Um pároco do interior e o apelo do cardeal

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12 Fevereiro 2019

Li e reli o apelo do cardeal Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, publicada sábado, 9 de fevereiro, após manchetes bombásticas de alguns jornais, como o "manifesto da fé", lançado pela agência Livesitenews e traduzido em sete idiomas. Os comentários dos colunistas tendem a imaginar a adversidade ao papa Bergoglio de grupos conservadores norte-americanos, mesmo que o papa nunca seja mencionado.

O comentário é de Vinicio Albanesi, publicado por Settimana News, 11-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na verdade, o texto me causou tristeza e enternecimento. A estrutura do apelo é uma síntese (um pequeno Bignami católico) do Catecismo da Igreja católica. O cardeal parte da frase que lhe permite fundar no Catecismo, "norma segura para o ensinamento da fé", o seu apelo em cinco pontos: Deus, uno e trino, revelado em Jesus Cristo, a Igreja, a ordem sacramental, a lei moral e a vida eterna.

A tristeza decorre da estrutura do apelo. Parte da concepção doutrinária de uma Igreja substancialmente composta por Bispos que são chamados para salvaguardar o povo de Deus "dos desvios e das falhas".

É a concepção do Código de Direito Canônico de 1917, que, a propósito dos fiéis cristãos, chamava-os mais de 60 vezes de “súditos”, título que se manteve (ainda que por apenas três vezes) no novo Código de 1983.

A fé é reduzida à adesão à doutrina; os textos bíblicos são citados para fins de demonstração, longe do sentido profundo de seu contexto, como já declarava o falecido bispo E. Corecco a propósito da revisão do antigo Código.

No apelo, portanto, há duas premissas que não podem ser compartilhadas: a primeira, considerar a Igreja como sendo apenas hierárquica; a segunda (de método), adotar o esquema dedutivo pelo qual alguém afirma a verdade (a hierarquia) e outros obedecem (o povo de Deus).

Esse esquema relembra antigos teólogos e canonistas que concebiam a Igreja como uma societas perfecta, dotada com todas as ferramentas para ser não só autônoma do Estado, mas inclusive superior a ele, copiando sua configuração.

Parece que o Concílio, para o cardeal, não tenha dito nada sobre a Igreja: mas, ao contrário, ela foi definida como sacramento de salvação, povo de Deus, comunhão, comunidade estruturada hierarquicamente. Não por acaso o documento conciliar Lumen gentium, também citado no apelo, coloca o povo de Deus (capítulo dois) à frente da constituição hierárquica da Igreja e, em especial, do episcopado (capítulo três).

É o fato de não reconhecer essa concepção (iniciada, pela verdade, com Pio XII que definiu a Igreja como corpo místico) que leva alguém a erigir-se como arauto da verdade.

Ninguém nega as verdades que desde sempre acompanharam a Igreja: o que mudou é o modo de propor e vivê-las. Inclusive o cardeal, sobre Jesus, diz: "É com clara determinação que deve ser combatida a recaída em antigas heresias, que viam em Jesus Cristo só um bom homem, um irmão, um amigo, um profeta e um exemplo de vida moral." O que o cardeal chama de heresias demonstra ceticismo e superficialidade.

A civilização ocidental já superou a secularização e está caminhando rumo ao ateísmo. Paulo VI já havia exortado à nova evangelização, para os povos que não conhecem o cristianismo e " para multidões de homens que receberam o batismo, mas vivem fora de toda a vida cristã, para as pessoas simples que, tendo embora uma certa fé, conhecem mal os fundamentos dessa mesma fé, para intelectuais que sentem a falta de um conhecimento de Jesus Cristo sob uma luz diversa da dos ensinamentos recebidos na sua infância, e para muitos outros ainda” (Evangelii nuntiandi, n. 52).

O apelo também causa enternecimento. O cardeal (e quem a que ele se dirige) pensa que, com um apelo às verdades reveladas, as pessoas voltarão a aderir a Cristo. É a atitude de alguns coirmãos que, diante dos garotos que somem da igreja após a confirmação (caso a tenham recebido), de jovens que convivem, de adultos que não buscam mais o sacramento da penitência, de famílias nas quais o cristianismo é reduzido a uma referência opcional, de artistas que ignoram o sagrado, de cientistas que excluem o sobrenatural, endurecem regras, preceitos, se não mesmo recorrem a chantagens nas poucas ocasiões de contato, pensando recuperar fé e devoção.

A crise não está nas verdades escondidas, mas na perda da fé. É nesse sentido que o apelo teria sido útil, trazendo esclarecimento sobre o que aconteceu com as populações dos batizados no Ocidente.

Nós, párocos da cidade e do interior, sabemos muito bem o que significa encontrar-se cada vez mais sozinhos e estar reduzidos a agências do sagrado, em condições de fazer pouco ou nada diante da fé que se afasta. Somos pacientes e misericordiosos, não traindo as verdades, mas encorajando a uma fé plena.

Oramos para que o Espírito [causa estranheza que o apelo do Cardeal nunca tenha se dirigido à ajuda do Espírito], para que ilumine os corações, mas principalmente dê força a todos nós para sermos testemunhas da fé.

No documento, fala-se muito de bispos: nem uma palavra sobre os escândalos que envolveram muitos deles com muitos presbíteros. Como seriam mestres, se alguns não foram capazes de observar as leis da natureza e do cristianismo?

Arrogar-se o papel de guardião da verdade corre o risco de levar a soberba e egoísmo. Soberba porque se tem a pretensão de ser diferente de qualquer outro eventual transgressor. Sem ofensa, o apelo evoca o episódio de Anás e Caifás em relação a Jesus. Eles também eram portadores da verdade, mas não ouviram, porque estavam por demais seguros de si mesmos.

É um ato de egoísmo porque convence a si mesmo de ter cumprido o próprio dever. Um dever de baixo custo: condena terceiros, com autoabsolvição.

A salvação está nas mãos de Deus: nós somos instrumentos de testemunho. Todos, sem distinção, entre escribas e filhos do povo.

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