Epifania, manifestação da antirrealeza de Jesus

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04 Janeiro 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste domingo, 6 de janeiro, solenidade da Epifania do Senhor (Mt 2, 1-12). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No nascimento e na morte de Jesus, ressoa para ele o mesmo título, “Rei dos judeus”. No nascimento – é o texto que a liturgia nos propõe – os magos dizem isso, e os escribas e Herodes o repetem; na morte, Pilatos faz com que se escreva isso em um cartaz (cf. Mc 15, 26 e par.; Jo 19, 19), os soldados o usam para zombar dele (cf. Mc 15, 18; Mt 27, 29; Jo 19, 3), todos os presentes o leem na execução bárbara da crucificação (cf. Jo 19, 20).

No nascimento e debaixo da cruz, está a mesma revelação: a humanidade é uma só na busca de Deus e no repúdio de Deus ou, melhor, ao crer no bem com esperança ou ao não crer no bem, preferindo a violência, o mal.

Portanto, o Evangelho da Epifania, da manifestação da identidade de Jesus aos gentios, àqueles que não eram judeus, filhos de Israel, é um Evangelho decisivo, que dá à festa de hoje um significado particular: Jesus nasceu Rei dos judeus, Rei do povo de Deus, mas para todos, e todos podem buscá-lo e ir ao seu encontro.

Neste relato de Mateus, há eventos, eventos na história, mas há também uma leitura que o evangelista faz na fé. Nasce um menino em uma simples família formada por um artesão, José, e pela sua jovem esposa, Maria; nasce em uma estrebaria, abrigo para o rebanho nos campos de Belém, mas alguns homens de longe, a partir do oriente ou, melhor, da sua sabedoria “orientada”, na sua busca, são levados a ver nesse simples nascimento o cumprimento da sua busca, a plenitude da sua espera.

Os magos não conhecem as Escrituras nem a língua ou os costumes da terra para a qual se põem em viagem. Estão tão desprovidos a ponto de pedir informações a Herodes sobre o nascimento do novo rei, mas são homens habitados pelo desejo, pela inquietação e, portanto, em busca, em espera.

Todos os humanos de todos os tempos e culturas têm em comum, acima de tudo, a busca do bem, mesmo que, depois, contradigam esse seu desejo tão exigente. Em cada ser humano, existe um anseio de bem, de vida plena, de paz, e esse fogo que habita os humanos os leva a buscar, a se porem a caminho, a declarar como insuficiente para eles a terra que habitam, o horizonte costumeiro.

Por esse caminho, os humanos buscam e encontram como sinais aquilo que podem: o céu, a terra, o mar e também as criaturas animadas e inanimadas com as quais sabem se comunicar.

Naquela longa peregrinação, especialmente da mente e do coração, alguns sábios, os magos, olharam para as estrelas, para a areia do deserto, para os animais que cavalgavam, para a bagagem que transportavam com eles, para viver e para dar de presente. Para quem perscruta o horizonte, sempre surge uma estrela, sempre – como diz o nosso trecho evangélico –, há um oriente, um sinal que surge no horizonte, que convida ao caminho.

E assim aconteceu para aqueles mágoi, que, do oriente (apó anatolôn), chegam em Jerusalém, a cidade santa, o umbigo do mundo (cf. Sl 48, 3; cf. Ez 5, 5; 38, 12). Eles perguntam: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?”, justamente aos judeus que não haviam se dado conta do nascimento do seu Rei. Não havia se dado conta o rei que reinava naquele momento, Herodes; não haviam se dado conta os sacerdotes do templo de Jerusalém, nem mesmo os especialistas nas Sagradas Escrituras, os escribas.

Eis o escândalo: quem se dedica a conhecer e a observar aquilo que acontece não sabe, quem é capaz de interpretar pontualmente as Escrituras em referência ao Rei dos judeus anuncia isso com clareza e certeza, mas em uma situação de cegueira radical.

É assim, e ocorre assim ainda hoje: pode-se conhecer as palavras de Deus contidas nas Escrituras, pode-se citar e explicar com competência, pode-se até ensinar aos outros, mas, ao mesmo tempo, permanecer em uma situação de total cegueira ou surdez, manifestações da sklerokardía, da calosidade do coração que impede discernir a presença da ação de Deus.

Essa vinda dos magos, porém, causa inquietação, perturbação por parte dos representantes do poder político e de toda a Jerusalém, porque, quando um poder vê outro poder surgir, teme e treme, sentindo-se ameaçado. A partir daquela hora, a inquietação e a perturbação não vão cessar, até o dia em que esse Rei dos judeus que nasceu for à morte, revestido por um manto de púrpura, com uma cana como cetro na mão, com uma coroa de espinhos na cabeça, zombado, esbofeteado e, por fim, pendurado nu em uma estaca, a cruz!

No entanto, aqueles sábios obedientes às Escrituras dos judeus ou, melhor, reorientados pelas Escrituras, conseguem novamente ver a estrela, que, depois de um longo eclipse, os conduz ao menino Rei Messias, em Belém, onde encontram aquilo que buscavam, mas que certamente não esperavam assim: não um palácio real, não uma corte real em festa, nem a pompa digna do nascimento de um príncipe, mas simplesmente um menino e a sua mãe. Contemplam aquilo que há muito esperavam e buscavam, mas outra coisa: o imprevisível nascimento de um pobre menino em uma família simples que encontrou abrigo em uma gruta.

São três os sinais que os magos escutaram e interpretaram: a estrela que apareceu no céu, um evento deste mundo que deve ser absolutamente percebido e decifrado; as Sagradas Escrituras, que contêm aquela palavra de Deus que ilumina e revela aquilo que não podemos saber por nós mesmos; a ardência do coração que pede para fazer a viagem, a inquietação que leva a buscar, a ir rumo a uma promessa.

E assim, como convertidos, mudados nas suas mentes e no seu coração, os magos reconhecem a verdadeira realeza na antirrealeza, a realeza poderosa e universal na fraqueza humana, em um infante incapaz de falar e de ser eloquente com a palavra. No entanto, entendem, chegam à fé, embora não sejam destinatários nem da revelação nem das Sagradas Escrituras; e não por acaso Mateus anota que eles retornam ao seu país através de outro caminho, isto é, outro modo de pensar e de viver; “convertidos”, portanto.

Assim ocorre a revelação, para os judeus e para os gentios: somente olhando para a fraqueza de Jesus, para a sua pequenez, pode-se compreender a sua verdadeira realeza, a sua verdadeira identidade, não moldada com base nas imagens dos reis e dos poderosos deste mundo. Por outros caminhos, os outros Evangelhos dirão a mesma coisa: contemplação (theoría) de Jesus é vê-lo crucificado (cf. Lc 23, 48); visão que leva à fé em Jesus é vê-lo como semente caída na terra (cf. Jo 12, 24).

Aqueles magos, convertidos diante da vista do menino naquela pobre família, naquela manjedoura, adoram, prostram-se e lhe oferecem de presente ouro, incenso e mirra, produtos preciosos do oriente, elaborados pela cultura dos gentios. Aquilo que Jesus ressuscitado pedirá aos discípulos – “Ide e fazei discípulas todas as nações” (Mt 28, 19) – tem aqui a sua primícia, porque, nos magos, as nações começam a se fazer discípulas do próprio Jesus. As nações, de fato, tornam-se discípulas quando buscam com sinceridade, abrem-se com audácia e se põem a caminho sem demora.

Na Epifania do Rei dos judeus em Belém, começa a se manifestar aquela cisma que se consumirá diante de Jesus: por um lado, o reconhecimento e a adoração dos gentios, de outro, o não reconhecimento por parte dos filhos da promessa. Porém, justamente nesse evento, Jesus, a humanização do Deus de Israel, aparece como lugar de encontro entre os gentios e o povo de Deus, por ser filho de Israel, Rei dos judeus, mas reconhecido e adorado como Rei também pela humanidade desprovida da promessa.

Quantos homens e quantas mulheres, do oriente e do ocidente, do norte e do sul, como esses magos, buscam o bem, sentem-se viandantes, a caminho, exercitam-se a reconhecer a salvação como humanização e se comprometem para que o humano seja cada vez mais humano. Quer saibam ou não, são pessoas às quais toda criança que nasce, todo humano que vem ao mundo deve aparecer com a dignidade de um rei; como um irmão ou uma irmã que espera de nós o nosso ouro (aquilo que temos), o nosso incenso (o perfume desprendido pela nossa presença), a nossa mirra (aquilo que sabemos sacrificar de nós mesmos, gastando a vida pelo outro).

A Epifania é manifestação da verdadeira realeza a todos, cristãos e não cristãos. Mas já nos encaminhamos para a Páscoa, como recorda o anúncio da data desta “festa das festas”, que hoje é feita nas igrejas do oriente e do ocidente: a Páscoa, quando o Rei dos judeus terá o fim de qualquer pessoa que ouse pensar e pôr em prática uma realeza como serviço ao outro e não como poder violento. Mas a última palavra pertence a Deus, ao Deus de Jesus, aquele que o constituiu Senhor e Messias para sempre, Rei dos judeus e, portanto, Rei do universo.

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