A fé dos millenials, uma espiritualidade muito distante da Igreja

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29 Janeiro 2019

“Olhe para esses jovens. Muitos deles se dizem pessoas de fé, mas a praticam ocasionalmente. Criados em uma ambiente ‘pós-cristão’, gostam de Francisco, estão aqui com grande entusiasmo, mas muitos, na vida de todos os dias, não praticam. É uma tendência que se enraizou nos últimos anos, eu a chamaria de um modo diferente de viver a fé de sempre. Uma fé desencarnada? Não sei. Diferente do passado, sem dúvida, um fato não necessariamente negativo.”

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada em La Repubblica, 27-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

José tem 25 anos. Acompanhou ao Panamá, para a Jornada Mundial da Juventude, um grande grupo de jovens menores provenientes de várias dioceses australianas. Ele fotografa um fenômeno generalizado no seu continente, mas não só, e que parece marcar uma discrepância entre as Jornadas Mundiais da Juventude da era Wojtyla e as de hoje: os millennials, em essência, creem, mas praticam menos do que seus antecessores, que muitas vezes têm dificuldade para entender a linguagem da Igreja, conhecem pouco Jesus e nem sempre vão à missa, embora digam acreditar em Deus.

Foi assim, aliás, que eles foram descritos, ainda em 2016, pela pesquisa “Deus a meu modo. Jovens e fé em Itália”, realizada pelo Instituto Toniolo em colaboração com a Universidade Católica e publicada pela editora Vita e Pensiero.

É assim também que eles são narrados em "Piccoli atei crescono" [Pequenos ateus crescem] (Ed. Il Mulino) pelo sociólogo Franco Garelli. E, desse modo, pelo menos em parte, eles são descritos por Armando Matteo no livro "La prima generazione incredula" [A primeira geração incrédula] (Ed. Rubbettino), em cujo prefácio para uma nova edição Enzo Bianchi, com a lucidez que o distingue, além de escrever que “estamos diante de pessoas para as quais nascer e se tornar cristão não são mais eventos que acontecem de modo síncrono, impossibilitadas de perceber um lugar para Deus nos olhos dos pais”, também reconhece a necessidade para a Igreja não tanto de “um simples ajuste da pastoral”, mas sim de “uma autêntica mudança” de abordagem.

Rosa tem 19 anos. Mora no Panamá, onde nasceu. Foi voluntária na Jornada Mundial da Juventude. Ela diz: “As repetidas notícias dos abusos sexuais cometidos por padres contra menores, os escândalos reiterados me afastaram da Igreja. Ao mesmo tempo, no entanto, permaneceu viva em mim a necessidade de espiritualidade, de uma relação pessoal com Deus. E é isso que eu busco. Eu sinto Francisco como alguém próximo: o modo como ele se entrega pelos pobres, a imediaticidade da sua linguagem, o compromisso com a paz e a busca de encontro com as outras religiões são atitudes que captam”.

Rolando, também ele um jovem panamenho, conta: “Eu acho que é possível ter uma relação com Deus sem a Igreja. Eu não acho que é necessário ter que ir à missa necessariamente todos os domingos”.

Um sacerdote, Pe. Luis, intervém: “Eu imagino que, para muitos padres, essas palavras são um problema. Mas eu acredito que essas atitudes devem ser ouvidas e acolhidas. Há uma geração que vive uma espiritualidade personalizada, cuja principal característica é que ela privilegia a relação consigo mesmo e a interioridade”.

E ainda: “Perguntemo-nos por que muitos fiéis vão buscar respostas no Oriente e em outras religiões. Talvez porque lá, e não aqui, veem valorizada a sua interioridade, uma experiência de Deus que poderíamos chamar de não mediada”.

Relativismo e individualismo como uma oportunidade, poderia ser a tradução, também em uma fé, como a católica, em que a autoridade e a instituição desempenharam durante séculos um papel de mediação importante. No entanto, Simone Weil já postulou a possibilidade de um caminho novo: viver no limiar.

Então, mais uma vez, os antigos “pustinnikki” da espiritualidade ortodoxa, eremitas que escolhiam a vocação do “só a sós” com Deus, sem a necessidade de reconhecimento institucional. Um caminho que, em parte, também foi o de Charles de Foucauld e de outros místicos como Mechthild de Magdeburgo, Juliana de NorwichHildegard de Bingen e Mestre Eckhart.

Várias vezes, no entanto, Francisco evidenciou o risco de uma fé reduzida a um “individualismo que se crê onipotente” e a um “subjetivismo desencarnado”.

“É claro – comenta Alberto Maggi, biblista, autor de "Questi tempi " [Estes tempos], pela editora Garzanti e de outros livros de sucesso –, o risco existe. Em todo o caso, existem muitos modos de ser pessoas de fé. Além da sacristia, que antigamente era o principal, pensamos, por exemplo, no voluntariado. O Evangelho de Lucas, aliás, já fala do samaritano que não acreditava, não ia ao templo, mas tinha a compaixão pelos outros que é própria a Deus.”

Paolo Scquizzato, autor de "Dalla cenere la vita" [Das cinzas, a vida] (Ed. Paoline), padre que ensina meditação, diz que “os jovens são o termômetro dessa grande sede de espiritualidade que, infelizmente, na Igreja custa a encontrar respostas. Como Igreja, damos religião, mas existe um abismo entre religião e espiritualidade. Só no silêncio, na interioridade é que Deus repousa”.

Cécile, uma jovem francesa presente no Panamá, confirma: “O risco de uma fé ‘faça você mesmo’ existe. No entanto, não se pode negar que, para além dos ritos, muitos jovens procuram outra coisa. Meus pais iam à missa, participavam da vida da paróquia, mas, por trás dessa fachada, havia fé? Hoje, muitos jovens buscam uma fé que escute mais a voz do Espírito que fala neles. Há algo de positivo nisso. A fé deve recomeçar a partir daí”.

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