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12 Fevereiro 2019

Tudo começou com uma gargalhada. Curta, discreta, com uma mão sobre a boca que devemos imaginar enrugada e coberta de escuras manchas senis, na vã tentativa de disfarçar aquela explosão de hilaridade. Quando, de fato, através dos viajantes do deserto que, na realidade, no texto sagrado são anjos, o Altíssimo anuncia ao patriarca Abraão que está prestes a dar-lhe um filho com Sara, ou seja que pretende abri-lhe finalmente o útero tristemente fechado, aquela pobre mulher, que em noventa anos de vida já havia visto de tudo, cai na gargalhada. "Mas imagine!" "Essa é boa!", "Que piada de mau gosto", e muito mais fica subentendido pela primeira risada de toda a Bíblia, fruto da desilusão e da amargura de uma mulher que não conseguiu procriar até aquele momento e agora está certa de que realmente nunca irá. Altíssimo ou não Altíssimo, depois de nove meses, no meio do assombro geral, Sara colocaria no mundo Isaac, cujo nome em hebraico significa, justamente, ele irá rir. Da tenda de Abraão e Sara em diante, o riso é para os filhos de Israel um assunto muito sério: “Metrô de Nova York. Um homem negro está lendo um jornal em iídiche. Alguém para e lhe pergunta: - Você é judeu? - Oy gevalt (típica exclamação de desconforto em iídiche) - responde ele - só me faltava esta."

O artigo é de Elena Loewenthal, escritora italiana e estudiosa do judaísmo, publicado por La Stampa, 09-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

"A piada judaica é tão velha quanto Abraão. Junto com os judeus em carne e osso errou pelo mundo, aprendeu vários idiomas, trabalhou com uma vasta gama de materiais e deu o melhor de si diante de plateias bastante hostis", explica Devorah Baum na abertura de seu livro, La barzelletta ebraica (A piada judaica - em tradução livre -, publicado pela Einaudi) com o eloquente subtítulo que esclarece tratar-se de "Un saggio con esempi (meno saggio più esempi)” (trocadilho com a palavra “saggio” que em italiano significa tanto ensaio como sábio, NT.). Por que se tudo começa com Abraão, não há como negar que a primeira piada coube a Sara, e seu marido – ao que parece - não gostou muito dela. Como mulher, ou seja, descendente em linha direta da espirituosa matriarca e de seu humor irreverente, talvez até um pouco macabro, também Devorah Baum - jovem escritora norte-americana – sabe muito de piadas judaicas. É verdade, no livro há mais piadas que argumentação, mais exemplos que ensaio. Mas também é verdade que quando se faz humor judaico não se pode deixar de falar a respeito. Quer seja uma piada fulminante ou uma narração lenta, a anedota judaica sempre carrega consigo um significado, aliás mais que isso. É como se sempre estivesse dizendo, no fundo: "Caros gentios (de nome, mas muitas vezes não de fato), além de nos perseguir, marginalizar e empurrar para os quatro cantos do mundo, não é preciso que fiquem rindo de nós, judeus. Podemos fazer isso sozinhos, e certamente melhor do que vocês".

O humor é, portanto, há séculos uma arma de sobrevivência para o povo de Israel, uma maneira de se reconciliar com o mundo, com as adversidades, com os percalços. E haja percalços: "Burt: você se preocupa com o Holocausto ou acha que isso nunca aconteceu? Harry: Não só sei que perdemos seis milhões de judeus, mas o que me preocupa é que os recordes são feitos para serem batidos”. (Copyright Woody Allen). Baum aborda um dos muitos caminhos do humor judaico com uma série de perguntas que ecoam o ritual da Páscoa judaica e marcam a diferença entre a noite festiva e a de trabalho. Não é por acaso que a tradição judaica se constrói sobre a análise pontual, sobre o pelo no ovo: "Qual a diferença entre o homem e Deus", "Qual a diferença entre moralidade e neurose?", "Qual a diferença entre um judeu e um papagaio?", "Qual a diferença entre um shlemiel e um shlimazel" (spoiler: o shlemiel é o trapalhão, e aquilo em que se derrama a sopa é a shlimazel).

Na resposta a uma série de diferenças, Baum traça um histórico da piada judaica, ou melhor, um percurso divertido e interessante deste humor que pode agradar ou não, o que às vezes é imediato e, outras, enigmático - especialmente quando mais que uma piada torna-se um teste de inteligência às custas do desavisado ouvinte -, mas que sempre tem muito a dizer.

Baum transita do cinema à tradição oral, da literatura contemporânea ao Talmud, mas tem um particular - e justificada - predileção pela stand-up comedy norte-americana que deu o melhor de si com um tipo de comédia judaica feito de muita improvisação e de sabedoria, com gigantes como Lenny Bruce e Mrs Maisel - que também será a protagonista da homônima série televisiva, mas é mais real e fantástica do que nunca. E no fundo, entre as muitas, realmente muitas, coisas reconfortantes que o humor judaico traz consigo há séculos e milênios, há também uma paridade de gêneros que não faz concessões a ninguém, porque quando se trata de rir - ou de fazer rir - não há sexo que segure. E desde que o mundo é mundo, as mulheres passam adiante receitas, segredos e sábios conselho: "Minha mãe sempre dizia que não se deve casar por dinheiro. Por dinheiro, se divorcia."

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