma oportunidade estratégica crucial. Como Liu He, o principal assessor econômico do presidente chinês, Xi Jinping, escreveu em 2013, a meta da China, antes da crise, era tornar-se um centro de produção global; alcançar o objetivo atrairia capital internacional e conhecimento. Depois de 2008, os imperativos estratégicos da China mudaram para a redução do risco da dívida e o impulsionamento da demanda agregada. Ao mesmo tempo, adotaram-se estímulos econômicos maciços para estimular o consumo e o investimento doméstico, diminuindo assim a vulnerabilidade do país a choques externos.

Como parte dessa iniciativa, a China buscou realizar investimentos de larga escala em infraestrutura, como a construção de quase 30 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade. O aumento da mobilidade — somente no ano passado, a rede ferroviária transportou quase dois bilhões de passageiros — facilitou muito os laços econômicos regionais, impulsionou a urbanização e aumentou substancialmente o consumo.

Graças a esses esforços — juntamente com fusões e aquisições de empresas estrangeiras, para adquirir tecnologias-chave, e investimentos lucrativos em infra-estrutura nas economias desenvolvidas — a economia chinesa quase triplicou em tamanho entre 2008 e 2018. O PIB chegou a 13,6 trilhões de dólares. Em 2008, era 50% menor do que o do Japão; em 2016, 2,3 vezes maior.

Sim, desafios difíceis surgiram. Os valores da terra e da moradia subiram, com os preços dos imóveis urbanos subindo tão rápido que muitos temeram uma bolha. O crescimento do crédito gerou mais riscos. No geral, no entanto, as políticas expansionistas deram suporte ao rápido surgimento da China como uma potência econômica global.

Mas os líderes da China não planejaram uma característica crucial desse padrão de crescimento, e que também não foi pensada pela sua política industrial. As indústrias inovadoras focadas no consumo, que mal existiam em 2008, estão impulsionando cada vez mais a economia chinesa hoje.

A China é agora líder global em comércio eletrônico e pagamentos móveis. Em 2018, os pagamentos móveis na China totalizaram 24 trilhões de dólares — 160 vezes mais que nos EUA. Os bancos estatais e as empresas petroquímicas, que eram as principais firmas chinesas em 2008, foram superadas pelo e-commerce e pelos gigantes da internet Alibaba e Tencent. Empresas de Internet e tecnologia estão criando dezenas de milhões de empregos por ano.

Enquanto isso, o desempenho do setor manufatureiro — há muito tempo o principal motor do desenvolvimento da China e ainda o maior empregador do país — enfraqueceu, prejudicado em parte pelo rápido crescimento dos salários. O resultado foi uma mudança fundamental na composição estrutural da economia chinesa.

No entanto, em vez de examinar essa mudança — que não é captada em medidas tradicionais do PIB –, muitos economistas concentraram-se em tentar criar buracos na narrativa de crescimento da China. Um estudo recente da Brookings Institution, por exemplo, estima que a economia do país é cerca de 12% menor do que os números oficiais indicam.

Essa atitude é contraproducente. As mudanças que a economia chinesa sofreu na última década são amplas, sem precedentes e essenciais. Seria mais proveitoso para o mundo que houvesse um esforço para compreender tais mudanças, em vez da tentativa de provar que as conquistas do país são menos impressionantes do que demonstra a realidade.

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