''Em atenção à tua palavra, vou lançar as redes''

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07 Fevereiro 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 5º Domingo do Tempo Comum, 10 de fevereiro (Lucas 5, 1-11). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos ainda no início da pregação e da atividade de Jesus, e Lucas também coloca nessa estreia do ministério público do profeta da Galileia o chamado dos primeiros discípulos. Mas, em relação ao Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1, 16-20), retomado nos mesmos termos por Mateus (cf. Mt 4, 18-22), Lucas faz outra leitura da vocação. O relato é enriquecido com detalhes, é expressado com uma ótica diferente, de modo que aqui já há uma mensagem que alude à missão da Igreja.

A pregação de Jesus a partir de Nazaré (cf. Lc 4, 16) a Cafarnaum (cf. Lc 4, 11) se estende às cidades ao redor do lago de Tiberíades (ou de Genesaré), e Jesus, como profeta, continua espalhando a palavra de Deus a ouvintes que aumentam a cada dia, até se tornarem uma verdadeira multidão que se aglomera, pressionando para ficar perto dele e recolher as suas palavras.

Nessa aglomeração, Jesus vê duas barcas atracadas na praia, porque os pescadores haviam descido e estavam limpando as redes dos detritos que saíram das águas do lago junto com os peixes. Então, ele pensa em subir em uma das duas barcas, pertencente a Simão, e pede que ele afaste um pouco a barca da margem, para torná-lo uma espécie de ambão a partir do qual pudesse proclamar a palavra de Deus.

A cena é eloquente em si mesma: Jesus “fala a Palavra” – escreve Lucas literalmente – e, como semente, lança-a na terra (a praia), no coração dos ouvintes ali reunidos (cf. Lc 8, 4-15); o que na sinagoga é um ambão solene, uma cátedra, aqui é a barca de Simão, a barca da Igreja...

Assim que terminou esse ensinamento para a multidão, Jesus passou das palavras ao evento: pede que Simão para “avance para águas mais profundas” (“Duc in altum!”, na Vulgata) – isto é, abandone com coragem e esperança as águas mansas da enseada para avançar no mar aberto – e lance as redes no mar.

Simão é um pescador experiente, tentou pescar durante toda a noite sem obter resultados. Ele sabe que não se pesca em pleno dia, especialmente se não se pegou nada durante a noite. No entanto, aquele Jesus que falou o impressionou pela sua exousía; é um homem confiável – pensa –, que merece confiança e obediência, então lhe responde: “Mestre (...) em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. Ele chama Jesus com um termo que indica mais o chefe do que o mestre (epistátes) e, como dono da barca, deixa Jesus a guie. Ei-lo, então, avançar para as águas profundas, para o abismo (eis tò báthos), sem temor, munido apenas da fé na palavra daquele profeta.

O resultado é imediato, surpreendente: “Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem”.

De onde vem esse sucesso, se, durante toda a noite, esses homens se esforçaram em vão? Da fé-confiança na palavra de Jesus! Há aqui uma profecia para toda “saída”, para toda missão da Igreja: deve ser sempre feita por indicação de Jesus, deve ser executada com fé plena na sua palavra, caso contrário permanecerá estéril e inútil. Não tinha bastado a sua competência como pescadores, não tinha sido fecundo o seu esforço, mas tudo muda se é Jesus quem pede, quem guia, quem acompanha a missão.

Esse sucesso da pesca aparece como um sinal que espanta Simão: ele logo cai aos pés de Jesus em ato de silenciosa adoração; ao mesmo tempo, percebendo-se na condição de homem pecador, pede que Jesus fique longe dele. Isto é, acontece no coração de Pedro a revelação de que em Jesus há santidade, que Jesus é o Kýrios, o Senhor, enquanto ele é apenas um homem, um pecador, indigno de tal relação com quem é divino.

É a mesma reação de Isaías quando, no templo, “vê o Senhor” (cf. Is 6, 1) e se sente compelido a clamar: “Ai de mim, homem de lábios impuros!” (Is 6, 8); é a reação de tantos profetas que viram Deus entrar nas suas vidas, através de teofanias, manifestações grandiosas do próprio Deus e imediatamente mediram a sua incapacidade de estar diante dele.

Aqui está Jesus, um homem, um profeta em uma barca, mas Pedro compreendeu a sua identidade: Jesus é o Santo de Deus – como o próprio Pedro confessa explicitamente no quarto Evangelho (cf. Jo 6, 69) –, enquanto ele é um pecador e como tal se sentirá durante toda a vida, em tantas ocasiões. E, quando se esquecer de que é pecador, o canto do galo o lembrará disso: o galo, de fato, cantará três vezes, assim como ele três vezes havia pecado gravemente, dizendo que nunca havia conhecido ou tivera relação com o homem (cf. Lc 22, 54-62) do qual aqui reconhece a santidade e que, mais tarde, confessará como “Cristo, Messias de Deus” (Lc 9, 20).

Estupor e tremor para Pedro, portanto, mas também para os seus companheiros, dos quais agora Lucas revela os nomes: Tiago e João, os filhos de Zebedeu. Já se entrevê aquele grupinho dos três que serão os mais próximos de Jesus: eram discípulos amados, não prediletos, não amados mais do que os outros, porque o amor, quando está vivo e em ação, nunca é igual ao se manifestar.

É claro, amados por Jesus como os outros, mas partícipes da intimidade da sua vida de modo diferente, por estarem munidos de dons diferentes dos outros: não por acaso, serão escolhidos por Jesus como testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (cf. Lc 8, 51-55), testemunhas da gloriosa transfiguração do aspecto de Jesus na outra montanha (cf. Lc 9, 28-29), testemunhas da sua desfigurante paixão no Jardim das Oliveiras (segundo Mc 14, 33 e Mt 26, 37). Estarão envolvidos com Jesus na sua glória e na sua miséria, portanto, sempre em ansiedade, sempre chamados à vigilância, da qual não são capazes (cf. Lc 22, 45-46 e par.), sempre chamados a uma fidelidade que, porém, desaparece por causa da negação (cf. Lc 22, 54-62) ou da fuga (cf. Mc 14, 50; Mt 26, 56).

Segundo Lucas, Jesus convida Pedro a não temer e lhe entrega a vocação-promessa: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. Ou seja, “de agora em diante, a tua tarefa é ir ao mar aberto, a águas profundas, para salvar as pessoas presas do mal, para salvá-las das ondas e dos abismos infernais, de estradas perdidas e conduzi-las à vida!”.

Não se pense na missão como captura e proselitismo, mas, sobretudo, como um anúncio de salvação, aquilo que Jesus havia ilustrado sobre si mesmo na sinagoga de Nazaré, lendo um trecho do profeta Isaías e declarando como realizada aquela profecia: libertar os prisioneiros, restaurar a visão aos cegos, redimir os oprimidos, anunciar aos pobres a boa notícia do Evangelho (cf. Lc 4, 16-21; Is 61, 1-2).

A Igreja, quando vai em missão, não vai, em primeiro lugar, para fazer cristãos, para aumentar o número dos seus membros, para batizar, mas in primis para uma ação de libertação dos necessitados, para uma manifestação do amor gratuito de Deus. Assim, a Igreja anunciará o Senhor Jesus e, se Deus quiser, haverá conversões, seguimento do Senhor e participação no corpo eclesial. Mas cuidado para não inverter a dinâmica da missão determinada pelo Senhor, calculando e procurando resultados, confiando nas obras visíveis das nossas mãos.

Eis, então, que ocorre a mudança decisiva para Simão e os outros companheiros que estão com ele, que, como pescadores de peixes, se tornam discípulos; e, como discípulos, pela promessa de Jesus, eles se tornarão pescadores de homens na missão da Igreja:

“Então levaram as barcas para a margem,
deixaram tudo
e seguiram a Jesus.”

Agora, eles não se dedicam mais à barca, à pesca, ao seu ofício, mas todas essas coisas (eis a radicalidade evangélica!) são abandonadas para sempre na margem do lago. Agora Simão e os outros disseram o seu “sim”, o “amém” ao profeta e Senhor Jesus, confiável e, portanto, de autoridade. Tomaram a decisão: vale a pena segui-lo e fundamentar a própria vida na sua palavra.

Lucas utilizou a metáfora da pesca – como ocorre outras vezes nos Evangelhos – para nos dizer uma coisa simples: quando Jesus chama, transforma aquilo que fazemos, e essa transformação requer um abandono daquilo que éramos e uma novidade de vida, de forma de vida, no futuro, que se abre diante de nós.

Em toda vocação, sempre há o chamado, mas também a promessa mais ou menos explícita. Porque, quando quem é chamado responde à palavra do Senhor, ele empreende um caminho, um seguimento que está sempre sob a promessa da fidelidade de Deus. Deus permanece fiel mesmo quando o chamado se torna infiel (cf. 2Tm 2, 13). Assim acontecerá com Simão-Pedro (cf. Lc 22, 61), e assim também acontece conosco.

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