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04 Março 2019

Como as religiões se referem à realidade em sua linguagem e em seus símbolos? Se observarmos os múltiplos fenômenos das várias religiões, uma das questões com as quais nos defrontaremos será como se referem à realidade e que realidade encontramos nelas. Os seres humanos colocam em relação a si mesmos e ao seu mundo não só com realidades empíricas finitas, mas também com Deus, uma totalidade ou outra forma de transcendência - dependendo de como esta for concebida em sua religião. A partir disso, definem sua identidade religiosa. A pluralidades das identidades de confissões suscita a questão de saber se a consciência religiosa dos indivíduos se refere à realidade ou se, ao contrário, representa produtos da cultura humana desenvolvidos ao longo da história para lidar com a vida cotidiana.

O comentário é de Hans-Peter Grosshans, professor do Departamento de Teologia Protestante da Universidade de Münster, publicado por il manifesto, 28-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Se entendermos a religião como um baluarte contra a contingência, então as religiões são muitas vezes interpretadas com ordens heteronômicas ou teonômicas, que são imutáveis e estáveis em um mundo mutável. Mas, então, o quanto é real o horizonte, que é mediado por uma religião, para vida e a ação humana, e também para a própria autointerpretação da vida humana?

O que há de real em todas as ideias que são utilizadas no processo de interpretação religiosa da vida?

A religião não diz respeito ao conhecimento, mas a uma forma específica de interpretação humana: a interpretação da realidade no horizonte do infinito, do todo, do eterno e do necessário.

Essas quatro dimensões transcendentais da ideia do absoluto incondicionado atendem uma função de conferir sentido. A religião impõe significado à realidade que é vivenciada como natureza e história.

De acordo com Wittgenstein, o significado de uma expressão se constrói pelas regras de seu uso em situações sociais concretas: se nos perguntamos o significado de uma expressão, devemos analisar o seu uso em contextos concretos e culturais. O realismo tem uma longa história, em que sua definição e as concepções opostas mudaram de tempos em tempos. No século XX, então, foi em decorrência de "Filosofia da linguagem comum" que o realismo apareceu novamente na agenda filosófica. Esse novo tipo de realismo deriva de problemas da filosofia da linguagem.

Aqui, o realismo geralmente defende que os nomes e os termos que são usados em uma teoria em relação a uma área definida, referem-se a objetos que existem independentemente do pensamento e do discurso humano. Tal posição geral se combina com as afirmações de que a verdade é independente da justificação racional; que há uma rígida valência dupla - verdadeiro ou falso - e que uma teoria da verdade como correspondência é possível; e que a semântica de nossas sentenças deve ser concebida como consequência das condições de verdade objetivas. Se conectarmos essas considerações gerais a "Deus", então torna-se concebível que a palavra "Deus" expresse uma referência que não é idêntica à respectiva consciência humana de Deus e que não se refira apenas a tal consciência. É impossível entrar nos detalhes da ampla discussão filosófica sobre esse tema. Pode-se apenas mencionar a ideia de que não existem muitas justificativas para a suposição de que o próprio mundo real nos dá a maneira com que deve ser ordenado em objetos, situações, propriedade, etc. Esse ponto foi evidenciado no antirrealismo. Se o mundo real não nos diz como deveria ser ordenado na linguagem, então os significados podem ser constituídos apenas pela maneira como eles são formados, e a verdade de uma proposição só pode ser justificada apenas dentro de uma linguagem. A verdade, portanto, não pode consistir em uma correspondência a uma suposta verdade, é sim "uma idealização da aceitabilidade racional" no contexto de uma linguagem que é usada em um discurso específico.

Se seguirmos esse ponto de vista, então a realidade de Deus pode "ser vista apenas a partir da tradição religiosa em que o conceito de Deus é utilizado". O uso da linguagem religiosa é a forma de vida em que o discurso da realidade de Deus deve ser colocado. Até mesmo aquela entre real e irreal é uma distinção que fazemos em nossa linguagem, mas como é feita a distinção entre o que é real e o que não real, é esclarecido no uso concreto da linguagem. Isso também se aplica ao discurso religioso sobre a realidade: nas expressões verbais da fé cristã, é expressa uma visão específica da realidade.

O discurso cristão sobre Deus pode ser caracterizado pela ideia de que a sua realidade não pode ser plenamente conhecida e confirmada. O conhecimento e a linguagem humana não podem compreender completamente a realidade de Deus e, portanto, tal realidade desafia a cada oportunidade os seres humanos a novos conhecimentos, pensamentos e palavras.

O Deus uno e trino, que é revelado através e na linguagem, deve ser concebido nesse sentido como real, assim como é afirmado na linguagem da fé cristã, aquela das Sagradas Escrituras, e que é usada pela e na igreja cristã. Se os fiéis cristãos falam da realidade de Deus, não afirmam um existir de Deus isolado; pelo contrário, é a sua presença na história e nas relações que são afirmadas. Fazer referência a essa realidade de Deus não seria possível sem a linguagem que a expressa. A pretensão da fé cristã é justamente aquela de se referir com essa realidade do Deus uno e trino, de definir a identidade cristã em relação a ela e de orientar os seres humanos com essa referência no mundo.

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