Morreu Xavier Tilliette. O pensador jesuíta que estudou principalmente Schelling

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13 Dezembro 2018

Xavier Tilliette | Foto: Wikimedia Commons

"Ninguém é herói para o seu criado": eu ainda ouço o padre Xavier Tilliette citar o provérbio favorito de Hegel enquanto caminhávamos depois do almoço nos largos corredores da Gregoriana. Se é assim, não é porque ele não é um herói, mas, ele pretendia dizer, porque é apenas um criado e para um criado, tão ocupado com o trabalho doméstico, os heróis não existem. Em 10 de dezembro passado, um grande homem nos deixou.

A reportagem é de Jacques Servais, publicada por L'Osservatore Romano, 12/13-12- 2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Padre Xavier Tilliette não foi só um filósofo e um teólogo primoroso, foi um verdadeiro jesuíta. Nem todos que o conheceram de perto tiveram oportunidade de medir sua grandeza e nobreza. Mas ele estava lá para o mundo e para a história, como uma rocha do pensamento e da espiritualidade, sólido e firme diante do que ele considerava a anulação e o colapso de uma civilização. Durante seus quase cem anos de vida, ele tinha lido, estudado, conhecido e frequentado os maiores pensadores do nosso Ocidente cristão. Mais do que Hegel - o herói do mais idoso padre Gaston Fessard, e com ele de toda uma geração de jesuítas franceses - é Schelling, a sua obra "em devir", sempre defendendo o movimento da existência, que ele escolheu como guia nos seus primeiros trabalhos acadêmicos. A arte, assim tinha aprendido na escola de Schelling, dá à filosofia a sua credibilidade. Sem a inspiração das Musas, um pensador dificilmente pode produzir verdades.

O padre de Lubac - confidenciou-me um dia em uma conversa à mesa – que o tinha alertado bem cedo contra uma afetividade muito vívida. Este último, Henri de Lubac, que, desde o noviciado em Lyon e depois como aluno em Fourvière, Tilliette havia escolhido como mentor, desconfiava do orgulho da razão, pelo qual eram tentados alguns de seus companheiros que flertavam com Hegel. Ele ensinou, mais pelo exemplo do que por palavras, a "conversão do coração." Ele insistia muito sobre a objetividade, a submissão ao dado, e quando esse for o dado revelado por Deus, a submissão ao Mistério. O jovem Xavier levou a sério a lição. Aquela atitude espiritual aos poucos tornou-se nele um hábito, permitiu-lhe desenvolver uma forma superior de inteligência, que foi o motor de uma bela fecundidade. Em vez de permitir o livre curso de sua sensibilidade, ele se ateve, com uma disciplina pessoal exemplar, aos esforços do trabalho intelectual. Observava rigorosamente a regra que havia sido cravada na Companhia de Jesus: nulla dies sine linea.

Madrugador, dedicava as primeiras horas do dia para a escrita e então se envolvia a compor com todas as fibras de sua alma intuitiva, mas tendo o cuidado de nunca se perder em visões muito subjetivas. Ele sabia como muitos filósofos ou teólogos, que se dizem cristãos, muitas vezes ultrapassam a positividade da Revelação histórica. A primeira condição de uma autêntica busca da verdade é a objetividade, o que significava para ele - antes de começar a escrever - prestar muito tempo a ouvir, examinando os autores mais importantes para ouvir a sua voz através dos textos, poder citá-los, explicar, trazer à superfície racionalmente as articulações internas.

As dificuldades inerentes a Schelling, que decidiu estudar sob a direção de Jean Wahl, do qual frequentava o Colégio filosófico, não foram para ele um obstáculo fácil para terminar a sua tese, que se arrastou por mais de dez anos como uma bola e uma corrente ("Eu estava obcecado pelo lema do Icam de Lille: terminar"). Não tinha ilusões sobre os limites de sua abordagem ("O acesso à obra é oblíquo, é o romance da educação intelectual de um filósofo, de sua ruminação, de seu esforço", dizia com modéstia), mas sua dissertação lhe conferiria nos âmbitos científicos a autoridade de perito francês do grande Idealismo alemão. Não só ensinou por décadas na universidade, sua "segunda pátria", especialmente no Institut Catholique de Paris, mas assim também entrou em contato com muitas personalidades de fama internacional, na França, na Alemanha, na Espanha, Portugal e especialmente na Itália, o país em que teve o maior número de alunos.

Não pode deixar de maravilhar a multidão de filósofos, teólogos e escritores de todos os tipos que evoca com sua caneta, para fazer com que digam o melhor de si mesmos. Desde o início dos anos 1970, recuperou totalmente a sua inclinação, a filosofia religiosa, e centrou especificamente a atenção em Cristo e na cristologia, tentando aclimatar a ideia de uma cristologia filosófica que não seria "nem redutora nem insincera". Suas lições, e logo as suas obras, que giram em torno desse tema - em 1991 receberia o prêmio Montyon da Académie Française por seu Christ de la philosophie, publicado pela editoraCogitatio Fidei – propiciaram a ele a admiração e a amizade de Hans Urs von Balthasar. Ainda me lembro como, durante algumas conversas informais com o Padre de Lubac no chalé de montanha no Rigi, o teólogo suíço mencionou os artigos de Tilliette sobre a Cruz e a kenosis (seriam posteriormente retomados em La Semaine sainte des philosophes). Foi um dos raros teólogos a ter apreendido e aprofundado o sentido da espiritualidade do Sábado Santo, aquele "suspense da redenção" que, sob a orientação de seu confessor, Adrienne von Speyr, tinha experimentado na passagem da Sexta-feira, à espera de absolvição pascoal.

No campo da filosofia, padre Tilliette só foi, como gostava de dizer "um trabalhador da terceira ou da sexta hora". Um de seus primeiros livros, publicados aos quarenta e um anos, no final da sua longa formação como jesuíta, é dedicado à literatura: esta permanecerá seu jardim secreto. À margem do outro ensaio de filosofia no mesmo campo de pesquisa, Philosophies eucharistiques, para o qual, por sinal, ele foi agraciado, em 2006, com o Prêmio Humboldt e o prêmio Victor Delbos do Institut de France, doou ao público um livro que apreciava muito, Le Jesuite et le Poète, Éloge jubilaire à Paul Claudel. Como o canto de um cisne, poderíamos dizer, considerando a longa velhice que progressivamente o reduziu à impotência total. Ele que tinha escrito tão bem sobre o “interminável crepúsculo ártico" do Sábado Santo, experimentou seu gosto amargo antes de participar da ressurreição dos justos.

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