Os sentidos da rebelião francesa

Revista ihu on-line

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

Edição: 531

Leia mais

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

Edição: 529

Leia mais

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

Edição: 531

Leia mais

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

Edição: 529

Leia mais

Mais Lidos

  • ''O sexo é rebelde contra o homem assim como o homem a Deus''

    LER MAIS
  • Concílio, 60 anos depois do anúncio de João XXIII: uma decisão inspirada para atualizar a Igreja

    LER MAIS
  • Chile. Jesuítas investigam uma denúncia de abusos contra Renato Poblete

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

13 Dezembro 2018

Governo Macron recua e entra em crise. Mas as revoltas vão se espalhar e exigem saídas novas. Uma delas: resgatar os cidadãos, emitindo e distribuindo dinheiro.

O artigo é de Umair Haque, Diretor do Havas Media Labs e autor de "Betterness: Economics for Humans" e "The New Capitalist Manifesto: Building a Disruptively Better Business", publicado por Outras Palavras, 11-12-2018. A tradução é de Marianna Braghini.

Eis o artigo.

Paris, em chamas. Há a Itália, tomada pela raiva. Há o Reino Unido, cometendo o maior ato de auto-destruição na história recente. Há os Estados Unidos – tantos problemas tenebrosos, de tiroteios em massa à classe média implorando cuidados de saúde a estranhos, online. Ninguém sabe direito por onde começar.

Ena semana passada, houve o G20. O curioso é que o problema central,que surge como uma avalanche de raiva, ressentimento, medo e fúria…sequer esteve na agenda. Na verdade, o que está em pauta é o oposto deste problema. O problema é o Capital. Ele concentrou-senas mãos de alguns poucos, que o ganharam por meios duvidáveis, e depois o enterraram em arcas do tesouro pelo mundo. O resultado é que não há dinheiro suficiente nas mãos das pessoas e sociedades. Voltaremos ao tema, mas primeiro, vamos entender como tudo aconteceu.

O que eclode em todo o mundo é que as pessoas sentem-se atoladas, porque de fato estão. Sua renda deixou de crescer, inclusive nos países ricos. Nos EUA, essa tendência começou em 1970 – precisamente no momento em que a segregação racial era vencida. Na Europa, teve início entre cinco e quinze anos atrás. E a questão é que seus líderes, instituições e governos estão dando pouca ou nenhuma atenção ao problema: não têm nenhum plano ou agenda para reverter a desastrosa tendência de estagnação.

“Estagnação” – que na verdade significa escassez de dinheiro em uma sociedade – é precisamente o que aconteceu durante os anos 1930. Deu-se em diferentes nações, de diferentes maneiras. Na Alemanha, as dívidas contraídas após a I Guerra Mundial com o Reino Unido e França eram onerosas demais para ser pagas. A classe média foi levada à ruína e os pobres afundaram na miséria. Nos EUA, a combinação de monopólios e especulação, durante a década de 1920, deixou o país em “depressão”. A poupança média arduamente conquistada fora esbanjada por bancos e fundos em diversos esquemas fraudulentos do tipo “fique rico rápido”. Os resultados foram sempre os mesmos – as condições de vida das pessoas atolaram e começaram a regredir.

Como o fenômeno da estagnação acontece agora? De forma muito parecida. Uma grande crise financeira. Os bancos foram socorridos. Uma geração de governantes neoliberais imaginou que seus países estavam “falidos”. Eles começaram a cortar em investimento social no exato momento em que a economia titubeava – e bang! Este duplo golpe esmagou as pessoas comuns. No Reino Unido, por exemplo, a queda no padrão de moradia foi a maior em séculos. Nos EUA, a vida das pessoas começou a desmoronar. A classe média literalmente implodiu, tornando-se uma minoria. Na Alemanha, França, Itália, o conforto e a facilidade de gerações da social democracia estão ameaçados.

Nasceu a era da “austeridade”. Infelizmente é onde estamos hoje. Enquanto Paris queima, enquanto as pessoas se enfurecem, enquanto a Itália se inflama, as pessoas tornam-se furiosas. Os Estados Unidos desmoronaram, o Reino Unido destrói-se em confusão e desorientação. Não há nenhum plano de socorro às sociedades, pessoas, idosos,juventude. Nem ao menos um. E sem tal planejamento, se você entendeu tudo acima, não há nenhuma chance de que o mundo continue em paz,cooperação e prosperidade.

Sem um socorro às pessoas, o problema central no mundo – a estagnação – não tem solução. Ela prosseguirá, porque a concentração de dinheiro e a resultante escassez deste entre as pessoas e sociedades não irá mudar. Enquanto isso acontece, os cidadãos parecem cada vez mais inclinados a escolher governantes autoritários, extremistas e fanáticos – que de forma inteligente direcionam a fúria contra os que estão abaixo, nas hierarquias sociais: imigrantes, refugiados e assim por diante. Essa é exatamente a lição dos anos 1930 — mas estamos revivendo tudo agora e por algum motivo, parece que nossos governantes estão totalmente alheios (como os conservadores norte-americanos), não se importam muito (como os neoliberais da UE) ou sorriem e convidam ao apocalipse (como os apoiadores do Brexit).

O que significa “um socorro” às pessoas? Do que estariam sendo resgatadas? As sociedades e pessoas necessitam muito ser recapitalizadas – ou seja, precisam de dinheiro suficiente para que os rendimentos voltem a crescer, para que prevaleça um senso de segurança, para desfrutar de um senso de liberdade mais uma vez, para que cresça uma esperança de prosperidade. Por isso, um resgate das pessoas é bem simples. Significa apenas investir o dinheiro criado nas próprias pessoas. Seja diretamente – na forma monetária – ou indiretamente, por meio de mais e melhores hospitais, escolas, mídia, educação e todos os trabalhos que este movimento criaria. Apesar disso, o foco dos governantes – e mesmo da maior parte das pessoas – tornou-se, em grande parte, a “austeridade”. Mas falar em “austeridade” é precisamente o mesmo que dizer “mesmo que eu não tenha dinheiro suficiente para prosperar, e nem o meu país, não quero que ninguém nunca mais tenha dinheiro algum. Prefiro que as pessoas permaneçam pobres e endividadas!” É uma crença engraçada, bizarra e perigosamente insensata — que sugere ignorância completa do mundo, da história e de política econômica.

Um “resgate das pessoas” significa dar dinheiro liberalmente (olá, liberais!). Isso o horroriza? Você vale mais que alguns poucos milhões? Então, você deveria se posicionar a favor da proposta – e não contra ela. Se você é um cidadão médio do mundo rico, sua poupança é bem menor que suas dívidas, porque sua renda não cresce há anos, talvez décadas.

Imprimir dinheiro causa inflação, mas também acaba com os débitos. E portanto resolve ambos problemas de estagnação de uma só vez. Inflação significa que sua renda cresce (não apenas “os preços”) e também significa que suas dívidas encolhem. Você deve querer ambas as coisas nessa conjuntura da história: menor débito e maior renda. O jeito mais simples de pensar a respeito é: você deveria querer mais dinheiro – e não menos – porque o problema é que você não tem o suficiente para levar uma boa vida. Por isso, deveria ser fortemente a favor da criação de dinheiro novo, porque é o único meio que conseguirá obter mais recursos.

E ainda assim você ainda pensa que um resgate individual, ser recapitalizado, é política errada. Você provavelmente está confuso(a) sobre as noções básicas de economia: acha que o ruim é bom, e que o bom é ruim. E é também por conta disso que os governantes atuais falharam na gerência da economia global. Eles cometeram o mesmo erro que você. Eles decidiram que é melhor ser pobre do que ser rico; melhor ser desprovido de poder do que ser empoderado; melhor ser ignorante do que sábio.

De onde vem esse equívoco sobre economia básica – a ideia segundo a qual as sociedades nunca poderiam, nem deveriam criar dinheiro novo e dividi-lo entre as pessoas? Quem ensinou isso? Esta é a internalização da lógica capitalista. Equivale a pensar que o dinheiro existe apenas para ser propriedade privada de um pequeno número de pessoas, em vez de um recurso público do qual dependem uma ou um conjunto de sociedades. As únicas pessoas que se beneficiam da “austeridade” são os verdadeiros capitalistas – aqueles cuja renda vem do capital, pois são donos de toda a dívida. Para eles, é verdade, o investimento social é ruim. Mas não para você! A esta altura, é a única coisa no mundo que pode erguê-lo.

O capitalismo nos ensinou que uma sociedade investindo em si mesma – criando dinheiro e o distribuindo entre as pessoas – é ruim. Por isso, você, como muitas outras pessoas, age furiosamente contra seus próprios interesses. “São aqueles imigrantes! Foram eles que arruinaram minha vida!” Não, não caro amigo. Os imigrantes estão em situação ainda pior que a sua. Hoje todos estão sofrendo porque o capitalismo, por meio do neoliberalismo, convenceu quase todo mundo que é melhor ser pobre do que ser rico. O resultado é uma escassez de dinheiro, um déficit de investimento, porque o capital se empilhou – onde mais? – nas mãos dos capitalistas, em níveis sem precedentes desde os anos 1930.

Por que há pouco estoque de dinheiro e capital para as pessoas comuns? A razão deveria ser óbvia. Porque o acúmulo, entre os super-ricos é grande e injusto demais . A desigualdade tem crescido arrasadoramente e de forma íngreme, todos sabemos – mas o que ela realmente significa é que há muito dinheiro concentrado no topo das sociedades, e muito pouco fluindo para todos os demais. Este dinheiro amontoado no topo literalmente não tem mais nenhum lugar útil para ir – todas as mansões e iates foram comprados. Por isso, há agora setores inteiros cujo único propósito é desviar as fortunas dos super-ricos para paraísos fiscais, para escondê-las em arcas de tesouro. O resultado é que as sociedades estão famintas de dinheiro e as condições de vida estagnaram ou regridem.

Os governantes atuais escolhem “austeridade” em vez de investimento. Significa empobrecimento, ruína e colapso em vez da prosperidade, democracia e abundância. É vital entender que tudo isso é uma escolha — não um tipo de restrição natural. Frequentemente, afirma-se que uma “união mais profunda” da Europa exigiria criar pobreza. Nada poderia ser tão distante da verdade. A Europa, como os Estados Unidos, fez a escolha errada — só que em grau menor. Deixar as pessoas e sociedades famintas de dinheiro é sempre uma escolha, nunca uma necessidade.

“O dinheiro é para os capitalistas — todo mundo estaria melhor assim!” Quanta estupidez! O que realmente aconteceu foi tão previsível quanto péssimo: os capitalistas abocanharam todo o dinheiro em que conseguiram colocar as mãos, espoliando uma sociedade após outra. Depois, esconderam-no em arcas de tesouro enterradas pelo mundo. Mas o resultado é que agora há menos dinheiro para ser gasto, investido, utilizado, compartilhado, trocado, investido.

Ainda assim, os sábios que comandam o mundo coçam suas barbas, perguntando-se: onde iremos conseguir mais dessa mágica substância, deste misterioso poder, o dinheiro? E o mundo se pergunta — em raiva, em fúria, em desespero, junto com eles – nunca entendendo que o dinheiro não tem nenhum segredo. Desde que as pessoas sejam suficientemente corajosas, sábias e honestas para dar uma as outras.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Os sentidos da rebelião francesa - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV