Papa, sobre os mercadores do Vaticano: "É preciso ir limpando. O trabalho é ir limpando, limpando, limpando"

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01 Abril 2019

Foto: La Sexta

Claro, conciso e contundente. Assim estava o Papa Francisco em suas respostas às incisivas perguntas de Jordi Évole, que serão retransmitidas esta noite em La Sexta e que o próprio autor da entrevista adianta uma parte hoje em La Vanguardia. O Papa assegura que é preciso "limpar" o Vaticano e convida a Espanha a ativar o "direito a uma sepultura digna" para os cadáveres enterrados nas valas, ao mesmo tempo em que os convida a "ler o Evangelho" para enfrentar o tema da imigração.

A entrevista é publicada em La Vanguardia, 31-03-019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis a entrevista.

O senhor disse que é filho de um imigrante italiano que foi para a Argentina de barco. Qual é sua sensação ao ficar sabendo que mais de 35 mil migrantes morreram afogados no Mediterrâneo?

Pela cabeça [não sinto] nada. Pelo coração, muita dor. Não entendo. Não entendo a insensibilidade. Ou não entendo a injustiça da guerra, a injustiça da fome, a injustiça da exploração, que faz com que uma pessoa migre buscando coisas melhores. E a injustiça de quem lhe fecha a porta.

O senhor disse que “um país deve acolher todos os refugiados que puder”. Acredita que a União Europeia deveria acolher mais do que já faz?

A atitude fundamental é a de ter o coração aberto. É a atitude cristã, a da Bíblia: receberás e tratarás bem ao migrante, porque não deves esquecer que foste migrante no Egito. O primeiro passo é receber. O segundo é acompanhar. O terceiro é promover o emigrante para integrá-lo, que é o quarto passo. Ou seja, receber, acompanhar, promover e integrar. Se não se dão estes quatro passos, o receber é incompleto. E só receber e deixá-los nas ruas é uma falta de respeito enorme.

Qual sua opinião sobre o fato do barco da ONG Proactiva Open Arms, que auxilia imigrantes, estar preso no porto de Barcelona?

Acho ruim. Sei que as autoridades de Barcelona estão dispostas a receber, acompanhar, promover e integrar. Eu falei com essas pessoas. E o caso da Open Arms me parece uma injustiça muito grande. Por que se faz isso? Para que se afoguem? É simplista, mas se não pode resgatá-los… E por que vêm? Vivem em um desespero, somado a uma ilusão tão grande, que se lançam… Não medem as consequências. E nós não medimos a dor dessas pessoas.

Qual sua opinião sobre a proposta de alguns governantes como Donald Trump de levantar muros e cercar as fronteiras para conter a imigração?

Aquele que levanta um muro termina prisioneiro do muro que levantou. E isso é lei universal. É determinado na ordem social e na pessoal. Se levantares um muro entre pessoas, terminarás prisioneiro desse muro que levantaste. Defenda sua autonomia; mas ficarás sozinho como um fungo.

O que o senhor disse aos católicos da Espanha que recusam a imigração?

Que leiam o Evangelho. São católicos, que leiam o Evangelho. E que sejam coerentes.

Muitos imigrantes fogem de situações de pobreza em seus países. É o sistema econômico que domina o mundo, o capitalismo, que provoca estas situações?

Em geral, sim. Cada vez há menos ricos com muito dinheiro e cada vez há mais pobres com muito pouco dinheiro. Essa é a ampulheta. [Falo aqui do] capitalismo concebido como selvagem, não uma economia social de mercado – que se é social pode andar (a economia). O que não anda é o mundo das finanças. Também é isto que cria as guerras, pela posse da riqueza, não é verdade? Sejam internacionais ou nacionais. Defendo que estamos já em uma terceira guerra mundial, em pedacinhos.

Se eu lhe disser que o governo de meu país vende armas de guerra para a Arábia Saudita, o que o senhor me diz?

Sinto pena. Mas te diria que não é o único governo.

Falo do nosso caso, que é o que conhecemos mais de perto.

Não têm direito a falar da paz. Estão fomentando a guerra em outro país e depois querem a paz no próprio? É a teoria do bumerangue. A vida vai cobrar, por um ou por outro caminho. Se armas a guerra lá, a terás em tua casa, queiras ou não queiras.

Temos ainda vítimas da Guerra Civil sepultadas em valas. O que o senhor acha do fato de que tenha pessoas em meu país que se oponham a localizar e enterrar essas vítimas desaparecidas?

Falando de desaparecidos, tenho uma história forte. Na Argentina foram mais de 30 mil, na época da ditadura, e isso me atingiu de perto. Sempre defendi o direito à verdade sobre o que aconteceu. O direito a uma sepultura digna. A encontrar os cadáveres. Na Argentina se continua fazendo isso, lentamente... É um direito. Não só um direito da família, mas da sociedade. Uma sociedade não pode sorrir para o futuro tendo seus mortos escondidos. Os mortos devem ser enterrados, individualizados nos cemitérios, mas não podem ser escondidos. Nunca terás paz com um morto escondido. Nunca.

Se alguém que está nos assistindo está sofrendo ou sofreu abusos por parte de um religioso, o senhor recomenda que chame a polícia?

Evidentemente. Isso é o que partiu do encontro sobre os abusos.

Houve vítimas pouco contentes com este encontro...

As coisas concretas da cúpula foram em torno de iniciar processos. E isso leva seu tempo. De qualquer maneira, compreendo as pessoas que ficaram insatisfeitas, porque quando há uma dor no meio, a pessoa tem que ficar calada, rezar, chorar, acompanhar e ponto. Mas iniciar processos é a maneira para que seja irreversível a cura.

Por que a mulher continua sofrendo discriminação em nossa sociedade e na Igreja?

Promover a mulher na Igreja é escutá-la, dar-lhe funções. Mas isso não basta. O que não conseguimos ainda é nos dar conta de que a figura da mulher vai além da funcionalidade. A Igreja não pode ser Igreja sem a mulher, porque a Igreja é mulher, é feminina. É A Igreja, não O Igreja. Uma dimensão que não tenha feminilidade na Igreja faz com que a Igreja não seja Igreja.

Se alguma das mulheres vítimas de abuso lhe explicasse que ficou grávida depois de um estupro, entenderia se ela quisesse abortar?

Entenderia-a em seu desespero, mas também sei que não é certo eliminar uma vida humana para resolver um problema.

Nem mesmo que seja nessas circunstâncias tão extremas?

É certo eliminar uma vida humana para resolver um problema? É legal contratar alguém para que a elimine?

Estive com Pepe Mujica e lhe perguntei se ele tinha medo de decepcionar. O senhor tem a sensação de ter decepcionado parte de sua Igreja que esperava mudanças mais progressistas?

É uma pergunta feita em termos midiáticos. Respondo como eu a vivo. Não me ocorre pensar se tenho medo ou não. Tento não decepcionar no que se refere ao cumprimento de meu dever. Isso sim.

O senhor disse que não queria vir ao Vaticano pelas fofocas que havia. A que se referia?

A fofoca é a pior coisa que pode haver, e aqui lamentavelmente há mexericos. Não digo que se vive entre fofocas, mas há. A fofoca denigre uma pessoa. Seja padre, seja freira, seja leigo... Viver de histórias. Isso te rebaixa, te coloca abaixo da dignidade. É assustador isso, viver julgando os outros.

Jesus expulsou os mercadores do templo. No Vaticano há muitos mercadores?

Mas por serem hipócritas… não só porque vendiam (risos). Sim, há. Estão lá, como em todos os lugares. O Estado da Cidade do Vaticano não se salva dos limites, dos pecados e das vergonhas de outras sociedades. Aqui somos homens e temos os mesmos limites e caímos às vezes nas mesmas coisas. É preciso ir limpando. O trabalho é ir limpando, limpando, limpando.

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