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09 Fevereiro 2019

A Declaração assinada pelo Imã Ahmad Tayyeb e pelo Papa não é apenas um marco no caminho do diálogo entre as religiões. Como Francisco afirma, "convida todas as pessoas que trazem no coração a fé em Deus e fé na fraternidade humana a se unirem e trabalharem juntas".

O comentário é de Riccardo Cristiano, publicado por Ytali, 06-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eu preferi deixar que a incredulidade sobre o que aconteceu em Abu Dhabi pousasse e deixasse emergir a resposta à pergunta mais importante: o que realmente aconteceu na tarde de 4 de fevereiro na capital dos Emirados Árabes Unidos? Esse é o ponto. Houve mais um encontro de diálogo? Sim, certamente, mas não há nada de excepcional nisso.

O papa foi recebido em uma península, a península arábica, governada por regimes que são, no mínimo, pouco acolhedores com o ser humano, especialmente os não-muçulmanos? Sim, claro, mas sabemos desde sempre como o acolhimento formal não corresponde necessariamente àquele substancial. Então, o que aconteceu para nos deixar incrédulos?

Pois bem, algumas horas depois, eu entendi: em Abu Dhabi, o Islã espiritual e iluminado decidiu romper as correntes do silêncio e se declarou de acordo com o espírito e o texto da declaração universal dos direitos humanos. Fez isso setenta e um anos depois? Sim, aqueles tiranos que dominam o mundo árabe inspiram medo e produziram, por amor ou reação, teologias doentias, inimigas de Deus, que igualmente incutem medo. Mas o Islã espiritual e iluminado por fim decidiu concordar, com sua própria voz e muita coragem, e fez isso no momento o Ocidente se afasta do espírito daquela Declaração.

Para demonstrar que a adesão é ao espírito e ao texto daquela declaração, o Imã Ahmad Tayyeb disse claramente, além de escrever de forma efetiva na declaração, que a teologia da dhimmitude foi encerrada, acabou: todos os cidadãos dos países de maioria islâmica são cidadãos com plenos direitos e iguais aos outros. Portanto, apenas uma constituição compartilhada pode governá-los. É o adeus a um sistema que previa cidadãos da série a, os muçulmanos, e cidadãos de série b, pertencentes às outras religiões.

Mas essa declaração conjunta assinala especialmente o adeus às ideologias pestilentas, ao pan-arabismo e pan-islamismo, aquelas que acreditavam não na comunidade nacional, feita por cidadãos diferentes, porém iguais, mas na grande comunidade árabe ou na grande comunidade dos crentes. Esse adeus foi, portanto, também o adeus à "proteção das minorias", outrora proteção "dos povos do livro", depois proteção em troca de aquiescência; para eles, o presente teria sido, se silenciosos, menos ruim do que o dos outros.

Agora, os direitos de cidadania, conforme esclarecidos na declaração conjunta, também dizem respeito também aos não-crentes. Na verdade, este ponto, revolucionário para o Islã "real", não para aquele do Corão que esclarece desde sempre que "não há coação na fé" e, portanto, também é possível não acreditar, já estava contido na Declaração do Cairo de 2017. Lá, justamente o Imã al Tayyeb fez questão de escrever que eram cidadãos com direitos iguais e plenos os crentes de todas as religiões e outros grupos. E quem poderiam ser esses outros grupos? Exatamente os não crentes! Mas agora o termo "não crentes" é usado oficialmente em uma declaração conjunta, assinada com o bispo de Roma.

Mas por que, apesar do fato de que este Islã espiritual e iluminado esteja ciente de que muitas teologias e todos os governos dos países de maioria islâmica rejeitam o espírito da Declaração dos Direitos Humanos, quis se expressar em termos inequívocos exatamente agora? Por muitos, realmente muitos motivos. O primeiro talvez seja a consciência de que o mundo árabe-islâmico está em uma condição que não se verificava desde a invasão dos mongóis. Iêmen, Síria, Iraque, Líbia, Somália, Sudão: o desastre tem dimensões incalculáveis, e a esta lista de horrores é preciso ter a honestidade de adicionar também o Egito, onde uma tirania implacável aprisionou, torturou, insultou, tantos protagonistas de 2011.

Esse desastre trouxe à luz um terrorismo global filho do anterior, o da Al Qaeda, capaz de se manifestar com uma faca, um motorista de furgão, um transeunte. É o terrorismo niilista, é a islamização do radicalismo niilista, mas usa e deturpa o nome do Islã, corta a garganta de sacerdotes para erguer muros intransponíveis e fazer com que o outro seja criminalizado. Eis que os filhos deste mundo árabe devastado fogem em busca de salvação, mas depois de serem perseguidos em sua terra natal são temidos como sarna no exterior, mesmo naquela Europa cristã que por séculos temeu conquista e tentou e praticou a conquista. Agora que aqueles tempos se passaram, esta Europa cristã, que enviou seus missionários em todo o mundo para proclamar a mensagem do Evangelho, não sabe reconhecer nestes novos Eneias que chegam com Anquises nos ombros, a face do Cristo sofredor, e a Europa leiga, filha das luzes, não sabe reconhecer neles o igual em busca de liberdade e fraternidade.

Apenas um homem foi capaz de desafiar por eles a impopularidade, impondo e implorando por assistência: Jorge Mario Bergoglio. Ele suplicou-a para todos, impondo-a à sua Igreja, em parte concordante, em parte contrária e em parte assustada, talvez pela possível perda de privilégios. E Jorge Mario Bergoglio frequenta, conhece o imã de al Azhar, o Sheik al-Tayyeb. É o bispo de Roma, mas não da Igreja "romana", ou seja, de uma Igreja centralista, verticalista, convicta que precisa exportar para qualquer lugar a sua verdade, mas é o bispo de uma Igreja muito diferente, um Igreja sinodal, que caminha junto com o homem, na história, e acredita que deve receber de todos as periferias as suas verdades, para uni-las naquela poliédrica, global.

Ele é um bispo que vem do sul do mundo e conhece as feridas, as dores dos abandonados, dos derrotados, dos marginalizados, dos esquecidos e dos humilhados. Com ele, o imã de al-Azhar se sente reconhecido, aceito, compreendido, não se sente mais olhado de cima para baixo, humilhado, ferido. Pode se abrir sem a necessidade de recair no complexo de superioridade que aflige os árabes considerados "mendigos", ao passo que tem um percurso de grande civilização milenar. É por isso que ele quis falar.

Nestes anos incríveis al-Tayyeb não pode ter deixado de perceber que o homem que o hospedava na Casa Santa Marta entendia aqueles jovens que fogem de seu mundo árabe, árabes e muçulmanos como ele, e, portanto, aquele homem, Bergoglio, deve ter entendido a ele também, ele que quando criança sofria pelas bombas dos europeus no telhado de sua casa e vivia aterrorizado noites inteiras sem luz, no calor insuportável, envolto em trevas. Com Bergoglio, que vem do sul do mundo, sentindo-se compreendido, ele pôde entender que para esses jovens ele têm a tarefa de oferecer um futuro diferente daquele que sua geração gerou, causou e sofreu.

E pensando em seus compatriotas cristãos, ele terá se perguntado o que tem a ver a sua história, a sua religião, a sua grande família humana e espiritual com as perseguições. Talvez isso tenha a ver com o que a Europa tem a ver com as novas exclusões, expulsões. Na verdade, ele não pode não ter plena consciência de que a boa vontade recíproca e de longa convivência islâmico-cristã na terra do Islã foi posta em crise no século XIV apenas por fatores humanos, tais como a invasão dos mongóis e as mudanças climáticas que, gerando terror e miséria levaram um mundo amedrontado a buscar bodes expiatórios. Aconteceu no passado na terra do Islã, e em situações economicamente semelhantes acontece hoje entre nós que, em busca de bodes expiatórios, rechaçamos aqueles que chegam com fome às nossas fronteiras temendo que sejam invasores.

Talvez seja por isso, em longas reuniões na Casa Santa Marta, sem os fantasmas do passado e do complexo de superioridade e inferioridade, que foi possível gerar um texto epocal, que explica perfeitamente como Deus ama todos os seus filhos, mesmo aqueles que não acreditam nele, e, portanto a irmandade não pode excluir o outro, os outros. Era necessário dizer isso, e eles o disseram. Especialmente al-Tayyeb teve que esclarecer que aquele traço de caneta iria apagar a dhimmitude, pela qual os cristãos e os judeus haviam se convertido em cidadãos de segunda classe, embora Maomé tivesse salvo os seus da perseguição dos politeístas, convidando-os a fugir para a Etiópia: "lá vocês encontrarão um rei cristão, ele nem vai torcer nem mesmo um dos vossos cabelos".

E assim esconjurou que os cristãos do Oriente tirassem de suas cabeças a ideia de ser minorias que devem ser protegidas, obviamente por um déspota. Assim no amanhã cristãos e muçulmanos poderão finalmente lutar pela dignidade árabe, contra todos os tiranos, os piores que a história conhece. Os cristãos não terão mais que se alegrar com assassinos desqualificados como Saddam ou Assad, que torturam, claro, mas os outros. E os muçulmanos não terão mais que se alegrar por terem fechado a porta na cara de outra pessoa, ficando cada vez mais sozinhos, trancados em uma casa escura, como aquela em que Al-Tayyeb cresceu. Poderão realmente voltar a ser eles mesmos, libertar-se de suas prisões? Eu não sei. Eu sei que foi dito a eles, "se vocês fizerem isso, estaremos com vocês". Eu fico com aqueles que estão com eles, com sua redenção.

Eles terão sucesso se souberem ser os primeiros como Paolo Dall'Oglio e Pierre Clavery. Se o primeiro escreveu "apaixonado pelo Islã, crente em Jesus", o segundo, recentemente beatificado na seu Argélia, escreveu em um livro, "não éramos racistas, éramos indiferentes aos outros." Vamos ter sucesso se estes últimos conseguirem ser como um ilustre predecessor de al-Tayyeb, que, ao voltar de uma viagem à França, teve a coragem de escrever: "em Paris não encontrei um muçulmano, mas vi o Islã".

Mas talvez a parábola que melhor os mantenha unidos seja a parábola da vida do padre Paolo Dall'Oglio, o europeu que na década de 1980 foi morar na Síria, certo de que só aquela ponte poderia nos salvar. Ele foi expulso por Assad e sequestrado pelo Isis, como milhões de sírios foram expulsos por Assad e não acolhidos aqui na Europa, entre nós, porque a violência do Isis sequestrou os nossos corações e mentes. Eu, no dia 4 de fevereiro, senti que o padre Dall’Oglio poderia finalmente dizer: “graças a Deus”.

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