Rumores sobre a morte dos laços anglicano-católicos há uma década foram muito exagerados

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12 Abril 2019

Qualquer um que tenha visto o boletim oficial do Vaticano na terça-feira viu dois itens: uma declaração detalhando um retiro que está sendo realizado esta semana pelo Papa Francisco e pelo arcebispo Justin Welby, de Canterbury, para as lideranças políticas do Sudão do Sul e um conjunto atualizado de normas para os “ordinariatos pessoais”, ou seja, estruturas para que os ex-anglicanos entrem em plena comunhão com a Igreja Católica.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 11-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À primeira vista, a única coisa que os dois desenvolvimentos parecem ter em comum é a palavra “anglicano”. Na realidade, há uma ligação mais profunda entre as duas tramas.

Comecemos pelos ordinariatos. A história realmente começa em 2009, quando o Papa Bento XVI publicou o documento Anglicanorum coetibus, criando a possibilidade de ordinariatos pessoais para comunidades de ex-anglicanos que desejassem manter sua herança litúrgica e espiritual sendo aceitos no catolicismo.

Um ordinariato é semelhante a uma diocese e é supervisionado por um “ordinário”, que pode ser, mas não precisa ser, um bispo. Atualmente, existem três estruturas desse tipo para ex-anglicanos: a Cátedra de São Pedro, nos Estados Unidos e no Canadá, Nossa Senhora de Walsingham, na Inglaterra, e Nossa Senhora da Cruz do Sul, na Austrália.

O pano de fundo é que, em 2007, o Vaticano recebeu uma petição de um grupo chamado Comunhão Anglicana Tradicional, que rompeu com Canterbury sobre questões como as sacerdotisas e bispas e o clero gay, para dar forma a uma “comunhão corporativa” com Roma. Com efeito, o Anglicanorum coetibus foi a resposta de Roma.

(Antes disso, era possível que anglicanos individuais entrassem em comunhão com Roma, e havia uma “provisão pastoral” que permitia que clérigos anglicanos se tornassem padres católicos mesmo sendo casados. No entanto, não havia nenhum mecanismo para que uma comunidade anglicana inteira se tornasse católica e mantivesse a sua herança.)

Preocupados com a potencial reação dos anglicanos, que poderiam ser tentados a ver a criação dessas estruturas como uma concorrência, ou mesmo como a concessão de credibilidade a dissidentes explícitos dentro do anglicanismo, o lado católico deu passos extraordinários para amenizar a medida.

No Reino Unido, por exemplo, o Anglicanorum coetibus foi apresentado em uma coletiva de imprensa conjunta por Rowan Williams, na época arcebispo de Canterbury, e pelo cardeal Vincent Nichols, de Westminster, no qual os dois juntos abordaram o documento como mais uma prova da “sobreposição na fé, doutrina e espiritualidade” entre as duas Igrejas.

Apesar do gesto, alguns anglicanos ficaram irritados.

O então bispo de Lincoln na Igreja da Inglaterra, John Saxbee, disse que a decisão “não se encaixa facilmente com toda a conversa sobre como trabalhar em prol de melhores relações”. O cônego Giles Fraser, então chanceler da Catedral de São Paulo, disse que o documento tinha um “sentimento ligeiramente predatório” e que, “em termos corporativos, é um pouco como uma oferta de compra em uma disputa mais ampla de política eclesial”. O então bispo de Guildford, Christopher Hill, chamou-o de “ato insensível”.

No lado católico, algumas vozes liberais não gostaram da ideia de estender um tapete vermelho para os anglicanos tradicionais que romperam com a sua Igreja de origem devido a percepções de que ela estava indo longe demais em uma direção progressista. Outros alertaram que a medida geraria dificuldades entre os anglicanos e retardaria as relações ecumênicas, complicando os esforços de cooperação em qualquer coisa.

Na verdade, a maioria dos observadores neutros sempre diz que tais previsões são exageradas. Realisticamente, os anglicanos mais dissidentes incomodados com questões como as mulheres e o clero gay pertenciam à ala evangélica da Comunhão, indispostos a aceitar uma “opção romana” por várias razões. O número de pessoas que provavelmente serão afetadas, portanto, sempre foi destinado a ser pequeno, e a experiência confirmou isso.

Tudo isso nos traz de volta ao retiro desta semana, que é a confirmação, se é que era necessária, de que os rumores da morte das relações católico-anglicanas após o Anglicanorum coetibus foram muito exagerados.

Compreensivelmente, a maior parte da atenção ao encontro da classe política do Sudão do Sul se focou nas perspectivas de consolidação de um acordo de paz para pôr fim a um sangrento conflito que custou 400.000 vidas, deixou 2 milhões de refugiados e mais 2 milhões de deslocados internos, assim como apenas 2% da população com acesso à eletricidade e 66% dos 12 milhões de pessoas do país vivendo na extrema pobreza.

O que menos chama a atenção é a natureza extraordinariamente ecumênica da iniciativa. O convite foi emitido em conjunto por Welby e Francisco, e os dois estão à disposição em Santa Marta, a residência vaticana onde Francisco mora.

Esqueça-se a sobreposição política – há não muito tempo, a própria ideia de um papa e de um arcebispo de Canterbury participando de um retiro espiritual conjunto, qualquer que fosse a lista de convidados, seria basicamente impensável.

Com efeito, essa é a visão de Francisco sobre o ecumenismo em ação. Ele está menos interessado em retomar antigos debates teológicos e eclesiásticos do que em fazer amigos, encontrando coisas para fazer juntos aqui e agora. Essa tem sido a sua abordagem com o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, por exemplo, e ela também está em exibição nesta semana com Welby.

Uma década depois do fato, pode-se fazer qualquer avaliação que pareça merecida sobre o Anglicanorum coetibus e suas consequências. O que não pode ser argumentado, no entanto, é que ele tornou impossível o progresso nas relações católico-anglicanas – porque o progresso é exatamente o que estamos vendo acontecer bem agora.

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