Reação de católicos conservadores à cúpula sobre abusos revela muita coisa

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28 Fevereiro 2019

Verificar como os católicos norte-americanos conservadores reagiram à cúpula sobre os abusos sexuais no Vaticano seria engraçado se não fosse tão lamentável. Depois de tantos anos criticando o National Catholic Reporter por cobrir a história (entre outros sinais de indiferença ao Evangelho), eles agora decidiram arregaçar as mangas. Eles sentem uma vulnerabilidade no Papa Francisco sobre essa questão, sobrecarregado como está com uma Cúria que tem aperfeiçoado a arte de sabotar a reforma durante séculos. Eles pretendem subir nesse trem se puderem. Mas seus comentários revelam mais seus preconceitos do que qualquer outra coisa.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada em National Catholic Reporter, 27-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tim Busch, fundador do Instituto Napa, membro do conselho da EWTN, financiador da escola de negócios da Universidade Católica que leva o seu nome, ocupou as páginas do Wall Street Journal para sugerir que os leigos, os fiéis leigos, se levantarão contra o flagelo do abuso sexual do clero, não importa o custo, porque os bispos falharam em fazer isso.

Chutzpah. Esse é o homem que contratou o infeliz ex-arcebispo de St. Paul e Minneapolis, John Nienstedt, como uma espécie de capelão para o seu Instituto Napa e não pestanejou diante do fato de Nienstedt afagar um notório abusador de crianças, entre outras coisas. Busch só demitiu Nienstedt no ano passado, quando a incongruência se tornou visível demais para ser ignorada por mais tempo. Será que Busch alguma vez pediu a divulgação pública do documento compilado pelos investigadores sobre o comportamento de Nienstedt? Será que eu perdi essa parte?

Você pode contar com o pessoal do Church Militant para se decepcionar com a cúpula. Eles queriam que os bispos se concentrassem no flagelo da homossexualidade entre o clero, não no flagelo do abuso sexual de menores por parte do clero. Isso apesar do fato de que não existem estudos respeitáveis que indiquem um vínculo entre os gays e o abuso sexual de menores e de que a maioria dos abusos sexuais contra menores aconteça dentro das famílias e envolva homens que violam meninas.

Um episódio do programa “The Vortex” [disponível aqui, em inglês] referiu-se à reunião como uma “Cúpula das Mentiras” e chamou os organizadores de “mentirosos [que] estão se desviando da história real. São todos parte da corrente homossexual identificada pelo arcebispo Viganò”. Noto de passagem que, quando cliquei no link, recebi um anúncio da campanha de reeleição do presidente Trump. Apenas um auto-da-fé com alguns clérigos gays os satisfaria.

O LifeSiteNews chamou muito a atenção nas coletivas de imprensa durante a cúpula. Você pode ver o vídeo de uma sessão aqui. A repórter deles perguntou, em um discurso desconexo, fingindo ser uma pergunta, sobre a conexão entre os gays e o abuso sexual, e o arcebispo Charles Scicluna foi sucinto em sua resposta de que as duas coisas não têm nada a ver uma com a outra. Todas as reportagens do LifeSite antes, durante e depois da cúpula enfocam a questão da homossexualidade.

O professor de teologia da Universidade Católica Chad Pecknold escreveu uma das colunas mais tolas antes da cúpula, como eu observei na semana passada. Eu não vi outra coluna dele desde então, mas sua conta no Twitter está repleta de homofobia. Ele retuitou uma postagem de Edward Pentin, correspondente em Roma do National Catholic Register, no qual Pentin cita um bispo africano reclamando que “a questão homossexual não foi sequer mencionada a fim de manter o foco”. E Pecknold retuitou uma queixa semelhante de J. D. Flynn, acrescentando o comentário: “McCarrick foi recém-laicizado por abusar de menores e adultos do sexo masculino. A impressão é de que a realidade não está sendo enfrentada”.

Para essa multidão, o caso de Theodore McCarrick é a tempestade perfeita, combinando comportamento predatório contra menores e homens jovens, o equivalente eclesial da história de Jussie Smollett em relação à Fox News, um incidente terrível e lamentável que eles vão usar para bater seus tambores durante anos.

Mas atenção: McCarrick enfrentou um tribunal na Congregação para a Doutrina da Fé, e não um júri composto por seus pares. No entanto, um júri dos colegas do cardeal George Pell não o considerou culpado por abusar de menores do sexo masculino. Nós não ignoramos levianamente um veredito do júri, não é? Fui informado por pessoas que não gostam de Pell que elas têm sérias dúvidas sobre o julgamento, e o cardeal anunciou que pretende recorrer. Espero que a verdade seja reivindicada, seja ela qual for. Mas em que o caso dele é diferente do de McCarrick neste momento e com as evidências que temos? Encontraremos contorções dignas do Cirque du Soleil tentando enquadrar esse círculo nos próximos dias.

A análise tendenciosa não esteve apenas entre as alas lunáticas. Na First Things, um olhar sobre a cúpula foi publicado sob o pseudônimo de “Xavier Rynne II”, mas o autor não é o Pe. Francis X. Murphy, o escritor cujos despachos do Concílio Vaticano II para a revista New Yorker foram publicados sob esse nome. Eu não sei ao certo se o autor é George Weigel, mas suspeito que sim, porque o artigo abordou muitos dos seus temas de passatempo. E quem mais incluiria tantas referências aos escritos de São João Paulo II sem reconhecer o grau em que seu papado é responsável pelos anos de acobertamento do abuso sexual, senão Weigel?

Este novo e falso Rynne escreveu: “O foco afiado da reunião na ‘proteção dos menores’, essencial como meta, mitigou uma profunda luta com o escândalo mais abrangente do mau comportamento sexual clerical, do qual o abuso dos jovens é uma expressão (embora a mais horrível)”. A razão para o foco no abuso de menores se deve ao fato de isso ser um pecado e um crime. Algumas outras formas de abuso sexual também podem ser criminosas, como o assédio sexual de um subordinado, mas esses abusos são tratados de maneira muito diferente nos regimes jurídicos de países diferentes. E, é claro, existe a fragilidade humana, que pode ser pecaminosa e mais facilmente perdoada, a menos que se seja um jansenista que leu em excesso a “Teologia do Corpo”.

O artigo também referenciava “a relação da dissidência doutrinal com a crise dos abusos”, uma consideração que poderia ser sensata e importante ou poderia ser sinistra e perigosa. Dado o restante do artigo, inclino-me para a segunda opção.

Um dos aspectos mais impressionantes da confusão em torno dos abusos sexuais do clero é o grau com que o flagelo e o encobrimento foram indiferentes ao caráter ideológico, envolvendo tanto “dissidentes” liberais quanto fundamentalistas conservadores. Do mesmo modo, fico nervoso com os pedidos de maior envolvimento dos leigos, quando se trata tão fortemente das arquibancadas estadunidenses de direita.

Por último, alguém mais acharia impressionante que a First Things publique qualquer coisa sobre o assunto dos abusos sexuais do clero sem primeiro pedir desculpas pela posição do seu editor fundador?

Esses comentários me fizeram pensar: como seria a cúpula se ela tivesse sido organizada por clérigos e leigos conservadores dos EUA? O professor Pecknold ofereceria uma apresentação sobre como o culto ad orientem poderia ter contido o abuso sexual do clero.

Weigel poderia explicar como o ensinamento e as ações de São João Paulo II foram consistentes nessa questão e como ele corajosamente apontou o caminho a seguir. Ele poderia ser acompanhado pelo cardeal Stanislaw Dziwisz.

J. D. Flynn poderia explicar as origens da homossexualidade.

O cardeal Raymond Burke poderia explicar como a Carta para a Proteção de Crianças e Jovens deveria sempre ter sido aplicada aos bispos, embora tenha sido ele quem disse à comissão de redação em 2002 que ela não poderia ser aplicada.

Tim Busch poderia explicar como a reestruturação da Igreja, de modo a ter um conselho corporativo de católicos ricos, conservadores e “fiéis”, limparia a bagunça.

Eu me pergunto se tais procedimentos convenceriam alguém, exceto a eles mesmos, de que a Igreja Católica estava levando a sério a prevenção aos abusos.

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