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12 Março 2019

Marcello Pezzetti, o historiador (e diretor do novo Museu do Holocausto em Roma) que encontrou a primeira câmara de gás de Birkenau: “No Ministério das Relações Exteriores tinham conhecimento do extermínio”.

A entrevista é de Marcello Pezzetti, publicada por Corriere della Sera, 10-03-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Já esteve no campo de extermínio de Auschwitz mais de 250 vezes, muitas vezes por meses, e volta continuamente. Ele recuperou a primeira câmara de gás de Birkenau: em cima dela vivia uma família de camponeses poloneses que ignorava que estava cultivando seu jardim sobre as valas comuns.

"No passado, eu dormia no Kommandantur de Rudolf Hess, o criador dos "chuveiros" e dos fornos, enforcado em 1947 ao lado do crematório." E não tinha pesadelos? "Não, apenas uma sensação de desforra."

Marcello Pezzetti, diretor do novo Museu do Holocausto de Roma, é o mais importante historiador do Holocausto italiano, a única pessoa a ter entrevistado todos os 105 judeus que voltaram do campo. Agora com sua parceira alemã Sara Berger, ela também historiadora, encontrou um nicho escondido no Ministério das Relações Exteriores italiano. São documentos da diplomacia italiana, redigidos de 1938 a 1943, relativos à perseguição racial. Notas para o Duce, telegramas e notas confidenciais, agora reproduziam no ensaio Solo il dovere oltre il dovere (Apenas o dever além do dever, em tradução livre, Gangemi editore). A partir desses documentos fica claro que as embaixadas e os consulados, bem como o Palazzo Venezia (sede fascista) e o Palazzo Chigi, sede do Ministério das Relações Exteriores na época, todos sabiam tudo sobre o ''Endlösung der Judenfrage" a "solução final da questão judaica". Por exemplo, Roberto Venturini, cônsul em Skopje, no telegrama 417/92 de 16 de março de 1943, descreve o destino de 5.000 deportados, dos quais "podemos agora dizer que têm olhos apenas para chorar" à mercê dos guardas que "usam sob qualquer pretexto com sádica energia os chicotes que carregam”.

Eis a entrevista. 

Corajoso, o cônsul Venturini.

Sim. Ele observa que ‘a eliminação dos judeus da Macedônia teria sido pedida pela Alemanha por razões militares’ e denuncia ‘o desprezo mais absoluto pelos princípios humanitários mais elementares’. Graças a Venturini reconstruí a história de Susanna Pardo.

Quem foi?

Foi uma mulher italiana que foi morar em Bitolj com seu marido Davide, um judeu iugoslavo. Aimée Pardo, residente em Milão, no número 1 de Corso Vercelli, escreveu ao cônsul para ter notícias de sua irmã e da sobrinha Esperance, de apenas um ano de idade. Agora sei que são as duas únicas italianas mortas em Treblinka. Ninguém mais tirado da Itália desapareceu naquele campo.

Você conseguiu contar a alguém sobre isso?

Para Silvana, outra irmã de Susanna, que descobri que morava em Milão. Ela me deu suas fotografias e as últimas cartas.

Afundar as mãos nessa tragédia sem fim não abala a vontade de viver?

Pelo contrário, isso me fortalece. Os sobreviventes me ensinaram que à morte em massa se responde de uma única maneira: com a vida, aproveitando-a ao máximo possível. Você quer uma prova? Aos 61 anos, tornei-me pai de Samuel. Acabou de completar 4 anos. Minha outra filha, Vanina, que tem 46 anos e trabalha para a ONU em Tel Aviv, quando criança, ia comigo a Auschwitz. Eu pagava uma babá para fazê-la brincar com o trenó na neve enquanto eu procurava as provas do extermínio. Você não tem ideia de quantos documentos eu escondi em suas calcinhas.

Nas calcinhas?

Nos países do Leste Europeu está ainda em vigor uma regra: você não pode tirar nada que seja anterior a 1945. Sofri uma dúzia de prisões na Polônia, Alemanha Oriental, Checoslováquia e URSS. Certa vez, junto com Shlomo Venezia e sua esposa Marika. Ele era um dos últimos Sonderkommando de Auschwitz-Birkenau, quase todos eliminados pelas SS. Ele tinha a tarefa de extrair das câmaras de gás os corpos dos judeus eliminados com o Zyklon B.

Eu conheci os Veneza. Dois gigantes.

Sinto muita saudade de Shlomo. Eles nos prenderam na Polônia porque tinha comprado um velho yad, o ponteiro em forma de mão para ler a Torá.

Eu pensava que os comunistas eram amigos dos judeus.

(Risos). Não mesmo. Antigamente pareciam uma garantia contra o retorno do antissemitismo. Depois as ilusões desmoronaram. Além disso, o bolchevismo foi, com o capitalismo, uma desculpa perfeita para outras perseguições.

O historiador David Irving afirma que as câmaras de gás são uma invenção.

Delírios de um negacionista multi-condenado. Encontrei os projetos da Topf und Söhne de Erfurt, a empresa que construiu os sistemas de ventilação para arejar as câmaras de gás após cada massacre. Com os desenhos dos engenheiros Kurt Prüfer e Karl Schultze, as plantas e as fotos. Documentos em que se fala de ‘Gaskammer’.

O que Pio XII poderia ter feito, e em vez disso não fez, para parar o Holocausto?

Excomungar o nazismo.

Liliana Segre me disse: "Ele poderia ter se colocado na frente do comboio de 18 vagões de gado que, em 1943, levou para Auschwitz os 1.024 judeus capturados no gueto de Roma, incluindo mais de 200 crianças."

Não se pode esperar isso de um papa. São gestos corajosos de filme.

Porque em 1944, o Grande Rabino de Jerusalém, Isaac Herzog, declarou: "O povo de Israel nunca vai esquecer o que Pio XII e seus ilustres delegados estão fazendo para os nossos desventurados irmãos e irmãs na hora mais trágica"?

Porque era verdade, mesmo que oficialmente o papa ficasse em silêncio. Entrevistei a Irmã Emerenziana, 94 anos, que naquele 16 de outubro de 1943, em Roma, abriu as portas do Instituto São José em Chambéry aos judeus. "Não tínhamos indicações do que fazer, mas estavam em perigo", ela me disse. Foi assim que ela salvou Lia Levi, de 11 anos, futura escritora.

A "noite dos cristais" é de 1938, mesmo assim vi a lista telefônica de Berlim de 1941, completa com uma suástica na capa. Ao lado dos números do Partido Nacional Socialista, ministérios, SS, Gestapo, Wehrmacht e Luftwaffe, há uma seção Judische com sinagogas, escolas e hospitais judaicos. Como isso é possível?

Você sabe em que cidade alemã se escondeu e salvou o maior número de israelitas? Berlim. Até a Conferência de Wannsee de janeiro de 1942, que lançou a "solução final", não se sabia o que fazer com os Mischlinges, aqueles de sangue mestiço. Nem todos os alemães concordavam em sua supressão. Friedrich Bosshammer, o único nazista condenado por ter enviado para Auschwitz a maioria dos judeus italianos, recebeu prisão perpétua só por ter agido por própria iniciativa na deportação dos mestiços.

Você foi consultor do filme "A vida é bela".

Roberto Benigni me procurou. Eu expliquei o Holocausto para ele e levei os sobreviventes para o set.

Mas é possível rir do Holocausto?

Não. Mas pode-se rir "no" Holocausto. Como provou Romeo Salmonì, em quem Benigni se inspirou. Foi sua autoironia que o salvou do extermínio.

Você também colaborou com “Rua Alguém, 5555” , lançado sob o título “My father”.

Charlton Heston apareceu com o diretor Egidio Eronico para fazer o papel de Josef Mengele, o Dr. Morte de Auschwitz. O filme é centrado no filho único, que vai visitá-lo pela primeira vez em Manaus, na Amazônia. Eu pude conhecê-lo. É um caso humano. Seu nome é Rolf Mengele, ele mora em uma pequena aldeia na fronteira franco-alemã entre Estrasburgo e Stuttgart. Seu pai era obcecado por pesquisas sobre gêmeos. Ele os matou aos pares com injeções de fenol no coração para comparar as reações enquanto eles morriam. Conheço bem as duas irmãs Bucci, que escaparam dessas insanas experiências. Depois da guerra, a esposa de Mengele morou em Merano. Ele se abrigou na América do Sul, com sua cunhada. Simon Wiesenthal, o caçador de criminosos que na Argentina conseguiu que capturassem Adolf Eichmann, depois enforcado em Israel, revelou-me que em duas ocasiões esteve prestes a pegar Mengele, a primeira vez em um hotel em Milão, a segunda no Alto Adige.

Por que os sobreviventes do Holocausto ficaram em silêncio por tanto tempo?

As razões são várias. Porque eles se sentiam culpados por ainda estarem vivos. Porque acreditavam que a sociedade não queria saber. Porque pensavam ter delegado o testemunho a Primo Levi que, no entanto, nunca esteve em Birkenau. Porque queriam proteger seus filhos de uma dor imensa. Mas não foi bom, longe disso. Eles só entenderam isso nos anos 1990, com os netos. Infelizmente, naquele ponto, uma maré de pessoas apareceu e transformou a memória em uma profissão.

Uma suspeita que poderia atingir você.

Você acha? Quando, em 1997, com o diretor Ruggero Gabai e Liliana Picciotto, levei os sobreviventes em visita a Auschwitz, para gravar o filme Memória, eu não tinha um centavo. Uma senhora abastada me perguntou: "Falta-lhe alguma coisa?" Sim, os 35 milhões para pagar a viagem, eu respondi. No dia seguinte ela trouxe esse dinheiro para mim. A primeira vez que eu entrevistei Shlomo Venezia, consegui emprestado o operador e a câmera da correspondente do Vaticano do TG5, Marina Ricci Buttiglione, irmã de Rocco, o ex-ministro.

Desapareceram sumérios, acadianos, babilônicos, hititas, assírios, egípcios, fenícios e persas. Os israelitas são o único povo da antiguidade que chegou até nós. Como se explica?

Explica-se assim: eles preservaram sua identidade ao longo dos séculos. Eles se integraram sem nunca se deixar assimilar.

É justo investigar por difamação e ódio racial Elio Lannutti, senador do M5S, que citou os Protocolos dos Sábios de Sião para denunciar que as finanças mundiais seriam controladas pelos judeus?

Ele me causa pena. É uma medida do estado de saúde da sociedade. É um termômetro. Isso significa que a Itália não está bem, está com febre.

Você teme o retorno do antissemitismo?

O antissemitismo nunca terminará. É um rio subterrâneo. Você não o vê, mas corre lá embaixo.

Você não gostaria de sair de Auschwitz?

Quando me perguntam por que eu entrei, não entendo a pergunta. Você não pode entrar. E também não pode sair.

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