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18 Janeiro 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 2º Domingo do Tempo Comum, 20 de janeiro (João 2, 1-11). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Compreender na sua profundidade o relato joanino das bodas de Caná não é uma operação fácil, mesmo que ele seja lido muitas vezes, especialmente por ocasião da celebração do matrimônio cristão. A verdadeira pergunta que surge, de fato, é: “Que bodas são essas?”. E também: “Quem é o noivo, quem é a noiva?”.

O verdadeiro protagonista, com efeito, é apenas Jesus, e os diversos personagens – a mãe, os discípulos, os servos – são apresentados apenas em referência a ele. Os dois cônjuges que celebram essas bodas nunca aparecem, e o noivo ao qual o mestre-sala se dirige não fala sequer para dar uma resposta. Desse modo, o quarto evangelho quer nos revelar que Jesus, tendo reunido a comunidade dos discípulos chamados a si no capítulo anterior, celebra as bodas com ela, a noiva com quem estreita a nova aliança nupcial.

Continua sendo muito significativo que “a mãe de Jesus”, nunca chamada pelo seu nome de Maria neste Evangelho, “já estava lá” (ên ekeî), como presença que precede tanto Jesus quanto os discípulos convidados àquelas bodas. Já está lá, porque é, acima de tudo, filha de Sião, a figura de Israel que aguarda a hora do Messias, e significativamente está lá “no início dos sinais” de Jesus, como estará lá junto à cruz, no cumprimento de todos sinais operados por Jesus (cf. Jo 19, 25).

João também especifica que essas bodas acontecem no fim da semana inaugural do ministério simbólico de Jesus, três dias depois dos quatro dias indicados anteriormente. Assim, o dia das bodas é o terceiro dia, dia que evoca a epifania do Senhor no Sinai e a celebração da aliança entre Deus e o seu povo (cf. Ex 19, 10.16), dia da glória de Jesus, dia em que ele se revelou como Senhor ressuscitado e vivo (cf. 1Cor 15, 4).

E eis que todos já estão no banquete nupcial, mas falta o vinho! Nessa situação de falta de um elemento necessário para a festa, a mãe de Jesus, atenta a esse desenvolvimento, intervém junto ao filho dizendo-lhe: “Eles não têm mais vinho!”. Desse modo, ela afirma uma situação real e, ao mesmo tempo, convida Jesus respeitosamente a fazer alguma coisa.

Se não há vinho, como as bodas poderão ser celebradas com a alegria necessária para a festa? Muitas vezes, penso que, se a Igreja, assim como a mãe de Jesus, no meio da humanidade, desempenhasse mesmo que apenas essa função de indicar ao Senhor que “não tem mais vinho”, não tem alegria, isso já seria, de sua parte, cumprir um ministério essencial...

Nas Escrituras, o vinho, é acima de tudo, promessa de Deus mesmo, dom da bem-aventurança e da alegria feita ao seu povo. É o vinho que alegra o coração do homem (cf. Sl 104, 15), mas também o coração de Deus (cf. Jz 9, 13: ‘Elohim), e é precisamente o vinho que marcará o banquete escatológico prometido, através do profeta, a todos os povos da terra, aquele banquete em que se celebrará a libertação definitiva da morte (cf. Is 25, 8): “O Senhor dos exércitos vai preparar no alto deste monte, para todos os povos do mundo, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos refinados” (Is 25,6).

É o vinho que celebra o clima do amor entre o noivo e a noiva na “adega” [cella vinaria] (Ct 2, 4) do Cântico dos Cânticos, vinho que descerá como rebentos das colinas da terra abençoada (cf. Gl 4, 18).

É o vinho da gratuidade, que faz transcender a vida sob o sinal da necessidade do pão (cf. Sl 104, 15), em um excesso que chama o homem e a mulher para fora de si. Por isso, na refeição deixada por Jesus como seu memorial, estão o pão necessário e o vinho gratuito (cf. Mc 14, 22-24 e par.; 1Cor 11, 23-25), porque o humano deve sempre afirmar um e outro, sentir-se criatura necessitada, mas também capaz de criação, de beleza, de canto e de dança.

Portanto, não há celebração de bodas sem vinho, e a mãe de Jesus intervém por isso. Mas a resposta enigmática de Jesus se dá através de palavras que criam uma distância, que lhe pedem para ficar no seu lugar, porque, como mãe física de Jesus, não pode reivindicar nada: “O que há entre mim e ti, ó mulher?”.

Em outras palavras, Jesus está lhe dizendo que, se há uma relação primária dela com ele, não é o fato de tê-lo gerado fisicamente, mas é uma relação mais profunda e decisiva com o próprio Deus.

Depois, acrescenta: “Minha hora ainda não chegou!”. Essa também é uma palavra enigmática, que talvez se refira à hora que nem ele mesmo nem sua mãe podem decidir. É e será a hora de Jesus como e quando o Pai a quiser, e Jesus receberá o sinal do próprio Pai.

Por isso, Maria, como mãe, mostra-se imediatamente discípula que escuta, obedece ao filho e pede que os outros façam o mesmo: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Acima de tudo, a mãe se manifesta como discípula e, por isso, pede que sejam reservados a Jesus escuta e obediência, nada mais. Ela não tem mensagem própria, não pode dizer outras palavras, porque é uma mulher de fé, capaz de escuta, obediente ao Senhor: é a primeira discípula entre os discípulos, que convida todos a se tornarem discípulos de Jesus!

Nesse ponto, Jesus dá um sinal em que antecipa a sua hora, que ainda não veio, mas que chegará apenas na cruz, onde se celebrarão bodas de sangue. Os servos da mesa logo lhe obedecem: trazem seis jarros cheios de água, que era usada para a purificação. Essa água, que, de acordo com os Padres da Igreja, é sinal de toda a economia da antiga aliança, por causa da presença de Jesus, torna-se a bebida messiânica da nova aliança.

É significativo que o mestre-sala, aquele que presidia a mesa, na realidade, “não sabia de onde (póthen) vinha aquele vinho”, enquanto os servos que obedeceram a palavra de Jesus sabem que esse vinho messiânico vem dele. Assim, “ocorreu a manifestação (ephanérosen) da glória de Jesus”, e os discípulos creram nele. O sinal de Caná é simbólico: bodas e aliança entre Jesus e a sua Igreja.

Aquela água tão abundante, mais de 600 litros, torna-se o vinho para as bodas! Quantidade e qualidades excepcionais dizem que esse vinho, e mais do que um simples vinho, é o vinho do amor dado por Jesus aos seus, é o amor que não pode mais faltar. Nós ainda hoje continuamos bebendo aquele vinho de Caná que nos foi dado por Jesus, e à sua mesa, quando celebramos o encontro com ele, a adesão a ele, a fé nele, celebramos as bodas entre ele e a comunidade cristã, a Igreja, seu corpo.

Assim como nas bodas os dois se tornam “uma só carne” (Gn 2, 24; Mc 10, 7.8; Mt 19, 5.6; Ef 5, 31), assim também na eucaristia os fiéis se tornam corpo de Cristo, Senhor e Noivo, Noivo que se dá totalmente à sua comunidade, à sua noiva.

Por que a metáfora das bodas é tão poderosa e intrigante? Porque, mais do que outras, expressa a verdade da encarnação: corpos que se tornam um só corpo, comunhão e comunicação no canto do amor, na sóbria embriaguez do vinho. A nossa linguagem humana é limitada, especialmente quando quer fazer alusão a realidades invisíveis, e então recorre às realidades mais humanas, humaníssimas: comer, beber vinho, o encontro dos corpos na celebração do amor recíproco e do pertencimento recíproco.

Somos sempre convidados ao banquete de Caná, não para procurar um noivo e uma noiva que não estão lá, mas para sermos coenvolvidos nesse encontro entre Cristo, Senhor e Noivo, e a sua comunidade. Trata-se de ir a Caná,

de tentar ver com olhos de fé,
de escutar as palavras da fé,
de executar as palavras ditas por Jesus,
de degustar o vinho do Reino
e de tocar, sim, de tocar o corpo de Jesus.

Então, sentiremos que ele está esperando beber logo conosco o vinho novo do Reino (cf. Mc 14, 25 e par.): ele o bebeu na terra, deixou-o a nós como dom eucarístico, mas vai bebê-lo de novo conosco na terra nova, no céu novo (cf. Is 65, 17; 66, 22; 2Pe 3, 13; Ap 21, 1).

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