Além de desafiar o papa em vários fronts, Bannon quer treinar ''gladiadores'' culturais

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03 Abril 2019

Suponha que você seja o tipo de católico conservador frustrado com o Papa Francisco em relação a toda uma série de coisas, não apenas com o modo como ele lida com a crise dos abusos clericais, mas também com o modo como ele lida com a nomeação de bispos para a China comunista, com a sua contínua crítica aos movimentos populistas e nacionalistas, com o seu ardente apoio aos direitos dos imigrantes, e assim por diante.

A reportagem é de Elise Harris e John L. Allen Jr., publicada por Crux, 01-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se for assim, isso mais ou menos o colocará no mesmo barco de Steve Bannon, o arquiteto da ascensão de Donald Trump ao poder. E agora Bannon tem uma proposta para você: que tal passar um ano em seu novo instituto na Itália, com o objetivo de emergir como um “gladiador” na defesa da civilização judaico-cristã?

Bannon esteve em Roma no fim de março, em parte para se preparar para um programa-piloto ainda neste ano, localizado em um mosteiro medieval em Trisulti, a cerca de uma hora de Roma. Ele disse ao Crux em 30 de março que espera que a versão completa do instituto, com cerca de 100 alunos, mais os professores, seja aberta em 2020.

“Todo o conceito do ‘gladiador’ é a sua grande determinação (...) Os gladiadores não tinham a ver apenas com a técnica, ou a fisicalidade, ou a coragem. A maior coisa [neles] era essa incrível determinação”, disse.

Seu novo instituto, jurou ele, “vai dar a você todo o conteúdo do porquê dessa civilização, dessa cultura, que é especial, o que a tornou especial – da compreensão do Antigo Testamento e das suas raízes no Judaísmo e tudo sobre a lei, até tudo o que tem a ver com os tempos modernos”, junto com a capacidade de defender esse legado em uma cultura barulhenta e conflituosa.

Quem está pagando a conta?

“Infelizmente, neste momento, o financiamento para isso está vindo de Steven K. Bannon”, brincou ele, enquanto expressava confiança de que “nós vamos ter alguns católicos muito proeminentes que investirão algum dinheiro”.

Embora Bannon tenha deixado claro que o escopo do novo instituto é mais amplo do que simplesmente ser uma reação à agenda do Papa Francisco, em sua conversa com o Crux ele também não se afastou das críticas ao pontífice em três fronts distintos: os escândalos de abuso, a China e o populismo.

Bannon previu que, sem uma intervenção dramática, toda a Igreja Católica norte-americana poderia acabar em concordata em 10 anos, depois de ser processada sob os estatutos da RICO [lei federal dos Estados Unidos que pune atos praticados por outros como parte de mesma uma organização criminosa] originalmente concebidos para combater o crime organizado.

“É tão óbvio que isso vai acabar em lágrimas”, afirmou.

“Eles vão começar a tratar a Igreja como gentalha (...) Os estatutos da RICO estão prontos para que eles possam pegar os bens [da Igreja] imediatamente, começar a monetizar esses bens e entregá-los a quem quer que seja. As vítimas e esses advogados só vão lucrar com tudo isso.”

Para evitar isso, Bannon aconselhou a criação de um novo painel ou conselho que permita que leigos qualificados lidem com as negociações em nome da Igreja para tentar proteger os bens.

“É quase como uma pré-falência”, disse. “Você precisa de profissionais, precisa de leigos, precisa de pessoas para fazer a devida diligência e começar a entrar em negociações ou qualquer outra coisa, para garantir que, financeiramente, isso não saia do controle.”

Surpreendentemente, uma das figuras politicamente mais polarizadoras dos Estados Unidos insistiu que tal esforço tem que ser apolítico.

“Tem que ser dos católicos conservadores, dos tradicionalistas, dos da missa em latim, até os mais progressistas”, disse Bannon. “Temos que colocar a política da Igreja de lado e nos unir, ajudar e trabalhar com o clero, a hierarquia.”

Bannon disse ter uma relação pessoal com a última onda de escândalos – especialmente aqueles envolvendo Theodore McCarrick, o ex-cardeal e agora ex-padre acusado de uma ampla gama de abusos sexuais e más condutas, e o cardeal Donald Wuerl, que renunciou de Washington depois de ser criticado em um relatório do Grande Júri da Pensilvânia pelo modo como lidou com casos de abuso.

“Eu sou o cara que levou McCarrick e [o cardeal Donald] Wuerl ao Salão Oval”, disse Bannon.

“É tradicional que o cardeal da Arquidiocese de Washington se encontre com o presidente na primeira semana de governo”, disse. “Wuerl era o cara, mas ambos queriam vir, e fui eu quem os colocou na agenda, eu os coloquei no Salão Oval, sentei lá etc. Trump os cumprimentou e passou uma hora com eles.”

“Você sente algo como: ‘Uau, eu gostaria de ter sido avisado antes!’”, disse Bannon. “Eu me sinto meio idiota agora, mas é assim que muita gente também se sente.”

Sobre a China, Bannon foi ainda mais enfático ao afirmar que Francisco está no caminho errado.

“O Papa Francisco e o secretário de Estado assinaram um acordo com o Partido Comunista Chinês. O Partido Comunista Chinês não é o povo chinês (...) Trata-se de um quadro radical do presidente Xi e de seus capangas, uma ditadura totalitária cujo foco número um em sua busca por controle é basicamente a destruição das religiões”, afirmou.

“Há um processo nesse acordo (...) que leva a relações diplomáticas plenas entre o Vaticano e o Partido Comunista Chinês, e que joga Hong Kong, joga Taiwan, joga 100 milhões de católicos para debaixo do ônibus”, disse Bannon. “Isso é ultrajante. Você não pode fazer isso.”

Bannon expressou frustração pelo fato de não terem sido revelados os detalhes do acordo assinado em setembro entre o Vaticano e a China para regulamentar a escolha de bispos, insistindo que o Vaticano é obrigado a isso, como signatário da Convenção de Viena de 1961, que regulamenta as relações diplomáticas para evitar acordos secretos.

Bannon disse ter criado um fundo de 100 milhões de dólares, financiado por bilionários chineses expatriados, e que pode usar parte desse dinheiro para financiar uma ação exigindo que o Vaticano libere os termos do acordo.

“Eles são signatários de um acordo que proíbe o que eles fizeram. Ele é muito específico no sentido de que não se pode fazer o que eles fizeram”, disse ele, acrescentando que o local para um processo pode ser Nova York, onde a ONU está localizada – embora, insistiu, ele preferiria chegar ao acordo através da persuasão em vez do litígio.

Sobre as ondas populistas de hoje na política global – de Trump nos Estados Unidos a Matteo Salvini, na Itália, assim como ao novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro – Bannon insistiu que Francisco precisa parar de apontar o dedo.

“O que o papa e as pessoas ao redor dele estão fazendo é ressaltar continuamente que esses são os bandidos, que é daí de onde vêm todos os problemas, que isso só vai levar a um desastre”, disse. “Eu acho que isso tem que parar.”

Por fim, Bannon disse que há muito tempo ele está surpreso com uma certa semelhança entre o seu ex-chefe, Trump, e o pontífice.

“Ele e Trump estão no mesmo nível”, disse Bannon. “Ele gera notícias todos os dias e também é muito sofisticado. Ele sabe exatamente como soltar a manchete. Eles são muito parecidos.”

Francisco, disse Bannon, “é um lutador, e eu tenho muita admiração por muitas coisas nele”.

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