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26 Março 2019

“A luz nos é devolvida, o tempo nos é devolvido, a vida nos é devolvida, e tudo isso nos é devolvido como uma nova possibilidade, como um tempo renovado, como oportunidade para reparar as eventuais falhas do dia anterior.”

A opinião é de Nico Guerini, padre italiano, estudioso de literatura e especialista em textos de mística, em artigo publicado em Settimana News, 23-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Iam Christe sol iustitiae,
mentis dehiscant tenebrae,
virtutum ut lux redeat,
terris diem cum reparas.

Ó Cristo, sol de justiça,
brilhai nas trevas da mente.
Com força e luz, reparai
a criação novamente.

Invocar o sol ao surgir da aurora parece pleonástico: como é possível chamar quem já está presente? Mas a invocação não é dirigida tanto a alguém de quem se espera a vinda, mas, na alegria de receber uma visita muito desejada e esperada, se reza para que o novo sol cresça e cumpra plenamente a sua função.

Brilhar nas trevas

A Quaresma é uma época em que os dias ficam mais longos e a natureza desperta [no hemisfério Norte]. Iniciando a oração da manhã, é totalmente natural partir da experiência do retorno da luz e, ao mesmo tempo, de uma vida que recomeça na sua consciência. Depois, é bastante natural que a luz leve a pensar em Cristo, e a manhã, na ressurreição, alimentados como estamos por séculos de tradição e de piedade cristãs. Em três de quatro versos se fala de luz (sol, lux, dies), e é como se as trevas se tornassem um apêndice.

Mas o que mais me impressionou foi um dos três verbos, dehiscant, que não era familiar para mim e que contém um potencial de violência impressionante. Significa “rasgar, fender, dividir, desmembrar”! E o que se pede que seja rasgado é a escuridão que ocupa o coração, ou a mens, que é o mesmo. Não nos engane a semelhança com o italiano [e o português] “mente”, porque o termo latino, pelo menos na literatura monástica medieval, não coincide com a capacidade de raciocínio, traduzida mais como i, mas com aquilo que chamaríamos de “espírito”, a parte interior do ser humano e que, portanto, vai muito bem com “coração”, entendido no sentido bíblico de lugar onde se expressa o centro da pessoa naquilo que sente, experimenta e decide. Lá há trevas – diz o hino –, e se entende que elas devem ser tão densas a ponto de ser preciso rezar para que sejam literalmente “rasgadas”.

A contrição

Tanta literatura espiritual parece sentir um certo aborrecimento diante de uma linguagem violenta, como se a espiritualidade fosse feita apenas de graça e doçura. Esse sangramento semântico fez com que se perdesse no tempo o sentido literal de uma palavra que é de casa na linguagem da conversão que caracteriza a Quaresma: esquecemos que um termo como “contrição”, além disso ainda bem presente na língua, começando pelo verbo “tritare” [triturar], remete literalmente a um coração “despedaçado”, “fragmentado”!

O gesto com que batemos no peito para romper a sua dureza deveria nos lembrar disso, mas quem se dá conta disso? Quem ainda pensa que esse é o gesto do publicano, uma pessoa de quem ninguém tinha estima, que talvez sentisse tamanho fardo de desprezo sobre si a ponto de ter piedade de si mesmo? E é por isso que a única esperança que lhe resta, tendo perdido a dos homens, é a piedade de Deus.

Não sei se, e quanto, e quando é necessário que as pessoas e os acontecimentos da vida cheguem a encher o nosso coração de tamanha escuridão que se deva invocar a violência de um sol que rasga.

Não sei se, e quanto, e quando é necessário que se crie em nós tamanho estado de despedaçamento interior que nos faça suplicar pela chegada de uma luz que resplandeça sobre as ruínas e encoraje uma recuperação.

Não sei e nem me atreveria a pedir que isso ocorra. Como ocorreu, por sua vez, com um grande poeta inglês do século XVII, John Donne, que unia tal pedido a um dos seus admiráveis “Sonetos Sagrados”:

Bate no meu coração, ó Deus em três pessoas; agora
apenas bate, suspira, brilha e tenta curar;
para que possa levantar e ficar de pé, derruba-me e desdobre
a tua força para me quebrar, explodir, queimar e fazer-me de novo.

Retórica barroca? Talvez. Mas o poeta era de um temperamento dramático, daqueles que dificilmente sabem permanecer nas medidas intermediárias. E ele vivia em tempos dramáticos, nos quais a gentileza talvez tivesse permanecido apenas nas danças da corte, na música dos polifonistas e na delicada graça dos virginistas.

Confesso ter achado difícil traduzir ao italiano a esplêndida sequência aliterante dos três monossílabos do último verso, “break, blow, burn”, mas espero ter conseguido traduzir o claro contraste entre dois comportamentos de Deus, aquele manso do segundo verso (“knock, breathe, shine”), que remete ao personagem de Ap 3, 20, que está na porta do nosso coração e bate à espera de que lhe abramos, e o violento do quarto verso.

O que o Senhor quer me dizer?

Os místicos conhecem bem essa linguagem, aliás, bem presente na Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento, e, aliás, ele nasce não de uma comunicação direta de Deus, para nós impossível, mas daquilo que nós lemos como intervenção sua naquilo que ocorre conosco. E nem sequer é óbvio que deve ser um pedido, pelo qual temo que nos faltaria a coragem, mas pode muito bem ser um modo de compreender as coisas que vem a posteriori, no fim. E, então, aquilo que à primeira vista parecia um corte ruinoso pode se revelar uma rachadura que gradualmente se abre para uma paisagem luminosa, e é quando a pergunta “o que o Senhor quis me dizer com o que aconteceu comigo?” encontra uma resposta que gera luz e paradoxalmente nos recria, ou, para traduzir Donne literalmente, “nos faz de novo” (“make me new”).

É hora de parar sobre aquele que é o verdadeiro coração da estrofe: o retorno da luz, a das virtudes, que refletem o “Sol de justiça”, e que chegam a preencher um “dia” para o qual, mais uma vez, o latim usa um verbo sugestivo e rico em significado. Porque “reparar” significa algo que nos é restituído, dado novamente, devolvido, restaurado, curado.

Seria bom acordar de manhã nesse estado de acolhida agradecida de um cotidiano “inocente”. A luz nos é devolvida, o tempo nos é devolvido, a vida nos é devolvida, e tudo isso nos é devolvido como uma nova possibilidade, como um tempo renovado, como oportunidade para reparar as eventuais falhas do dia anterior.

Seria bom, mas, se isso não nos vem instintivamente, é a oração que no-lo recorda. Sobre isso, precisamos confiar um pouco mais no Espírito e nas suas surpresas.

Quantas vezes entramos na “Oração dos Dias” com um pouco de má vontade e bastante despreparados! Mas existe um truque simples que funciona sempre, e é se perguntar “que mensagem chega hoje até mim dos hinos, salmos, leituras, antífonas, orações?”.

A Liturgia das Horas, contanto que estejamos um pouco atentos e que a rezemos talvez com algumas perguntas dentro, incluindo as desagradáveis, raramente falta com uma palavra, uma imagem, uma frase que se acende na escuridão do coração, se não exatamente como um sol (mas isso também acontece!), pelo menos como um pequeno raio que também é uma reverberação daquele Sol. “Volte a luz das virtudes”, canta o hino, “enquanto restituis, refeito, o dia à terra.”

Isaac da Estrela, comentando uma frase do Cântico em que uma figura misteriosa avança como a aurora, como a lua, como o sol (Ct 3, 6), interpreta alegoricamente esse crescendo de luz como um caminho de conversão, discurso perfeitamente tematizado pela Quaresma. Nas três imagens, ele vê formas de uma justiça que se revela progressivamente: a inocência como luz interior (a aurora), a boa conduta que ilumina os outros (a lua), o zelo que encoraja os outros a se tornarem mais luminosos (o sol). Três modos de absorver o “Sol de justiça” para, depois, se deixar conduzir por ele na jornada.

O dia que se renova, em um eixo temporal mais longo, também remete à estação que se renova. Nesse sentido, a Quaresma é o tempo da primavera [no hemisfério Norte], o tempo do renascimento, o tempo em que a natureza, que parecia morta, recomeça a viver, sai da letargia do inverno para encher o mundo de brotos, folhas e flores.

A cor roxa que marca a liturgia desse tempo está muitas vezes associada a sensações lúgubres e pesarosas, esquecendo que as humildes e perfumadas violetas dos campos são a flor que mais caracteriza essa estação.

E depois os cantos, que os pássaros daqui, indiferentes aos abundantes vestígios de neve que permanecem na floresta, todas as manhãs entoam à glória de Deus.

Em tempos distantes, quando o contato com a natureza era total, a mudança de estação era percebida com uma alegria bem diferente da que existe hoje entre nós. Eu me lembro dos versos musicais de uma lírica inglesa medieval:

A primavera chegou com amor à aldeia
com as flores e o gorjeio dos pássaros.
Margaridas nos vales, doces cantos de rouxinóis,
cada ave canta a sua canção...

Que toda aurora, assim como toda primavera, realmente nos traga a luz refulgente do Sol de justiça, que nos ajude a crer, em um mundo em ruínas, que Ele existe e que a justiça não fugiu das nossas terras! E que ainda cabe a nós, discípulos desse Sol, vivê-la e irradiá-la para conservar a esperança.

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