“Devemos passar do silêncio a uma cultura da denúncia”. Entrevista com Charles Scicluna

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06 Março 2019

O arcebispo maltês Charles Scicluna, especialista do Vaticano na questão da pedofilia, não tem dúvidas: a questão mais urgente para superar a crise na Igreja Católica decorrente do escândalo dos abusos sexuais de menores cometidos por sacerdotes “é a transformação de uma cultura que passe do silêncio como mecanismo de defesa a uma cultura da denúncia, como sede de verdade e justiça”.

A entrevista é de Elisabetta Piqué, publicada por La Nación, 05-03-2019. A tradução é de André Langer.

“Isso é urgente, mas levará tempo”, reconheceu Scicluna, que, em uma entrevista para o jornal La Nación, destacou a importância da reunião sobre a proteção de crianças e adolescentes que aconteceu no Vaticano há uma semana, reunião da qual foi um dos organizadores.

Com 59 anos, Scicluna é famoso por sua investigação sobre a congregação Legionários de Cristo e por ter sido o enviado especial do Papa ao Chile há um ano. Foi “promotor de Justiça” da Congregação para a Doutrina da Fé durante anos, até que, em 2012, foi nomeado arcebispo de Malta. Com enorme credibilidade entre as vítimas, em novembro passado o Papa decidiu trazê-lo de volta ao Vaticano como “peso pesado” da Congregação para a Doutrina da Fé, designando-o como seu “secretário adjunto”.

Eis a entrevista.

Como avalia a reunião?

Estou muito contente. A reação dos participantes de todo o mundo foi muito positiva, porque foi uma experiência única: no encontro com as vítimas se vê o eco de um sofrimento humano muito grande, o eco do mal que se faz, mas também o eco de Jesus que sofre. E isso transforma o coração do pastor.

Você acha que tudo isso serviu para alguma coisa?

Para mim, um fruto desse encontro deve ser a vontade de continuar ouvindo as vítimas. Por isso, espero que os episcopados possam seguir exemplos que já existem no mundo e criem centros de escuta nas dioceses. Também é muito importante o que falamos sobre a responsabilidade, a obrigação de prestar contas e a transparência que os bispos devem ter ao se deparar com um caso.

Você falou de um “ponto sem retorno” desta reunião...

Sim, marcou um ponto de inflexão, porque coloca na agenda de todos os líderes da Igreja essa praga, que não deve ser subestimada, não pode ser esquecida. Todo tipo de mecanismo de remoção, que já sabemos que é negativo e contraproducente, deve ser excluído.

As vítimas, que ficaram decepcionadas com a falta de medidas concretas, criticaram muito o discurso final do Papa, porque falou dos abusos como uma manifestação do espírito do mal, do diabo...

A mensagem do Papa deve ser tomada no contexto específico. Em primeiro lugar, é uma mensagem epocal, e a Igreja em mensagens epocais usa uma linguagem teológica profunda, nem sempre muito compreensível. É óbvio que foram sacerdotes concretos que abusaram de muitos inocentes. Mas são cúmplices do maligno, do qual nós, na oração do Pai-Nosso, pedimos para sermos libertados, como Jesus nos ensinou: “Livrai-nos do mal, não nos deixes cair em tentação”. O Papa falou de uma luta em chave quase apocalíptica, no sentido de que vê esse mal, que destrói totalmente o coração, as pessoas, a psique, como uma expressão do ódio do maligno para com a humanidade.

Por que durante a reunião nunca se mencionou a “tolerância zero”? O Vaticano quer “tolerância zero” ou não?

Em primeiro lugar, a Santa Sé já aprovou uma lei especial para os Estados Unidos já em 2003 que diz que uma pessoa culpada de abuso sexual não pode permanecer no ministério. Esta é uma política clara para grande parte dos países que sofreram o impacto desta crise e está em vigor no Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, País de Gales, Escócia e Irlanda. Por outro lado, apesar da “tolerância zero” ser um slogan, o conceito destaca uma frase muito mais clara de São João Paulo II, que em 2002 assegurou que “não há lugar no sacerdócio ou na vida religiosa para aqueles que podem fazer o mal a crianças”. Isso, para mim, é um critério prudencial, não penal, que deve acompanhar cada bispo na aplicação das leis e na proteção de sua grei. Um sacerdote culpado não pode estar no ministério público. E este princípio está em um dos 21 pontos de reflexão entregues pelo Papa aos bispos durante a reunião.

De todas as propostas que apareceram, para você, o que é mais urgente fazer?

O mais urgente é a transformação de uma cultura que passe do silêncio como mecanismo de defesa a uma cultura da denúncia, como sede de verdade e justiça. Isso é urgente, mas levará tempo.

Você admitiu que no Vaticano reinou durante muito tempo um código do silêncio...

Eu não diria no Vaticano, mas em diversas experiências da Igreja...

Este código do silêncio acabou ou não?

Penso que não posso dizer se sim ou não. Mas acho que ainda não estamos plenamente em uma cultura da denúncia. Porque há culturas na África ou na Ásia, onde o silêncio é um mecanismo para defender a dignidade da pessoa.

A direita americana e a ala ultraconservadora que ataca o Papa estão convencidas de que um problema muito mais grave do que o dos abusos é a homossexualidade entre os membros da Igreja. O que pensa?

Como já disse, não se pode culpar uma categoria de pessoas porque o mal é uma expressão da concupiscência que todos nós temos, heterossexuais e gays. Nós não julgamos categorias de pessoas. Julgamos os casos e cada caso é uma tragédia em si.

Sempre houve uma luta interna no Vaticano sobre como enfrentar a questão dos abusos. Como é essa luta interna?

Mais do que lutas internas, eu diria que funcionam diferentes mecanismos de defesa. Para mim, o primeiro instinto é remover o problema, porque a vergonha é muita e destrói um ideal de sacerdócio louvável. Mas deve-se dizer que hoje o que se vê na cúria é um pouco o confrontar-se com uma realidade que não é agradável, mas com um senso de realismo. Eu não vejo conflitos de perspectiva agora, mas não se pode negar que há quinze ou vinte anos as perspectivas na Santa Sé eram diferentes.

Hoje já é diferente?

Hoje vejo disposição para fazer bem as coisas, porque a liderança dos pontificados de Bento e Francisco é unívoca.

Para você, o quanto a credibilidade da Igreja está ferida?

Ao ouvir as vítimas, percebe-se que devemos começar do zero quando se trata da credibilidade. Para mim, a credibilidade neste ponto deve ser reconstruída com humildade, dia a dia. Não é uma questão que é concedida a priori, mas que deve ter a prova dos fatos. A credibilidade não vem de palavras bonitas, mas de compromissos vividos.

Pode a Igreja superar esta crise, que é uma das mais graves da sua história?

Espero que sim: está em jogo o Evangelho e não temos alternativa.

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