Chama-se igualdade a ressurreição dos não crentes, dos laicos

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06 Dezembro 2018

Roberto Esposito, filósofo italiano, comenta o novo livro de Vincenzo Paglia, Vivere per sempre. L’esistenza, il tempo e l’Oltre (Viver para sempre. A existência, tempo e o Além - em tradução livre -, Piemme) em artigo publicado por La Repubblica, 05-12-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Vivere per sempre. L'esistenza, il tempo e l'Oltre
Vincenzo Paglia
Editora Piemme
Itália: 2018
€ 17,50

A essência do cristianismo não está na simples crença da vida após a morte, em uma genérica mensagem de salvação ou na ideia da imortalidade da alma, mas na fé que Cristo ressuscitou. E que todos aqueles que confiam nele ressuscitarão. Essa tese radical, já defendida por Oscar Cullmann em meados do século passado, está no centro do novo livro de Vincenzo Paglia, Vivere per sempre. L’esistenza, il tempo e l’Oltre.

Paglia recorda que quando o apóstolo Paulo começou a difundir a doutrina cristã entre os filósofos gregos, estes o ouviram inclusive quando ele falou da dimensão religiosa da vida, da obra de Jesus ou da sua origem divina. Mas assim que Paulo introduziu o assunto da ressurreição, eles abandonaram o discurso. Não entendiam. Mas, precisamente naquelas palavras, reside o núcleo incandescente e escandaloso do cristianismo.

Jesus não sobreviveu à sua morte como Lázaro, mas ressuscitou depois dele ter morrido. Só então "a morte foi tragada pela vitória" (Paulo, 1 Coríntios, 15). É esse evento que liberta a história da escravidão do mal. Que derrota o inimigo para sempre. Para mudar o conceito de morte e, portanto, também da vida.

Embora Paglia, como grande parte dos teólogos contemporâneos, relativize a diferença entre ressurreição dos corpos e imortalidade da alma – ambos frutos da vontade divina - o sentido último do cristianismo repousa sobre o mistério da ressurreição. Contra a tendência de diluir sua especificidade em uma dimensão genericamente ética, compartilhada por outras religiões e também por grande parte do mundo laico, Paglia reivindica o elemento peculiar do dogma cristão. A desmitificação de seus conteúdos mais difíceis, partindo do motivo da ressurreição da carne, corre o risco de obscurecer a parte mais revolucionária do cristianismo.

Que, sendo uma religião da vida, diz respeito precisamente à relação com a morte. «Em face da morte, o enigma da condição humana atinge seu ápice”, afirma-se no Concílio Vaticano II. Para sua remoção, característica da condição contemporânea, Paglia dedica algumas das páginas mais eficazes. Apesar da atenção que ele dedicou à filosofia contemporânea, a atitude mais difundida hoje é deixar de lado o pensamento, evidentemente insustentável, da morte. Espera-se morrer sem perceber, de repente. Entendido por alguns como um dado puramente biológico ao qual se resignar, por outros como algo que, com o progresso técnico-científico, será possível adiar mais e mais, o evento da morte é neutralizado em seu sentido último.

Por outro lado, como afirma Hans Urs von Balthasar, agora aquele das coisas últimas é "um canteiro de obras fechado para restauração". No entanto, expulso pela porta, o pensamento da morte volta pela janela.

Primeiramente, porque não podemos evitar, especialmente com o aumento da idade, que sua sombra se estenda em nossa experiência. Mas o que nos preocupa não é apenas a nossa morte futura, mas também a morte daqueles à nossa volta. Hoje há muitos envolvidos, direta ou indiretamente, no trabalho sujo da morte, facilitando-o ou permitindo-o. Enquanto os genocídios, longe de se esgotarem na primeira metade do século passado, se sucedem, as vítimas da guerra, da doença e da fome multiplicam-se em todos os cantos do mundo. Desse ponto de vista, a fantasia popular do inferno é superada pelo horror da realidade circundante.

A imagem de indigentes, desesperados, náufragos de terra e mar, fechados por muros, rejeitados nos portos, violados nos campos de detenção, repropõe a figura horrível. Em sua origem está, para o autor, de um lado o isolamento narcísico do eu e, de outro, a contraposição do "nós" a "eles". O oposto da paz não é apenas a guerra, mas também o egoísmo e a indiferença que destina os seres humanos ao abandono e ao sofrimento.

No entanto, na escuridão da morte, a luz da vida continua a transparecer. Aliás, apenas a consciência da fragilidade da existência permite resistir ao que a nega. De acordo com Paglia, sem apagar, ou melhor, só reivindicando a sua diferença, o mundo da fé pode fazer uma aliança salvadora com aquela da razão laica. Uma aliança baseada na consciência de que os povos, todos os povos da Terra, estão unidos pelo mesmo destino. Não se pode imaginar que uma parte do mundo se desenvolva à custa de outra. Ou a humanidade é salva em sua totalidade ou toda junta está destinada a perecer. Nessa convicção, há algo mais do que uma simples afirmação do pluralismo político. Existe a ideia de que a unidade dos povos é reforçada na origem da vida. Os povos são desde o início hibridizados sob o perfil étnico, histórico e cultural. A partir disso, uma ponte conecta os crentes aos não crentes. Se para os primeiros vale o princípio de Paulo que, em Cristo "não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" (Gál 3, 28), para os segundos, a igualdade continua a ser um objetivo irrenunciável. Para os laicos, a morte nunca é o encerramento feliz de uma vida. Sempre permanece sua incompreensível ruptura. Mas isso não apaga o significado de um empenho cristão que saiba se tornar "católico" no sentido originário do termo.

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