Poder evangélico contra o feminismo. Artigo de Raúl Zibechi

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16 Março 2019

“O Brasil é o caso mais sintomático do crescimento evangélico e pentecostal. Os estudos que vão aparecendo mostram que o triunfo de Jair Bolsonaro foi possível graças ao eleitorado evangélico”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 15-03-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em algum momento nos próximos anos, a onda evangélica alcançará todos os países da América Latina, porque está crescendo de forma exponencial, está se convertendo em um tsunami social e político capaz de modificar os cenários que estamos acostumados. De modo que deveríamos aprender algo do que está acontecendo lá onde essa onda se impôs.

O Brasil é o caso mais sintomático do crescimento evangélico e pentecostal. Os estudos que vão aparecendo mostram que o triunfo de Jair Bolsonaro foi possível graças ao eleitorado evangélico. Entre a população católica, houve um empate entre Bolsonaro e o candidato do PT, Fernando Haddad. Entre as outras religiões, assim como entre ateus e aqueles que não professam nenhuma religião, houve uma leve maioria em favor do candidato de esquerda.

Contudo, a diferença foi avassaladora entre a população evangélica, entre a qual conseguiu mais que o dobro de votos e obteve uma diferença de 11 milhões, o que ratificou seu triunfo. Outras análises estimam que a maior diferença a obteve entre as mulheres pobres e evangélicas, onde a diferença em favor da extrema-direita seria ainda maior.

A mudança nas tendências religiosas é muito importante no Brasil, ainda que em outros países da região pareça estar ocorrendo um processo similar, embora mais suavizado. Em 1950, os católicos representavam 93,5% da população e os evangélicos 3,4%. Em 2010, a população católica havia caído para 64% e a evangélica alçava a 22%.

Em 2017, uma pesquisa realizada por uma fundação vinculada ao PT, mostrava que entre os moradores das periferias urbanas das grandes cidades estavam avançando valores individualistas, que favoreciam comportamentos conservadores. Um dos trabalhos mais interessantes, por seu caráter qualitativo, foi realizado no Morro da Cruz, a maior periferia pobre de Porto Alegre, que a partir de 1990 havia se destacado por sua crescente politização por meio do orçamento participativo, implantado pelo PT nessa cidade. O bairro votava massivamente em Lula, mas em 2018 guinou de forma também massiva para Bolsonaro.

A primeira conclusão da antropóloga Rosana Pinheiro, uma das organizadoras do estudo, diz que é impossível separar o bolsonarismo do antifeminismo. Observar as mudanças em uma mesma população ao longo de uma década, permitiu compreender com maior detalhe as motivações profundas daqueles que se voltaram para a ultradireita. Suas conclusões são tremendas, ainda que contestem outros estudos.

A crise econômica, a partir de 2014, afetou de forma dramática as periferias que se sentiram abandonadas pelo sistema político. Em paralelo, a partir dos protestos de junho de 2013 nasceu uma nova mobilização popular de mulheres, negros e LGBT. Para os adolescentes da periferia, o bolsonarismo era uma reação à nova geração de jovens feministas, que era inédita no Brasil, conclui a pesquisadora.

Muitos maridos apoiaram Bolsonaro como uma forma de agredir as mulheres, que agora estão mais empoderadas, acrescenta. Entre outras razões, porque é impossível separar a crise masculina da crise econômica, já que ambas se retroalimentam.

No Brasil, a luta pelo reconhecimento das minorias negras, LGBT e das mulheres se ampliou apenas nos últimos cinco anos. Segundo Pinheiro, grande parte da população vive tensão e insegurança com sua identidade, dividida entre o papel de oprimida e o desejo de estar ao lado do opressor. Conclui: Como consequência da colonização, há também uma luta constante para ser/parecer da elite. Isso explica a razão pela qual tantos pobres, negros e LGBT apoiaram Bolsonaro.

Acredito que estas análises iluminam alguns problemas que temos nos movimentos antissistêmicos, para enfrentar a nova direita.

A primeira coisa é que não há outro caminho a não ser o trabalho territorial com os setores populares, direto, sem atalhos institucionais ou políticas sociais. Só a presença militante no território pode nos permitir reverter esta situação. Não podemos atribuir nossos fracassos às redes sociais, nem aos meios de comunicação (que fazem o seu), mas ao nosso abandono dos territórios populares.

A segunda é que é urgente abordar o lugar dos varões, em geral, e o dos varões jovens pobres, em particular. Em um trabalho mais amplo, Pinheiro e sua colega Lucia Mury Scalco sustentam que um dos fatores decisivos para a formação de uma juventude bolsonarista foi a perda de protagonismo social e a sensação de desestabilização da masculinidade hegemônica.

Ficamos mal-acostumados a considerar que políticas macro, inspiradas no Banco Mundial, podem resolver os problemas políticos. As tecnologias sociais de cima não podem substituir a organização e a militância que, como a educação popular, são as únicas capazes de modificar as realidades de baixo.

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