Cardeal Pell: entendendo o veredito e a fúria

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06 Março 2019

“O cardeal Pell parece ter sentido que de alguma forma a lei civil não se aplicava a ele. No mínimo, a condenação de Pell deixa absolutamente claro que a Igreja está sujeita à lei civil e que a impunidade clerical não será tolerada. Todos os católicos, especialmente padres, bispos e o Vaticano precisam pensar muito seriamente sobre isso.”

O comentário é do historiador australiano Paul Collins, autor de Absolute Power [Poder absoluto] (Public Affairs, 2018). O artigo foi publicado em National Catholic Reporter, 04-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Paul Collins é historiador e escritor de Canberra, na Austrália. É mestre em Teologia pela Harvard University e doutor em história pela Australian National University. Padre católico por 33 anos, renunciou ao ministério sacerdotal ativo em 2001, devido a uma controvérsia com o Vaticano a partir do seu livro Papal Power (1997). Seu livro God’s Earth foi transformado em um documentário de TV. Sua obra Judgment Day. The struggle for life on Earth (University of NSW Press), é sobre ecologia e religião.

Paul Collins foi entrevistado por IHU On-Line em 02-07-2011. A entrevista pode ser lida aqui.

Eis o texto.

A terça-feira, 26 de fevereiro de 2019, provavelmente será lembrada como o pior dia em toda a história de 231 anos do catolicismo australiano. Pensávamos já ter visto de tudo nos quatro anos da Comissão Real sobre o Abuso Sexual Infantil, especialmente quando foram relatadas histórias terríveis de maus tratos a crianças pelo clero e em instituições católicas.

Mas a condenação de George Pell supera essa vergonha. Os católicos australianos estão atordoados, ultrajados e zangados com a falta de responsabilização e com a traição, pois somos deixados completamente sem liderança por bispos que parecem ter corrido em busca de proteção dos fiéis católicos e de todos os outros.

Primeiro, os fatos da condenação de Pell. Havia dois conjuntos de acusações. O primeiro se referia a dois incidentes em dezembro de 1996 e no início de 1997 na Catedral de St. Patrick, em Melbourne, logo depois que Pell foi nomeado arcebispo de lá. Depois de um julgamento de três semanas, em 11 de dezembro de 2018, ele foi considerado culpado de penetrar sexualmente em um menino de 13 anos de idade, assim como de quatro acusações de atos indecentes com o mesmo menino e com outro menino do coro.

No entanto, houve outra série de acusações de assédio indecente contra meninos em uma piscina na cidade natal de Pell, Ballarat, nos anos 1970, quando ele era padre. Essas acusações não foram a julgamento, então o juiz Peter Kidd impôs uma “ordem de mordaça” aos meios de comunicação, para que os potenciais jurados não soubessem e não fossem influenciados pelas condenações da catedral.

Mas, na era das mídias sociais, essas mordaças são inúteis, e, quando as acusações de Ballarat foram retiradas pelos promotores na terça-feira passada, a ordem foi suspensa, e a tempestade de fogo começou.

Pell alega fortemente a sua inocência e recorreu; provavelmente levará vários meses antes que o recurso seja ouvido. Alguns católicos, entre eles progressistas, acham que o recurso se baseia em motivações fortes e que Pell será considerado inocente. Eles o veem como um bode expiatório para todos os fracassos e erros da liderança católica. Outros católicos aceitam o veredito de culpa e acham que o recurso se baseia em motivações frágeis.

Há uma raiva fervilhante dentro da ampla comunidade australiana, em grande parte alimentada pelas mídias sociais, sobre o abuso sexual e os encobrimentos por parte da Igreja. Após a condenação de Pell, isso explodiu. “Catolicismo”, agora, é um “palavrão” na Austrália, e, assim como na maioria dos países anglófonos, há um profundo fanatismo sectário contra os católicos que surge em tempos como estes.

Além da raiva e do ultraje, o que realmente está acontecendo?

Natural da cidade provincial e da Diocese de Ballarat, desde o fim dos anos 1980, Pell tem sido uma figura influente na Igreja e no Estado. Formado em Roma e com um doutorado em Oxford, ele foi sucessivamente reitor do Seminário de Melbourne em 1985 – ao chegar, demitiu todo o pessoal moderadamente progressista –, bispo auxiliar em 1987 e arcebispo de Melbourne em 1996. Mudou-se para Sydney em 2001 e, em 2014, tornou-se o chefe financeiro do Papa Francisco.

A trajetória eclesiástica de Pell foi apoiada por um pequeno mas poderoso grupo de católicos reacionários. Eles o viam desde cedo como um guerreiro cultural e foram astutos o suficiente para usar suas conexões romanas para promover a sua carreira. De 1990 a 2000, ele foi membro da Congregação para a Doutrina da Fé sob Joseph Ratzinger. Ele era visto como um bispo ideal de João Paulo II: doutrinariamente rígido, disposto a confrontar a sociedade secular, duro com os dissidentes católicos e inabalável na proteção dos interesses da Igreja.

Durante sua década na Congregação para a Doutrina da Fé, pelo menos três australianos (eu era um) foram “delatados” e submetidos a exame doutrinal pela Congregação.

Mas Pell era ativo em Roma em outras frentes. Através da amizade com cardeais da Cúria, como Giovanni Battista Re na Congregação dos Bispos, ele começou a influenciar a nomeação dos bispos australianos. Sob qualquer avaliação, deve-se dizer que isso resultou na nomeação de vários clérigos hiperortodoxos, sem qualquer senso pastoral.

Antes do impacto de Pell sobre as nomeações, os bispos australianos geralmente adotavam uma postura conciliadora e tolerante; clericalista, sem dúvida, mas essencialmente pastoral. Mas, no fim de 1998, os bispos foram derrotados por um minúsculo grupo de leigos reacionários, com o apoio de Pell, no Sínodo para a Oceania em Roma. Havia reclamações constantes da Austrália a Roma sobre o “estado lamentável” da “ortodoxia” doutrinal e sobre os “desvios” pastorais, como o Terceiro Rito da Reconciliação com absolvição geral.

Uma “Declaração de Conclusões” foi imposta aos bispos, incluindo uma lista das “fraquezas” do catolicismo australiano. Estas incluíam uma crise de fé decorrente da “tolerância” cultural, que levava diretamente à “indiferença” em relação à fé e à moral. Também houve crises em torno da “cristologia”, da “antropologia cristã” e da “eclesiologia”, todas referências claras aos pontos de vista dos três dissidentes já relatados à Congregação para a Doutrina da Fé. A declaração caiu como um balão de chumbo entre os australianos em geral e na mídia; se há uma coisa que você não pode atacar aqui, é a nossa suposta “tolerância”.

No ano 2000, Pell era uma figura nacional. Ele apresentava uma imagem de ortodoxia rígida, e a sua persona pública não era sorridente, seu estilo de fala era rígido. Havia uma clara falta de empatia na sua apresentação; as pessoas sentiam que ele era arrogante. Nas interações pessoais, aparecia um Pell diferente, agradável, bon vivant, com senso de humor. Em Melbourne e Sydney, ele construiu relacionamentos com pessoas poderosas e ricas, como comprova o fato de que o ex-primeiro-ministro John Howard escreveu uma referência de caráter para ele ao juiz Kidd.

Ele expressava opiniões sobre toda uma gama de assuntos, mas particularmente sobre questões relacionadas a gênero e sexo, em uma retórica forte e inflexível. Sua intransigência insensível e às vezes pitoresca o tornava infame, assim como seu comentário de que a atividade homossexual era “um perigo muito maior para a saúde do que fumar”. Seu sincero negacionismo sobre o aquecimento global, que ele constantemente promovia em sua coluna regular em um jornal de propriedade de Murdoch, enfurecia totalmente os cientistas.

Logo ele se tornou o rosto de um estilo católico rígido, arrogante e impiedoso, que absolutamente não queria se comprometer com a cultura mais ampla. Um exemplo foi quando ele impediu que as Irmãs da Caridade do Hospital St. Vincent, em Sydney, montassem uma sala de injeção segura e com supervisão médica para viciados em heroína.

Seu livro God and Caesar [Deus e César], de 2017, atacava a “heresia generalizada” do “primado da consciência”, que, segundo ele, levava os católicos a “uma visão desordenada da sexualidade humana” que lhes permitia aprovar a contracepção, o aborto e a pesquisa destrutiva de embriões. Pell chama o primado da consciência de “heresia do Pato Donald”, baseada em “uma convicção inabalável de autojustificação”, que frequentemente resulta em decisões desastrosas. Muitas vezes, ele falava dos “duros ensinamentos de Cristo”, que ele não estava disposto a suavizar de modo algum.

Talvez a principal fonte de fúria pública em relação a Pell foi a sua resposta ao abuso sexual. Ainda em 1990, eu tomei conhecimento do abuso sexual do clero por meio do National Catholic Reporter e de jornalistas como Jason Berry. Eu tentei, sem sucesso, alertar os bispos australianos. No entanto, no fim dos anos 1990, eles começaram a perceber o tamanho do problema e agiram para criar um processo nacional chamado "Towards Healing" [Rumo à cura] para ajudar as vítimas. Nunca trabalhando em equipe, Pell criou seu próprio processo conhecido como Melbourne Response". Isso significava que ele mantinha o controle, especialmente dos pagamentos financeiros.

Depois de se mudar para Sydney, ele se tornou muito duro com os denunciantes de abuso que saíram dos sistemas estabelecidos pela Igreja e processaram a arquidiocese. Um exemplo infame foi o caso John Ellis, quando os advogados de Pell alegaram que a Igreja não podia ser processada porque seus bens estavam sendo mantidos como garantia. Acontece que os advogados estavam certos, mas as consequências dessa decisão para a Igreja foram muito mais desastrosas do que qualquer pagamento financeiro. Ellis, que havia sido seriamente abusado por um padre, foi jogado de lado e totalmente esmagado sem a menor tentativa de cuidado pastoral ou empatia. Todos os advogados e Pell se preocupavam com a publicidade negativa, mas, enquanto o conhecimento do caso Ellis se espalhava, foi exatamente isso que a Igreja recebeu.

É esse tipo de comportamento que está na raiz da fúria pública em relação a Pell e ao catolicismo. As pessoas veem isso como hipocrisia. Ali estava o homem que limitava os pagamentos às vítimas e que perseguiu John Ellis até um colapso e quase a falência, e que agora era considerado culpado de abuso sexual.

Enquanto os advogados de Pell tentavam reduzir a duração de sua prisão após o veredito de culpa, o juiz Peter Kidd foi franco: “Eu quero deixar claro que vejo isso como um sério exemplo desse nível de ofensa. Eu vejo isso como uma ofensa insensível e desonesta. Clamorosa. Eu acho que envolveu uma quebra de confiança. Ele tinha em mente algum senso de impunidade. Senão, como ele achava que iria se safar com essa exploração de dois meninos vulneráveis?”.

A palavra “impunidade” é a pista aqui. Pell parece ter se sentido além do escrutínio comum, que de alguma forma a lei civil não se aplicava a ele. No mínimo, a condenação de Pell deixa absolutamente claro que a Igreja está sujeita à lei civil e que a impunidade clerical não será tolerada. Todos os católicos, especialmente padres, bispos e o Vaticano precisam pensar muito seriamente sobre isso.

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